Biografia
Aldo Luiz de Paula Fonseca
Nascido em 15 de março de 1947,
no Rio de Janeiro, venho de uma tradição familiar de duas gerações de artistas;
meu avô, João Baptista de Paula Fonseca, e meu pai, João Baptista de Paula
Fonseca Junior . Do meu avô herdei o gosto pela paisagem, de meu pai a paixão
pela figura. Naturalismo e expressionismo mesclam-se e expandem-se no meu
temperamento romântico, numa alquimia que produz telas de múltiplos temas.
Surgem figuras, palhaços, marinhas, nus, e paisagens em que o céu é de um azul
profundo e as flores multicoloridas. Como eles, cursei a Escola Nacional de
Belas Artes da UFRJ, de 1964 a 1969. Fui o segundo colocado no vestibular, com
nota dez em desenho artístico e croquis.
Em 1970, a convite do então Gerente Geral, André Midani , ingressei na Phonogram
Discos Ltda. (Ex Polygram , hoje, Universal). Estruturamos o primeiro
departamento de artes gráficas da industria do disco no Brasil, para produção de
capas de disco e outros peças de divulgação da MPB.
A pintura e o artista.
Sem luz não há cor. Portanto, esta depende daquela. Daí terem os
impressionistas, muitas vezes, confundido a luz com a cor e esta com aquela, o
que cientificamente, vem a dar no mesmo.
Meu avô era
um paisagista, foi chamado de “O pintor do sol”, o que para mim é mais que luz.
Foi talvez o melhor aluno do pintor João Baptista da Costa. Criança assistia-o
pintando, ora no atelier, ora ao ar livre. Era menino atento e me impressionava
com a quantidade de pincéis na mão esquerda, a da palheta, era para não sujar os
tons, dizia ele. As cores, a ordenação das cores na palheta, o cheiro da tinta
misturado aos arabescos azuis do caporal, a terebintina volante enfeitiçava-me,
imaginava ser aquele o mundo, meu mundo ideal para se viver em paz. A natureza
era tão exuberante que ele não pintava em dias nublados. Não tem sol não tem
pintura. Ganhou todos os prêmios oficiais e deixou nos museus e em coleções
particulares, paisagens (principalmente), e figuras, raras e impressionantes
pinturas. Era vizinho de muro com o pintor simbolista, Hélio Seelinger, eu
ficava fascinado com suas pinturas enquanto esperava sua filha Eliza, minha
professora de piano. Após a aula ia almoçar com meu avô. Eu ainda não sabia que
viria a me dedicar à pintura. Certamente todo aquele convívio foi fundamental.
Em casa, também a presença entusiasta de meu pai, com suas pinturas, seus livros
e seus desenhos, inoculavam o “vírus da arte”, incuravelmente. Meu pai
transmitia seus conhecimentos com erudição e a naturalidade agradável da cultura
dos grandes professores. Invejável!
Em 1964, de um salto, cairia no “mundo livre dos adultos”, fiz o concurso para a
Escola Nacional de Belas Artes. Era meu maior desejo estudar na escola de meu
avô e meu pai.
Preparei-me estudando todos os dias. Um desenho artístico completo, acabado, até
conseguir a marca de três horas. A prova tinha duração de 4 horas. Um número sem
conta de croquis de cinco, 10 e 15 minutos, (na prova foram três croquis de 15
minutos). Finalmente, algumas instruções preciosas do pintor e professor Jordão
de Oliveira e lá fui eu. Fiz a prova em três horas - consegui nota dez em
desenho artístico e croquis, segundo lugar na classificação geral.
Andar todos os dias e poder conversar com todos os deuses do Olímpo. Passando de
manhãzinha por aqueles corredores arejados, podíamos encontrar Fídias ou Apolo,
Vênus e a vitória de Samotrácia sob a luz mágica daquelas clarabóias daquele
poderoso granítico prédio francês do século XIX. Hoje é o Museu Nacional de
Belas Artes. Estudar desenho de modelo vivo ou anatomia, na mesma sala onde
estavam expostos desenhos de dezenas de geniais ex-alunos como Rodolfo
Bernardele, Amoedo, Cândido Portinari, para citar alguns. Ficava admirado
boquiaberto olhando aqueles estudos. Eram, de fato, impressionantes. Imaginava
quem teria sentado ali onde eu estava. Estudei durante três anos com os
professores Onofre Penteado e Abelardo Zaluar. Anatomia com o professor Victor,
História da Arte com Mario Barata, Arte decorativa com Campofiorito, modelagem
com Celita Vacani, Modelo vivo e croqui com Jordão de Oliveira e Lídio Bandeira
de Melo. No quarto ano, aula de Pintura no 3º andar com o professor Armando
Pacheco.
Em 1967 fui eleito
presidente do diretório acadêmico na chapa “Decisão”, Urian, Germano, Fernando,
Sérgio, Benevento, Lúcia. Fizemos durante seis meses o “Ciclo de estudos da arte
brasileira”. Foi quando tomei contato com o mundo real, meu conhecimento sobre
política era zero. Era, e sou ainda, admirador do Sidarta. 1968 trouxe a
repressão que chegou para ficar. 1969... Não foi fácil ver meus sonhos e a
Escola desmoronar. O Che tornava-se uma lenda. Senti-me furtado, frustrado,
impotente, órfão, desorientado. Tranquei a matrícula, não imaginava que nunca
mais voltaria àquela mágica Escola Nacional de Belas Artes. Nos anos vindouros,
a minha Escola afundaria no Fundão, anos difíceis para viver, estudar e pintar.
1970 chegou com um convite
para ir trabalhar na Phonogram, depois Polygram, hoje Universal. Foram dez anos
de muito trabalho e aprendizado. Nos quais realizei milhares de capas de álbuns
clássicos da MPB, de artistas como Elis Regina, Raul Seixas, Tim Maia, Caetano
Veloso, Chico Buarque, Jorge Ben, Ivan Lins, MPB4, Belchior, Gilberto Gil,
Erasmo Carlos, Wandeléia, Maria Bethânia, Gal Costa, Alcione, Fafá de Belém,
Jair Rodrigues, Antônio Adolfo, Toquinho, Jards Macalé, etc.- Na época, p ara
você fazer uma capa de disco, você lidava tranqüilamente com umas 15 pessoas, em
níveis diferentes, fora os boys – rememora Aldo - Lembro que uma vez perguntei
pro Chico (Buarque) sobre um disco dele: "e aí, Chico, ta pronto?". Ele usou uma
expressão que pra mim foi surpresa: "Cara, to arrancando leite das pedras..."
(rindo). Depois percebi que eu também tirava leite de pedra. Acho que todos nós
estamos sempre tirando leite das pedras. O artista gráfico tem que cumprir um
cronograma, tem que ser o melhor porque tem sempre dezenas mordendo seu
calcanhar, doidos pra derrubar você. Você tem que fazer o melhor. Justamente por
pegar uma época em que não havia computação gráfica, passei um período heróico
na Polygram, quando chefiei um dos primeiros departamentos de criação gráfica de
disco do país. Cheguei sem conhecer a fundo o assunto. Tinha uma vaga noção,
pois estava começando a estudar isso na UFRJ. Mas fui aprender conversando com
os técnicos, o pessoal que fazia fotolito, vendo como era o processo deles,
falando com montadores, fotógrafos, etc. Fui trabalhar na “Phonogram”, a convite
do gerente geral André Midani – Fizera, para o Banco Nacional, um cartaz que foi
recolhido, mas que o André viu. (Hoje eu fico pensando que o destino fez com que
eu fizesse aquele cartaz só para o André ver). Só fiquei sabendo disso anos
depois.
Entre as capas que passaram
por minhas mãos está a da trilha de peça Calabar, de Chico Buarque e Ruy Guerra.
Como a peça foi censurada, o nome do disco teve de ser mudado para Chico Canta –
já a capa, que trazia um muro com o nome da peça pichado ficou toda branca,
apenas com a logomarca da gravadora. A capa do disco Doces Bárbaros (de Gal,
Gil, Caetano e Bethânia) foi um trauma. Na época não tinha computador e você
dependia do montador, do fotógrafo, do retocador, do contato, do chefe de
estúdio, etc. O montador não entendia o que eu explicava, e não ficou como eu
queria – rememora – Mas tem aquelas que dão certo. De recordações boas, o Sinal
fechado, do Chico Buarque foi uma delas. Já Jóia, do Caetano Veloso, deu
confusão, porque depois foi todo mundo indiciado num processo por atentado à
moral e ao pudor, e a capa foi recolhida.
Após o começo dos anos 80,
quando fiz uma concorrida exposição na antiga galeria Angelis, em Icaraí,
Niterói, decidi dedicar-me apenas a pintura. Newton Rezende foi meu padrinho
nesse novo parto. Trabalhei dez anos com artes gráficas, porque pintura não dá
dinheiro. O cara diz: "Eu vou trabalhar e quando me aposentar, vou pintar", mas
isso não funciona. E hoje, em projeto gráfico, o cara faz o trabalho de seis
funcionários para ganhar o de um.
Fazia ainda capas para WEA, era “free-lancer”, 1983, quando comecei a me
envolver com o tema carnaval a partir de uma capa de disco recusada pela
Polygram. Eram grandes sucessos de carnavais passados, regravados por artistas
contemporâneos e famosos. Apresentei o projeto gráfico com o quadro “O penúltimo
Carnaval”, óleo sobre tela, 73 cm x 100 cm., feito especialmente pa a ocasião.
Um palhaço bebendo vinho com o pierrô tocando violão numa cena de muitas figuras
ao fundo.
Recusado!
Na
decepção da recusa, no caminho de volta para casa, passei pela WEA onde estava
com diretor geral meu amigo Heleno Oliveira que ao ver o quadro disse: (...) “_
Não esquenta com esse pessoal não, foi demais pra eles! (...), vai pra casa,
pinta trinta quadros desses e faz uma exposição que vai ser um sucesso!”. Bem,
isso foi em 1983. Eu estava intoxicado, de tudo, de artes gráficas e de capas de
disco. A exposição só saiu mesmo em 1987, na Galeria Toulouse do Cláudio Valansy,
na Avenida Atlântica em Copacabana. Foi mesmo um sucesso. Mas, antes disso foram
quatro anos de muitos estudos, desenhos, e, ao final, em dois meses e trinta
e cinco telas à tinta óleo em várias dimensões.
O “Clóvis” verde e a morena de costas com penacho vermelho, intitulado "O
penúltimo carnaval-II”,
foi o carro chefe que virou o convite. Desde aquele dia está na coleção
particular do também amigo Umberto Contardi. De lá pra cá não parei mais de
explorar o tema. Um veio inesgotável, pois muitos foram os mestres em todas as
épocas que abordaram o assunto com genialidade.
Eu quero pintar. Persigo “A Pintura”. Para tal, sem mais medo algum, ouso no
mágico mundo do domínio da ciência das cores, com o auxilio para mim
indispensável, das técnicas do desenho em riqueza de massas e linhas. Não há
atalhos. As mãos de todos os mestres certamente ajudam, mas, não resolvem, não
importa o tema, cada nova tela é um frio na espinha indo selva adentro.
“O pintor deseja ver uma beleza que o encante; está na sua vontade criá-la, e se
lhe apraz a evocação de monstros terríveis, de cenas grotescas e ridículas ou
comoventes, ele é senhor disso. Poderá fazer, se lhe aprouver, lugares ermos ou
recantos sombrios e verdejantes no verão, ou mesmo lugares ardentes quando
inverno”.
É evidente, dispensa demonstração, que os grandes artistas não copiaram:
Leonardo, Miguel Ângelo, Rafael, Rembrandt, Delacroix, Matisse, Loutrec,
Picasso, Antonio Parreiras, Portinari, etc. Nas épocas marcantes da história da
arte, predominam interpretações, derrogações para
o mais ou o menos. Derrogações foram os tipos ideais egípcios, os gregos (ideotípo).
Deformações fazem os ignorantes, com ou sem talento. Derrogações, deformações
propositadas, conscientes, fazem-nas os artistas cientes, ensinava meu pai.
Pinto a óleo, acrílico, aquarela, pastel, paisagem, marinha, natureza morta,
figura, o que me dá vontade. Desenho muito com grafite 8 B, adoro fazer croquis.
Dizem-me que o pintor deve escolher um tema e não largar mais, nem mudar,
principalmente. Mas o que fazer se nascido em 15 de março de 1947, no Rio de
Janeiro, não consegui desde lá deixar de voar sobre temas e materiais sempre em
busca da minha identidade, da minha caligrafia. A História da Arte está cheia de
exemplos de muito poucos bem sucedidos, o que mostra o quanto a exceção confirma
a regra. Seguirei procurando, perseguindo uma pintura emocionada, crítica e
autocrítica da alma universal e do meu carnaval particular. Do meu Eu artista
brasileiro.
Do meu
prazer de pintar e da minha alegria de estar ainda vivo. – Elis Regina,
quem dirá algo de seu, quem dará uma “mensagem” sem derrogar?
...“Porque, enfim, nem um herói, não suportaria a perfeição, como provou a
mitológica figura grega... Provado fica, se Ulisses, herói, não suportou, em
Ogigia, terra dos deuses, da divina Calípso, a “inefável paz e beleza imortal”,
a perfeição, a absoluta perfeição, o homem normal, em mais breve tempo que o
Herói, da sábia Grécia, seria vencido pelo enfado, onde houvesse, sempre, sem
intermitência, a abundância, o repouso, o esquecimento dos cuidados, e as
memoráveis conversas que contentam a alma, e, sempre, fosse, bem nutrido,
revestido de linhos finos, sem nunca perder a querida força, nem a agudeza do
entendimento, nem o calor da facúndia; onde quer que fosse, privado de ver o
trabalho, o esforço, a luta e o sofrimento... Porque, ele, o homem insaciável,
por destinação natural, tem que viver onde a alma arde no desejo do que se
deforma, e se suja, e se espedaça, e se corrompe... E, terá, sempre, nas horas
de completa serenidade, de quietude monótona de um lago morno, uma irreprimível
saudade do mutável, do vir a ser de novo, e terá saudade da morte! Porque o
homem há de, sempre, querer partir para os trabalhos, para as tormentas, para as
misérias – para a delicia das coisas imperfeitas!”
Aldo
Luiz de Paula Fonseca, Niterói, 30 de abril de 2005.
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