Roberto Ploeg






Roberto van der Ploeg é um pintor holandês que, desde 1979, mora no Brasil. Ao chegar à Recife se estabeleceu no Alto do Pascoal, com vista para o Estádio do Arruda. Foi ali que, nas palavras do artista, sentiu “amor à primeira vista” pelo Santa Cruz Futebol Clube.


    Biografia

     Roberto van der Ploeg nasceu em Valkenburg aan de Geul na Holanda em 1955. Ele veio em 1979 para o Brasil no contexto de um estudo de mestrado em Teologia Latino americana. Desde 1982 reside no Nordeste brasileiro. A mudança da teologia para a pintura não foi muito radical para Roberto Ploeg. Segundo ele teologia e arte são de essência metafórica porque as duas procuram apresentar de maneira pessoal, experiências universais em imagens literárias e visuais. Neste sentido o teólogo é um artista da palavra. O caminho pessoal de Ploeg foi da palavra à imagem visual. Ele fez sua formação artística através de vários cursos em instâncias culturais em Olinda e Recife (MAC, Oficina Guaianases, Escolinha da Arte, UFPE, IAC, Fundaj). Após anos de atividades como teólogo da libertação no Nordeste Brasileiro, ele opta em 1995 definitivamente pela arte.

    algumas obras

    • ploeg
    • Cajueiro e Céu de Verão
    • Moça com chita
    • Agreste
    • milharal

    depoimento do artista sobre a série Eckhout - Nativos

    • a rainha
    • cabloco
    • recife
    • vestido vermelho

              

             

    "Conheci a pintura de Eckhout através do livro de Clarival de Prado Valladares e Luís Emygdio de Mello Filho, intitulado "Albert Eckhout, Pintor de Maurício de Nassau", Rio de Janeiro 1981. Fiquei fascinado, de imediato. Sensibilizaram-me os aspectos contínuos da apresentação e interpretação do Brasil por Eckhout nos tipos, na paisagem, nas árvores e nos bichos, naquele céu imenso, típico da pintura holandesa, aqui dotada de uma luz tropical, enfim, na "atmosfera rarefeita". Reconheci minha experiência e visão do Brasil, de holandês radicado no Nordeste Brasileiro desde 1982.

              O reconhecimento vem daquela continuidade como descreve José Cláudio em "Artistas de Pernambuco" (Recife 1982): "A paisagem, a natureza que viram os olhos dos holandeses ainda a podemos ver quase sem sair do Recife, as mesmas casas de taipa, as mesmas moitas selvagens, e em matéria de culturas somente o canavial, a mesma gente de pé no chão e até a mesma idéia de tempo e economia, indo apanhar manga e caju, procurando cacho de dendê, se atolando no mangue para pegar caranguejo e até caçando e pescando para comer, andando a pé, carregando balaio na cabeça, andando meio nus, arm ando arapucas, chamando boi"

              Surgiu a vontade de revisitar Eckhout, 350 anos depois, com o intuito de fazer minha leitura do Brasil através do retrato. Nessa releitura sigo alguns parâmetros das grandes telas de Eckhout. Sigo, mas não a rigor, deixando abertura para brincar com esses mesmos parâmetros que são: figura central em pose frontal, linha do horizonte na altura dos joelhos da figura, céu imenso, pano de fundo paisagístico cheio de detalhes, no primeiro plano flora e fauna com destaque para uma determinada árvore e um bicho.

              Eckhout retratou quatro casais representando várias etnias: homem Tapuia e mulher Tapuia, homem Tupinambá e mulher Tupinambá, mulher mameluca e um homem mestiço, um casal de negros. Existe ainda a composição de uma cena em movimento intitulada "a dança Tapuia".

                Ana Maria de Morais Beluzzo  cogita a hipótese de uma interpretação alegórica dos quatro casais, representando os quatro continentes:

              Os tapuias nus e bárbaros, colocados na contigüidade com a paisagem natural intocada e identificados por lanças de caça e pesca e pela sobrevivência canibal, não escapam à imagem mitológica que os europeus construíram da América.

             A imagem dos índios Tupinambás aculturados na civilização européia é mais evidente na cercania da figura feminina que carrega uma criança, tendo atrás a paisagem cultivada das plantações agrícolas e no registro de outros aspectos da cultura material, como, por exemplo, o cesto trançado e as cabaças. O casal referia a Europa.

              A mameluca está emoldurada pela natureza mais sensual: as flores evocam perfume e promovem a cor, os frutos falam de sabor, as jóias atraem o olhar, os trajes de cetim sugerem o contato com o corpo e um pequeno porquinho da índia saído de um quadro como "Adão e Eva no Paraíso", de Peter Paul Rubens e Jan Breughel, o Velho, completa convenientemente a suavidade da paisagem e da cena. Nos cabelos soltos e nos olhos amendoados da mestiça pode-se notar um certo paralelo com a imagem feminina descrita por Cesare Ripa para a alegoria da Ásia.

              O homem mestiço pode muito bem ser um subalterno asiático a serviço da Companhia das Índias Orientais pelo uso do saiote de tecido e não calções curtos, pela tatuagem na face esquerda e pelos espécimes vegetais representados.

              O casal de negros evoca a África, o homem Gana, a mulher Angola, escravos, aqui convertidos em dignos representantes da civilização negra, um fato recorrente na pintura holandesa do período.

    Complementar a essa alegoria, Boogaart (5) sugere estados civilizatórios diferentes: o estado de barbárie dos irrecuperáveis Tapuias, aliados dos holandeses, e o estado promissor dos recrutados pela cultura européia: tupis, negros e mestiços.

              Retomando o empreendimento de Eckhout, tantos anos depois, me deparei com o fato que o Brasil de hoje não pode mais ser enquadrado em tipologias étnicas ou funcionais tão distintas. Procuro, portanto, apresentar a pluralidade brasileira através da singularização da figu ra humana e seu ambiente particular. Fico perto de casa, quer dizer, perto da vida que levo, das amizades e relações que fui construindo nesses anos todos no Brasil. Retrato gente do meu convívio, do meu próprio cotidiano, por sinal, todas pinturas feitas com modelo vivo. O documento é pessoal. Um "álbum de família", particular e, por suas referências alegóricas, universal em termos brasileiros ou, pelo menos, em termos nordestinos.

              Os retratados são nativos. Um termo anacrônico que remete aos tempos de descobrimento e colonização com seu olhar de fora sobre os indígenas, primitivos habitantes desta terra estranha. Nativos agora "populares", muitas vezes ainda vistos pela elite instalada como primitivos, incultos. Para mim, porém, são eles o retrato, a força e a esperança deste país. São naturais, gentes desta terra, nativos, que me cativam.

               O primeiro casal retrata a miscigenação, mais as cores brasileiras do que uma suposta raça brasileira. A pose lembra a mulher negra de Eckhout com o menino mulato. A força e presença da raça negra na formação do povo brasileiro estão simbolizadas no galo, um gigante negro.

              O homem, negro de raça, moreno de cor, posa como o guerreiro negro de Eckhout, agora numa missão mais pacífica apanhando caju no sítio onde moro. É cacaucatandocaju, numa palavra só. O bicho é um camaleão, que adapta sua cor à paisagem como Cacau faz no seu dia a dia para garantir sua sobrevivência.

              O segundo casal apresenta uma alegoria das cidades vizinhas Olinda e Recife. Olinda é um negro, sol forte na cara, reinando sobre uma Olinda bucólica, o mar para dar brisa, um pé de fruta-pão para dar comida, passarinhos lavadeiras que lembram liberdade, pois são passarinhos que não se cria em gaiola. O pessoal tem até receio de prendê-los por serem divinos. Diz-se que já lavaram a roupa de Jesus.


              Recife é uma mulher buchuda com um neném no braço, apoiado no quadril (como a índia Tupinambá de Eckhout), e na mão uma sacolinha de compras. Bucho de vida. Vida de aperreio e movimento retratada frente à cidade que serpenteada por rios e banhada pelo sol, serena flutua no mar. O flamboyant dá charme com sua folhagem fina e suas flores vermelhas.

              O terceiro casal retrata o interior nordestino: sertão e zona canavieira. O homem tem aquela cara avermelhada que faz o povo dizer que tem sangue holandês. Ele me lembra o poeta de Van Gogh e o poeta de Van Gogh me lembra os poetas sertanejos. Pintei-o numa paisagem amarela, ocre e laranja. Van Gogh que enche a tela. Ao lado um pé de algaroba que mesmo cinzento de tanta seca continua verde na folhagem, dando vagens. Um tatu se esconde no milharal.

           A zona da mata é cana sem fim, fertilidade, sensualidade lânguida de uma menina nova. Pintei-a na pose da Mameluca de Eckhout. O vestidinho vermelho. Um cachorro de lado, roncando, lembrando o Lobo Mau de Chapeuzinho Vermelho.

              O quarto casal é situado numa cena urbana, enfatizando os aspectos do crescente "apartheid social" nas grandes cidades. As duas telas formam um quadro só: "Adão e Eva e o Cão chupando manga". A posição e os bichos, a cobra morta e o cachorro, são referências ao casal de índios Tapuias de Eckhout. Retrato, digamos, do habitante "pré-colombiano", protótipo do homem americano, Adão e Eva num suposto paraíso das Américas. Assim está o casal hoje frente ao paraíso de consumo do qual é excluído. A cobra morta, desde que abaixo do equador não há pecado. O cão chupando manga, pois assim deve fazer para sobreviver.

              Como Eckhout completei a série dos retratos grandes com um quadro de dança, um forró do jeito que a gente faz em casa no mês de junho, retratando a tribo de casa, cunhados, afilhados, compadres, agregados e amigos.

              Integra a exposição também uma série de retratos menores (80 por 60cm.) de figuras populares. A pintura destes quadros foi tanto um momento de pesquisa como um motivo para chegar ao desenvolvimento dos grandes formatos (210 por 130cm.).

              Executei este projeto numa caligrafia pictórica "estilo Eckhout", uma figuração naturalista, porém não hiperrealista devido ao traço da pincelada e ao improviso da cor, que dão um caráter mais solto à pintura. Desafio foi chegar a uma unidade criativa e uma composição pictorial de todos esses elementos capazes de comunicar como Eckhout aquela "atmosfera rarefeita" que tanto me encanta"

    Roberto Ploeg
    Fonte                                                                                        
    transcrição do depoimento do artista
    2002/ Espaço Cultural Bandepe



    Série 125 anos da morte de Vincent van Gogh

    • a morte de Van gogg
    • Blue Shoes
    • Bougainville
    • Buquê de Noiva
    • cebolas
    • Flores Amarelas
    • Girassóis de Van Gogh
    • Harmonia em Amarelo
    • Raízes do Brasil
    • Painel


    "Participo de um projeto da marchand Beth Araruna em memória dos 125 anos da morte de Van Gogh. São 15 artistas que participam desta homenagem a Van Gogh. Cada um recebeu a encomenda de pintar um conjunto de 9 telas de 50 por 50 cm, totalizando um painel de 150 por 150 cm.

    Meu painel ficou uma colcha de retalhos de 9 pinturas de natureza morta, um gênero de pintura bastante explorado por Van Gogh. Segui Van Gogh nas temáticas, nas cores, no traço do pincel, em alguma composição.

    No centro está "a Morte de Van Gogh", simbolizada por uma galinha morta, de penas ruivas, torrando no sol, em baixo de um céu cheio de corvos que nem naquele quadro de Vincent, um dos últimos por sinal, do campo de trigo e os corvos no céu, pintado no verão de 1890 em Auvers-sur-Oise na França."

    Ploeg

    Trascrição do seu blog



    Quebra-cabeça em flash

    ploeg