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Batalha do Monte Guararapes
- Três montes de perfis variados
Jornal do Comercio - Recife, 20
de abril de 1998por
FREDERICO PERNAMBUCANO DE MELLO
Queremos evocar um conjunto de três montes de perfis
variados, guardando em comum a pobreza do solo, feito de barro e areia, e
uma vegetação geralmente baixa e rala, com poucas árvores a pontilhar o
manto verde que se estendia por sobre as ondulações, numa alternância de
picos e grotas que as enxurradas do inverno só faziam acentuar. O encaixe
estreito dos relevos faz que os espaços planos entre estes se mostrem
quase nulos, embora ricos, outrora, em árvores de porte avantajado, numa
exuberância vegetal que se estendia pelas campinas em volta,
interrompidas, aqui e ali, pelo verde mais escuro dos alagados, o verde
dos mangues que todos conhecemos tão bem no litoral do Nordeste.
De muitos século, a voz do povo os batizou a cada um de
maneira incerta, a passagem das gerações conspirando por tornar ainda mais
precárias as designações coloniais de Barreiras, Oitizeiro e Oiteiro, sem
que essa voz movediça contaminasse o conjunto das elevações, este sim, de
denominação indígena invariável: Guararapes.
Montes Guararapes. Sob o nome sonoro da língua dos
índios que significa tambor, eles se fizeram sentinela natural do
setentrião brasileiro e, dessa varanda sobre o Atlântico, a tudo
assistiram desde a origem dos tempos. Viram chegar o português nos
primeiros anos que se sucederam à Descoberta de 1500. Com ele, tantos
aventureiros de mesma origem européia, ávidos todos pela riqueza do
pau-brasil e pela adaptação posterior da cana-de-açúcar ao massapê da
nossa faixa verde, de que resultaria não somente o assentamento do
primeiro processo econômico de exportação, todo ele erguido por sobre o
braço do escravo, senão do sistema patriarcal de relações sociais brotado
à sombra do triângulo casa-grande, senzala e capela.
Viram o progresso da Capitania pela afirmação rápida dos
negócios privados, como viram o desespero a que foi lançado o colonizador
branco quando a Coroa portuguesa, vacante por sucesso de guerra, vem a ser
unificada à do Reino de Espanha em 1580, abrindo-se a nossa terra à cobiça
estrangeira pelas seis décadas que se seguiram. É quando franceses e
ingleses amiúdam as incursões de rapina às nossas costas, e é quando os
holandeses, em guerra contra os espanhóis, premidos, em conseqüência, pela
necessidade do açúcar bruto para as muitas refinarias que poussuíam à
época, decidem-se pela conquita do Brasil setentrional, a se transformar
em palco do que os cronistas contemporâneos chamavam orgulhosamente de
Nova Holanda. Os velhos montes viram o projeto dessa Holanda tropical
iniciar-se por sobre o Pernambuco florescente de 1630, com o desembarque
das forças do almirante Lonck na praia de Pau Amarelo, ao norte de Olinda,
não se privando de saber também do incêndio dessa cidade pelo invasor no
ano seguinte, com a transferência do empreendimento colonial para as
areias do Recife. Souberam da queda do Arraial Velho em 1635; da chegada
do conde Maurício de Nassau em 1637; do ânimo desse regente esclarecido em
deitar pontes sobre os rios e entre as pessoas, além de erguer o burgo de
Maurícia, menina dos seus olhos ainda juvenis; como souberam das façanhas
dos nossos capitães-de-emboscada, a aprender com o índio as astúcias da
guerrilha; da epopéia de Luís Barbalho, ao retirar seu exército por 400
léguas, desde o Rio Grande até a Bahia; da restauração do trono português
em 1640 e da insurreição final dos luso-brasileiros em 1645, coroada essa
etapa com as vitórias sucessivas de Tabocas, de Serinhaém, do Cabo, do
Pontal, de Nazaré e da Casa Forte, num crescendo que prenunciava um ajuste
de contas de dimensões nunca vista na chamada Guerra de Pernambuco, que
viria com as duas batalhas dos Guararapes, em 1648 e 1649. Mas antes de
que a síntese histórica nos remeta aos dois recontros máximos da guerra,
cedamos espaço a considerações analíticas necessárias à compreensão dos
fatos com maior profundidade.
Na passagem do século XVI para o XVII, a Espanha era a
grande potência do mundo, com o seu império colonial tocado à base
sobretudo da prata do Peru e do México, e a dividir com Lisboa a
preocupação comum da manuntenção de colônias espalhadas pelo orbe. No
ponto, aliás, não havia descrepância entre uma e outra das sedes imperiais
peninsulares, ambas concebendo a defesa de suas posses vastíssimas como
uma função exclusivamente naval. Coisa de que deveriam ocupar-se as
armadas e apenas estas. Ainda mais do que a Espanha - que andara às voltas
com guerras terrestre intermináveis na Europa - Portugual se deixa ficar
para trás na doutrina da ação militar em terra, apostando tudo do mar.
O pacto colonial vigente à época entre portugueses e sua
próspera colônia do Brasil - que, na porção setentrional bafejada pelo
cultivo da cana, passara rapidamente dos 66 engenhos de açúcar "moentes e
correntes" em 1584, para as 144 chaminés com que se deparariam os
holandeses em 1630 - não implicava apenas numa partilha da atividade
econômica senão também na divisão das responsabilidades militares: à Coroa
cabendo a defesa naval e ao Brasil, a resistência local, uma vez que seuas
praças podiam-se sustentar à custa da população imigrada e autóctone,
segundo estimava a metrópole. Com efeito, à época do inicío da chamada
Guerra de Pernambuco, a nossa população se constituía de cerca de 95.000
almas, sendo em números de 40.000 os homens livres, outro tanto de
cativos, e 15.000, o de índios aldeados. Considerado o conjunto da região,
com o acréscimo, portanto, das capitanias de Itamaracá, Paraíba, Rio
Grande e Ceará, esse contingente se elevava para algo em torno dos 120.000
habitantes, dos quais, cerca de 20% poderiam ser mobilizandos para a ação
militar. Isto, potencialmente, bem entendido, de vez que se sabe que o
nosso exércio oscilaria ao longo de toda a guerra em torno dos 3.000
homens.
À possibilidade demográfica da organização de uma defesa
militar local - como vimos - deve ser acrescida uma outra licença
concedida naturalmente pelo meio físico generoso, no qual a população
colonial ia buscar tudo o de que necessitava em essência para sobreviver,
privando-se apenas do vinho e do azeite, num quadro logístico radicalmente
oposto àquele com que se viram às voltas os invasores, dependentes em tudo
das carnes curadas - do porco (presunto e toucinho), do peixe-pau
(bacalhau), do arenque - do queijo, da manteiga, do trigo, dos biscoitos,
dos vinhos, da cerveja, do tabaco e das aguardentes que o seu controle
sobre nossas costas de mar e bocas de rio lhes permitia importar das
fontes norte-européias tradicionais.
No plano de saúde, ao lado da disenteria, da hemeralopia
e dos vermes, um exemplo de doença ilustra bem o que se passou então.
Inscientes da lição indígena da necessidade da ingestão de cajus, fruta
rica em vitamina C, os holandeses foram vítimas do escorbuto, em muitos
casos suas gengivas crescendo como trombas e levando o paciente a tê-las
cortadas a navalha sob pena de morrer de fome. E o remédio estava muitas
vezes ao alcance da mão, conhecida a abundância dessa fruta em nosso meio,
da qual, aliás, é nativa. Para grande parte dos males, a farmácia era o
mato. O índio, o farmacêutico. Registre-se aqui que a adaptação holandesa
ao nosso trópico úmido foi penosíssima. A ênfase da política de quadros
militares foi sempre a de reter aqui o soldado veterano, pouco interesse
existindo quanto à vinda de adventícios.
No que tange aos caminhos, à exceção das faixas de
praia, eram todos péssimos. Mesmo os rios navegáveis, por correrem do
oeste para leste, não acudiam a quem necessitava deslocar-se verticalmente
do norte para sul ou vice-versa. E mais: na longa estação das chuvas,
ofereceriam obstáculo por vezes intransponível ao viajante. Nisso os
holandeses tiveram uma grande vantagem por conta do predomínio quase
ininerrupto de suas forças navais em nossas costas, cabendo lembrar que
testemunhos de época assinalam a vantagem de 4x1, ao comparar os dias
necessários a um mesmo deslocamento por mar ou por terra.
A essa dificuldade dos caminhos, deve-se acrescentar uma
outra ainda mais geral e abrangente: a da própria terra, representada
pelos areiais, pelo massapê encharcado, quando não mesmo pela lama, em
todos os casos, solos difíceis de afeiçoar à caminhada, atoleiros, quase
sempre. E se a isto juntarmos a cobertura vegetal invariavelmente densa da
mata, do canavial e do mangue, teremos a explicação para o desprestígio
entre nós da Cavalaria, usada vestigialmente de parte a parte e, entre os
luso-brasileiros, mais para fornecer patentes consideradas honrosas, o
cavalo tendo sido em nosso mundo colonial um símbolo de senhorialismo,
como assinalou Gilberto Freyre. Costuma-se lembrar que duas companhias de
cavalos intervieram na Segunda Batalha dos Guararapes. É certo. Mas sabem
qual era seu efetivo? 40 cavaleiros, apenas.
Do outro lado, talvez a maior expressão de uso dessa
arma seja representada pelos 80 cavaleiros de que se acompanhava o conde
de Nassau em suas incursões de conquista. Uma diferença cabe assinalar
entre esses dois empregos igualmente restritos dos cavalos, por implicar
em mais uma evidência ilustrativa da desatualização lusitana no tocante à
guerra terrestre. É que, enquanto a cavalaria de Nassau operava com
arcabuzes, clavinas ou pistolas, como era dominante na Europa desde o
início do século XVII, a nossa, usava as lanças, evocativas de uma
tradição já morta junto a exércitos modernos, sensíveis à revolução das
armas de fogo em todos os setores da guerra.
O meio natural diverso do europeu responde igualmente
pelo desprestígio da Artilharia, reduzida à condição de "sério obstáculo à
mobilidade das operações militares luso-brasileiras", conforme comenta
Evaldo Cabral de Mello, evocando testemunhos de coevos, quer por estorvar
a marcha dos campanhistas, quer por não pagar com eficácia o esforço
penosíssimo de sua condução ao teatro de luta. Em novembro de 1632, o
conde Bagnuolo levou 4 peças de bronze para bater os holandeses no Forte
de Orange, em Itamaracá. Decepcionado com o baixo proveito ofensivo
obtido, largou as peças naquela ilha. Peso a evitar...
À exceção de uns poucos, em geral os nossos fortes
também denunciavam o atraso que vimos flagrando na força portuguesa de
terra, no caso específico, o desenvolvimento insuficiente de nossa
Engenharia militar, ademais do que, voltada esta muito mais para cobrir o
risco da escalada por índios ágeis que para fazer face às peças de
artilharia. As muralhas eram, assim, altas e delgadas, ao contrário da
tendência moderna - e já então corrente - de expandi-las no sentido
horizontal. Na dificuldade da pedra de cantaria, que tinha que vir do
Reino, e do arrecife, de retirada muito penosa, o material generalizado
era o que a terra ofertava em abundância: a madeira e o massapê, de cuja
combinação resultava a chamada taipa. Os fortes do Brasil setentrional se
erguiam quase todos em "taipa de pilão" - que é a taipa socada - sólida
como pedra no estio mas a se delir perigosamente sob a chuva intensa do
trópico. Raríssimo aqui os mestres de Engenharia militar, não estranha que
os nossos fortes padecessem, além de tudo, da escassez de espaço nas
esplanadas, quando não ausentes estas de todo, de fossos rasos e da
freqüente má colocação de baluartes, de estacadas e de parapeitos. Entre
nós, o forte de pedra é realidade de disseminação posterior à guerra
contra os holandeses.
No tocante às armas leves, a guerra
representa para os nossos a travessia precipitada do arcabuz de mecha para
a espingarda de pederneira, tecnologia, esta última, que o inimigo já
chega aqui empregando maciçamente. O resultado pouco risonho da
substituição da mecha reinol, feita de linho, pela filbra de coco local, a
umidade e as chuvas excessivas da região, de par com a denúncia com que a
mecha iluminante - e de odor característico - fez abortar a surpresa de
tantas emboscadas, tudo foram fatores de prestígio para a pederneira junto
às duas facções combatentes. Dentro desse balizamento, não será demais
registrar que chegamos a usar armas de muito boa qualidade, superiores em
alcance e segurança às holandesas, conforme registro de alguns de seus
cronistas, a revelar a boa fase por que passava Portugal no particular.
Albert Eckhout, pintor e documentalista
da corte do conde de Nassau, um regente sabidamente ilustrado apesar dos
apenas 32 anos de idade que contava ao chegar ao Brasil, teve o cuidado de
captar numa tela a óleo de 1641, hoje no Museu de História Natural de
Copenhague, um mulato combatente tendo ao ombro um moderníssimo fuzil de
cargas sobrepostas - uma arma de repetição, portanto - cabendo a suposição
de se tratar de homem e petrecho nossos, à vista da preocupação do pintor
em apreender meticulosamente a provável novidade que lhe chegava aos
olhos. De toda maneira, um bom testemunhoo da qualidade do armamento leve
empregado na Guerra de Pernambuco, nas espécies da pistola, da clavina, do
arcabuz, do mosquete ou da espingarda, e nos sistemas de mecha, de roda
com pirita fagulhante ou de ou de pederneira, com as declarações mais
entusiásticas reservando-se para os mosquetes biscainhos, reforçados, de
calibre e alcance superiores aos similares holandeses.
- A Batalha em seu contexto
histórico
Jornal do Comercio - Recife, 20 de abril de 1998
por MANUEL CORREIA DE ANDRADE
A Reforma Protestante e as lutas na Alemanha, com
rompimento de vários estados que compunham o Império Romano-Germânico,
atingiram profundamente, no século XVI, a Espanha e Portugal. Unindo,
inicialmente, a Coroa Espanhola e a do Império, Carlos V absorveu as
divergências existentes entre os seus súditos e, ao morrer, transferiu-as
ao seu sucessor, Felipe II.
Havia, no século XVI, uma grande diferença econômica
entre o mundo germânico e flamengo e o mundo ibérico, uma vez que, no
primeiro, o feudalismo já entrara em decadência, e a burguesia urbana,
tendo aumentado sua riqueza e poder, não queria mais permanecer sob o
controle de soberanos absolutistas; comerciando no além-mar, com os países
colonizados pela Espanha e Portugal, os burgueses passaram a ambicionar o
controle dos territórios coloniais, produtores de matérias-primas.
Com a morte do rei de Portugal, Cardeal D. Henrique, em
1580, sem deixar descendentes, a Espanha conseguiu que a coroa portuguesa
passasse para Felipe II. Como a Holanda iniciasse uma guerra de
independência com a Espanha e como Portugal estivesse na dependência
desta, naturalmente ele passou a ser também visado pelas ambições
flamengas.
Dispondo de capital, os holandeses passaram também a
financiar a instalação de engenhos de açúcar no Brasil, permitindo que o
número de fábricas tivesse um grande crescimento, ao mesmo tempo em que
estimulavam a ampliação de outras culturas, como o algodão e o fumo. Esse
crescimento agrícola acarretou o crescimento do tráfico de escravos que
era um dos negócios mais rendosos da época. Com o crescimento dos
negócios, os holandeses, autorizados pelo governo português, passaram a
fazer um comércio triangular: as suas embarcações viajavam até Lisboa
carregadas de produtos industrializados, descarregavam e viajavam para as
colônias portuguesas do Golfo de Guiné onde adquiriam escravos já
aprisionados pelos régulos africanos e que eram trazidos para o Recife e
vendidos aos senhores de engenho; daí retornavam à Holanda carregados de
açúcar e de outros produtos da terra.
Com a união de Portugal à Espanha, como a Holanda se
encontrasse em guerra com esta, teve o seu comércio interrompido pelo
governo espanhol causando-lhe grande prejuízo. Os holandeses, porém,
estavam preparados para enfrentar as lutas que se seguiram e trataram de
arregimentar mercenários na França e nos países da Europa Central e
Setentrional, montando uma grande esquadra. Sendo comerciantes, os
holandeses organizaram a Companhia das Índias Orientais para atuar no
Oriente. Em 1621, os flamengos organizaram a Companhia das Índias
Ocidentais para atuar na África e na América.
A invasão holandesa foi feita com uma preparação segura;
os flamengos mantinham contatos com habitantes de Pernambuco, sobretudo
judeus e brabanteses que passavam informações detalhadas sobre as várias
áreas, ou seja, a capacidade de produção, o estado das fortificações e dos
efetivos militares. Um dos mais importantes informantes foi Verdonk (1949
- veja artigo neste carderno).
Não se pode analisar a invasão holandesa em Pernambuco
sem fazer referência à invasão da Bahia, ocorrida em 1624. Lá, os
holandeses foram derrotados. Apesar disso, tiveram um grande lucro com a
captura que fizeram de um carregamento de pau-brasil, açúcar, tabaco,
algodão e outros produtos.
A INVASÃO DE PERNAMBUCO - A invasão de Pernambuco
ocorreria a 14 de fevereiro de 1630, quando a esquadra holandesa comandada
pelo almirante Lonk, aportou em Pau Amarelo, ao Norte de Olinda, quase sem
encontrar resistência, dirigindo-se para o sul, atacando Olinda e Recife,
onde encontrou uma resistência heróica, mas pouco expressiva. Começava uma
guerra, que duraria cerca de 24 anos e teve efeitos memoráveis de
heroísmo, de covardia, de traições, de corrupções e crueldade. Ela pode
ser dividida em três fases, a da conquista (1630/37), a da administração
(1637/42) e a da insurreição (1642/54).
No primeiro período os holandeses enfrentaram sérios
problemas, apesar de sua superioridade bélica, pois encontraram pela
frente um valoroso capitão, irmão do donatário de Pernambuco, Matias de
Albuquerque. Weerdenburch, o comandante holandês, consolidou a ocupação do
Recife e de Olinda e, em seguida, incendiou esta última para reduzir o
território em que se concentrava e garantir o controle do porto, de onde
recebia alimentos e reforços.
Em 1631, realizou o seu primeiro ataque a Itamaracá.
Entre os oficiais que acompanharam Pater, estavam duas figuras de
generais, von Schkoppe e Artichofsky. Entre os que cerraram fileiras no
Arraial estavam Martim Soares Moreno, Luiz Barbalho, o índio Antônio
Felipe Camarão e o negro Henrique Dias.
Em 1632, a situação mudou com a chegada de novos
reforços holandeses e a deserção de Domingos Fernandes Calabar, um dos
mais capazes capitães de Matias de Albuquerque. Calabar colaborou para os
grandes sucessos que os flamengos passaram a ter na luta contra os
luso-brasileiros. Os historiadores de então afirmam que Calabar teria
traído os seus compatriotas mediante o recebimento de suborno, ou de que o
teria feito por ter dado um desfalque no erário e temer a punição. Daí,
então, o nome de Calabar passou a ser considerado como sinônimo de traição
(veja matérias neste caderno). Há, porém, uma série de estudiosos que
procura tirar esta mancha do desertor alagoano, dizendo que ele não traiu
o Brasil e que, se vendo diante de uma dupla ação, continuar o seu país a
ser colônia portuguesa ou tornar-se colônia holandesa, preferiu a segunda
opção.
"A partir de 1632, a situação holandesa melhorou
consideravelmente, tendo vindo para o Recife dois altos conselheiros, von
Ceuloen e Gysserlingh, para implantar uma administração que maximizasse a
exploração da colônia e organizasse o território ocupado, que ia se
expandindo com a conquista de novas áreas, como Igarassu, Rio Formoso e,
em seguida, Itamaracá. A estas áreas seriam agregados o Rio Grande, a
Paraíba, e o Cabo de Santo Agostinho.
A resistência pernambucana começava a desmoronar e logo
cairiam o Arraial do Bom Jesus e o Cabo de Santo Agostinho onde se situava
o porto (Suape) por onde os luso-brasileiros se abasteciam desde a queda
do Recife. Começaria, então, a grande retirada de Matias de Albuquerque,
com seus soldados, parentes, amigos e liderados, para o sul, em direção ao
São Francisco, fugindo ao jugo holandês. A desordem era geral, quem não
acompanhava o exército luso-brasileiro se embrenhava nas matas à procura
de segurança, os indígenas fugiam para o interior à procura de suas tribos
e nações, enquanto os negros organizavam-se em quilombos, onde voltavam a
viver à maneira africana. O mais famoso quilombo, o de Palmares, no norte
de Alagoas, subsistiu à dominação holandesa e resistiu por mais de seis
décadas às investidas que lhe foram feitas.
Em Alagoas ocorreram as últimas grandes batalhas, de vez
que as tropas trazidas por D. Luiz de Rojas y Borja, que substituía ao
valoroso Matias de Albuquerque, não foram felizes, sendo derrotados na
batalha de Mata Redonda, em 1636. Concluída a conquista, em 1636,
iniciava-se, no ano seguinte, o período de administração holandesa,
conduzida pelo príncipe João Maurício, conde de Nassau-Siegen, que
perduraria por oito anos e daria um certo esplendor ao Recife e um pouco
de paz à colônia.
MAURÍCIO DE NASSAU - A chegada de Nassau ocorreu
a 23 de janeiro de 1637, quando os holandeses já haviam conquistado uma
expressiva parte do Nordeste brasileiro. Nassau se apresentava como uma
figura que incutia grande ânimo aos holandeses e esperanças aos
portugueses, que desejavam mudanças na conduta dos invasores. Ele vinha ao
Brasil como um príncipe da Renascença, afeito ao uso da espada e à luta em
campo aberto, mas vinha também como homem interessado nas ciências e nas
artes. Em sua escolta não viajavam apenas soldados e funcionários, mas
cientistas naturais, como Piso, astrônomos como Marcgraff, pintores, como
Franz Prost, poetas e literatos. Com trinta e dois anos de idade, o
príncipe alemão vinha curioso de conhecer o mundo tropical com suas
surpresas, e sequioso de conquistar vitórias, riquezas, fama e fortuna.
Trazia também grandes preocupações administrativas, pensando em organizar
a colônia que os holandeses esperavam construir nos trópicos; para isto
tinham um mandato de cinco anos que poderia ser prolongado.
Inicialmente, procurou fazer-se respeitar pelos inimigos
e pelos seus próprios comandados que viviam indisciplinados, fazendo
tropelias e extorsões no território conquistado. Organizando-se
militarmente, expulsou os luso-espano-brasileiros para o além São
Francisco. Nassau considerou que o São Francisco, linha divisória entre
Pernambuco, a Nova Lusitânia de Duarte Coelho e a Bahia, seria, por algum
tempo, uma fronteira natural para a separação do Brasil holandês do
hispânico. Nassau conseguiria estender o domínio holandês pelo Ceará e o
Maranhão - ainda muito pouco povoado.
A Companhia das Índias Ocidentais, com os seus
monopólios e numerosos comerciantes, sobretudo judeus, desenvolveu as suas
atividades mais no setor comercial, importando produtos da Europa e negros
da África para serem vendidos aos senhores de engenho ou habitantes das
cidades e exportando o açúcar e outros produtos da terra - fumo, algodão,
couro, etc. Como a maioria dos senhores de engenho não dispusesse de
capitais à mão, os comerciantes fizeram grande abertura de crédito aos
mesmos, levando-os muitas vezes à falência por não conseguirem pagar as
dívidas, em vista dos juros elevados que eram cobrados. Esta relação entre
credores e devedores, acentuaria o desejo de independência e fortaleceria
a Restauração Pernambucana depois da saída do conde de Nassau.
O abastecimento alimentar era difícil, sobretudo para a
população pobre, o que levou Nassau a determinar que os proprietários não
cultivassem apenas os produtos de exportação mas também produtos
alimentícios. Compreendendo que a convivência entre portugueses e
holandeses era indispensável à sobrevivência da colônia, Nassau permitiu
uma relativa liberdade religiosa; ao lado dos calvinistas, que tiveram
grande pregadores no Recife, como Soler, conviveram, em sua capital, as
sinagogas dos judeus - havia até uma na rua dos Judeus - onde pregou,
entre outros, o rabino Aboab da Fonseca. Aos sacerdotes católicos foi
permitido que dessem assistência religiosa, havendo até um sacerdote
católico, frei Manoel Calado, autor de um livro muito rico em informações
sobre o Brasil holandês, que conviveu com o próprio príncipe.
A obra que traria maior fama a Nassau, porém, foi a
construção da Cidade Maurícia, para ser a capital do Brasil holandês. Ao
chegar ao Brasil, ele encontrou o governo holandês localizado no Recife,
numa estreita península entre o oceano e o leito do Capibaribe, sem área
contínua para a sua expansão. Achou que a colônia deveria ter uma capital
melhor localizada. Nassau preferiu construir a sua cidade, a Maurícia, na
ilha de Antônio Vaz, ligando-a ao Recife e à Boa Vista. Para isto mandou
fazer um projeto de cidade semelhante à Amsterdam (veja matéria neste
caderno), cortada por canais. Além deste palácio, dos canais, dos muros,
do forte Ernesto e do casario, ele fez construir um outro palácio, o da
Boa Vista, utilizado para descanso. No seu governo, o Recife cresceu a
ponto de ficar bem mais importante do que Olinda; os seus planos de
expansão abrangeram toda a ilha de Antônio Vaz - atuais bairros de Santo
Antonio e São José - e, ao sul da mesma, construíram a fortaleza de Cinco
Pontas.
Graves problemas surgiram, a partir de 1640, quando os
portugueses conseguiram restaurar a dinastia portuguesa, desvinculando o
reino da União Pessoal com a Espanha e fazendo rei a D. João IV, duque de
Bragança. Na guerra entre Espanha e Portugal os portugueses trataram de se
aliar, na Europa, aos holandeses para enfrentar os espanhóis e, no Brasil,
espanhóis e portugueses, que eram até então aliados, tornaram-se inimigos.
Portugal, por sua vez, através de solicitações diplomáticas, procurou
reaver terras conquistadas pela Holanda, mas Nassau, antes que o tratado
entre os dois países fosse ratificado, tratou de expandir e consolidar
suas conquistas.
A Companhia das Índias Ocidentais, que era uma empresa
comercial cujos acionistas estavam cada vez mais carentes de dividendos,
preocupava-se com a queda de sua receita e pressionava a Nassau para que
cobrasse as dívidas existentes em Pernambuco. Nassau, homem vivido e
político experimentado, retardou o quanto pôde a cobrança, procurando agir
de forma amena e a médio e longo prazo, sem executar os grandes devedores.
Estes fatos e os incidentes ocorridos, levaram Nassau a solicitar a sua
demissão, esperando, certamente, que ela não fosse aceita. Puro engano, a
Companhia aceitou e passou o governo da colônia para um triunvirato
formado por um comerciante, Hamel, um ourives, Bas, e um carpinteiro
Bullestraten.
A INSURREIÇÃO - Alguns historiadores afirmam que
a revolta contra os holandeses iniciou-se com a retirada de Nassau; na
realidade, porém, ela foi iniciada antes em 1642, no Maranhão, quando
proprietários da Baixada se organizaram, tomaram os postos militares aí
existentes e fizeram cerco a São Luís. Em Pernambuco, a insurreição
iniciou-se quando os holandeses, abandonando a linha política de Nassau,
iniciaram a cobrança das dívidas que muitas vezes eram superiores ao valor
dos bens dos devedores. João Fernandes Vieira era um dos grandes
devedores.
Às primeiras suspeitas e denúncias chegadas aos
holandeses sobre o andamento de uma conspiração, João Fernandes Vieira
afastou-se do Recife e escondeu-se nas matas à espera do momento em que
poderia se definir, e o momento não demorou a chegar, quando o governo da
Bahia começou a autorizar as tropas que estavam acantonadas lá a se
dirigirem para o território holandês. Assim, vieram as tropas de Henrique
Dias, seguidas das de Felipe Camarão e ainda as de Martim Soares Moreno,
apesar de bastante idoso, e de André Vidal de Negreiros, paraibano, filho
de senhor de engenho.
O governo holandês, surpreso, fez reclamações ao
governador da Bahia, Antônio Teles da Silva, e este respondeu que não
tinha autorizado o avanço de suas tropas e que Henrique Dias tinha se
deslocado sem sua autorização para a margem esquerda do São Francisco e
que ele havia mandado Felipe Camarão intimá-lo a retornar. É claro que os
holandeses não aceitaram a explicação e já em 1644, estava deflagrada a
"guerra da liberdade divina".
A primeira batalha, a mais expressiva, travou-se no
Monte das Tabocas, próximo à Vitória de Santo Antão, onde os
luso-brasileiros, a 3 de agosto de 1645, venceram o exército holandês,
apesar da superioridade numérica. Esta vitória trouxe grande ânimo aos
pernambucanos que já a 17 do mesmo mês venceriam novamente os holandeses
no engenho Casa Forte, de propriedade de D. Ana Paes, cuja casa os
holandeses haviam transformado em fortaleza. A guerra continuou favorável
aos portugueses no interior e aos holandeses no litoral, onde uma esquadra
comandada pelo Al. Lichtharsdt, destruiu uma flotilha portuguesa em
Tamandaré. Em 1646, chegaram reforços da Holanda e o governo do Recife
resolveu atacar a ilha de Itaparica, na Bahia, visando fazer com que o
governo geral determinasse a volta de seus soldados a Salvador.
Com o passar dos anos, a situação foi se definindo em
favor dos luso-brasileiros que começaram a conquistar vilas, como Penedo e
Porto Calvo. No ano seguinte, Itamaracá foi conquistada em quase toda a
sua extensão, ficando os holandeses apenas com o controle do forte de
Orange. Em 1647, finalmente, o rei de Portugal se definiu e enviou para
Pernambuco Francisco Barreto de Menezes que assumiu o comando de todas as
tropas insurretas. Com um comando único e a condução da guerra nas mãos de
um militar profissional e competente, a situação holandesa piorou.
Segismundo von Schkoppe, comandante do Recife e profissional
experimentado, compreendeu que teria que tomar atitudes mais agressivas,
de vez que a capital estava atravessando uma situação muito difícil quanto
à segurança e abastecimento.
Em abril de 1648, von Schkoppe resolveu romper o cerco,
fazendo um avanço para o sul em direção a Muribeca, em plena área
açucareira. Informado do deslocamento das tropas holandesas, Barreto de
Menezes se dirigiu aos Montes Guararapes onde, após renhida luta, fez os
flamengos retrocederem derrotados para o Recife, impondo-lhes a derrota na
primeira batalha dos Guararapes, a mais importante, certamente, da guerra
holandesa. Estavam a 19 de abril de abril de 1648.
Manuel Correia de Andrade é historiador. Texto adaptado
do livro "Pernambuco Imortal", publicado em fascículos pelo Jornal do
Commercio em 1995
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As batalhas pelas terras do açúcar
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-Jornal do Commercio - Recife, 20 de
abril de 1998
por CÍCERO BELMAR
A maior autoridade sobre a história da invasão
holandesa no Brasil, o professor José Antônio Gonsalves de Mello
interpreta as batalhas dos montes Guararapes como sendo uma luta de
interesse pelas terras dos canaviais em Pernambuco. Não chegou a ser uma
defesa da Pátria, porque esse sentimento ainda era incipiente, no seu
entender. O professor, de 82 anos, forjou sua opinião em anos e anos de
pesquisas baseadas em documentos trazidos da Holanda para Pernambuco pelo
professor José Higino, no século XIX. Os estudos o levaram a escrever um
dos clássicos da História do Brasil, "Tempo dos Flamengos". Autor de 30
livros e de outras 182 publicações, entre artigos e prefácios, José
Antônio Gonsalves de Mello foi condecorado pela rainha Juliana, da
Holanda, em 1972, como Oficial da Ordem Orange-Nassau, pelos estudos da
dominação holandesa no Brasil. O Instituto Histórico Brasileiro
considera-o como o maior historiador vivo do Brasil.
- As duas batalhas dos Guararapes representam o
primeiro momento da consciência do povo como Nação?
R - Não foi o primeiro momento. Antes
houve outras batalhas importantes. O que aconteceu, na minha opinião, foi
uma luta dos luso-brasileiros por sua terra. Foi o momento culminante
dessa consciência de luta pelo que era deles. Mas, o Exército Brasileiro
diz que ali, nas batalhas, nasceu de fato a sua organização militar. Elas
foram o início da formação militar. Os brasileiros compreenderam, naquele
momento, que tinham o poder físico para vencer um exército estabelecido,
organizado, armado, com boas armas e comando experiente.
- Pode-se resumir as duas batalhas como sendo a
luta pelo domínio das terras dos canaviais?
R - Sim. O açúcar foi quem trouxe os
holandeses para cá. A Capitania era muito importante para a Holanda, que
tinha grandes refinarias em Amsterdan. O produto para refino era o açúcar,
que eles exportavam, pois estavam na entrada da Alemanha. Era um mercado
de açúcar muito grande. Aqui, poucos deles foram donos de engenho. Mas,
eles tinham grande interesse pelo produto.
- Na sua opinião foi uma luta patriótica?
R - Não, tanto que a iniciativa das
duas batalhas foi dos holandeses.
- Para ambas as partes a pátria valia menos do
que as terras dos canaviais?
R - Ainda não havia um sentimento de
pátria, embora muitos dos que lutaram já tivessem nascido aqui. Os índios
comandados por Felipe Camarão e o negros por Henrique Dias foram
colaboradores importantes, mas eram colonos de uma propriedade portuguesa.
- As duas batalhas foram uma vitória da raça
brasileira?
R - No século XVII já havia uma raça
brasileira? Hoje pode-se falar em raça brasileira, mas naquele tempo não
havia essa consciência de nacionalidade, na minha opinião.
- Então, a principal conseqüência das duas
batalhas foi apenas a organização militar dos brasileiros?
R - Não foi só militar, mas foi
principalmente militar. Não vejo conseqüências políticas. Os brasileiros
perceberam que tinham condições de defender o seu território, mesmo com
uma ajuda pouco numerosa do poder colonial.
- O brasileiro estava praticamente sozinho na
luta, sem o apoio de Portugal?
R - Realmente estava, pois teve pouca
ajuda nesse sentido. O destino do Brasil, na época, estava dependendo de
uma negociação entre Portugal e Holanda.
- No período, negociava-se uma saída diplomática
para desocupação da Capitania?
R - Houve uma ou duas tentativas de
compra e venda da Capitania. Padre Antônio Vieira queria indenizar a
Holanda para a retirada das suas tropas. Nesse caso, Pernambuco ficaria
com Portugal.
- A que o senhor atribui as vitórias dos
luso-brasileiros nas duas batalhas, já que eles enfrentavam uma tropa
muito mais forte?
R - Os holandeses eram mais bem
armados, mas os brasileiros tinham armas que os holandeses temiam muito.
Eram armas pontiagudas, como facas e espadas. A arma de fogo, para ser
carregada, exigia quatro ou cinco minutos, o que é muito tempo no momento
da batalha. Além disso, a estratégia de batalha levou em conta a largura
da passagem entre os pés dos montes e o mangue. O local das duas batalhas
era a passagem obrigatória para o sul da capitania. Era muito estreito e
os holandeses não tinham como desdobrar o seu exército. Não havia
condições de usar toda a sua força na frente da batalha. A superioridade
militar holandesa foi dificultada pelo local, como já tinha ocorrido nas
Tabocas.
- Foi o oportunismo contra a técnica militar?
R - A maioria dos soldados holandeses
era de mercenários de várias nacionalidades que viviam disso, empregando
sua força. Os luso-brasileiros não eram militares, mas civis que se
associavam a tropas regulares existentes no Brasil. Diante disso, podiam
cometer alguns excessos, alguns exageros.
- Que exemplo as gerações atuais podem
depreender desse período da História do Brasil?
R - Acho que o principal é a
consciência de que o Brasil merece ser defendido tanto do ponto de vista
militar quanto civil.
- O senhor acha que as gerações atuais têm pouco
interesse por esse período da história brasileira?
R - Em geral, as novas gerações não têm
muito interesse por essa história militar. Os locais de batalha são pouco
visitados e também foram ocupados. Acho que, de um modo geral, falta
interesse pela História, infelizmente. Mas, seria um motivo honroso a
todos brasileiros e pernambucanos terem alcançado duas vitórias contra um
poder militar.
- Quando o senhor escreveu "Tempo dos
Flamengos", qual foi o seu sentimento em relação ao período holandês no
Brasil?
R - Confesso que me envaideceu muito o
período holandês, em especial os anos do governo do Conde Maurício de
Nassau. Foi um homem excepcional, que trouxe consigo pintores, artistas,
cientistas para registrar o que havia de novo nos trópicos para a Holanda,
para a Europa. Ele teve a iniciativa de construir a Cidade Maurícia, seus
palácios, suas pontes, seu parque botânico e a sua atitude de
contemporização com os naturais da terra e aqueles que não professavam a
religião reformada holandesa.
- Como o senhor escreveu o "Tempo dos
Flamengos"?
R - Eu fazia pesquisas desde 1933.
Ajudei nas pesquisas iniciais para Gilberto (Freyre) escrever "Casa Grande
e Senzala". Desde aí comecei a me interessar pela história dos holandeses
no Brasil. Visitava o arquivo do Diário de Pernambuco e também o Instituto
( Arqueológico Pernambucano, fundado em 1862). Eu já era sócio do
Instituto e ficava além do horário normal de abertura da sede. Foi um
longo trabalho de pesquisa, que exigiu, inclusive que eu estudasse a
língua holandesa. Já sabia falar alemão e isso me facilitou aprender
holandês, pois são línguas germânicas. Meus professores foram o padre
Henrique, da Várzea e o padre carmelita Bonifácio Harnk. Esse estudo me
permitiu manusear cópias de documentos que foram feitos na Holanda, sob a
direção do professor José Higino (professor da Faculdade de Direito do
Recife, que morreu em 1901, no México). A coleção de documentos do
Instituto é muito grande. Tem correspondências, atas do governo holandês
do Brasil, entre outras coisas. E eles contam o dia-a-dia na capitania, os
problemas, as soluções. Concluí o livro em 1943. Gilberto (Freyre)
escreveu o prefácio em 44. Mas, a editora (José Olympio) estava publicando
livros com muito cuidado. Era tempo de guerra. O livro só foi publicado em
1947.
- Surgem os defensores de
Calabar
Jornal do Comercio
- Recife, 20 de abril de 1998
Em cada canto de Porto Calvo vão aos poucos surgindo vozes
a favor de Domingos Fernandes Calabar. Elas nascem geradas por outras um
tanto antigas e que há muito encamparam a batalha de revisar a história.
Vozes como a do professor Audemário Lins, do padre Expedito Macedo e do
empresário Carlos Roberto Barbosa.
Não é uma luta nada fácil. Mas tem reconhecimento. Basta
chegar em Porto Calvo e perguntar sobre alguém que fale sobre Calabar. O
nome de um dos três será indicado, senão todos. E também tem sua
recompensa. Ela vem na forma, por exemplo, dos estudantes Aldo Bosco da
Silva e Paulo José, ambos nascidos e criados em Porto Calvo. Mesmo filhos
da cidade, até há pouco tempo os dois rapazes acreditavam que Calabar era
um traidor da pátria. "Aprendemos isso na escola. Está nos livros",
comenta Aldo. A mensagem impressa nas lições do primeiro grau durou até
quando eles foram trabalhar na Farmácia Calabar, de propriedade de
Audemário Lins.
Gota a gota, o ex-professor foi mudando a mentalidade de
seus funcionários. E conseguiu convencê-los. "A gente foi ouvindo o que
ele falava e passamos a acreditar", explica Paulo José. Vez por outra
passavam o olho nas folhas do livro Calabar, O Herói Desconhecido, escrito
por Lins e o convencimento aumentava.
De posse das informações, os rapazes tentam passá-las
para seus colegas de turma. Nem sempre ganham credibilidade. "O pessoal,
muitas vezes, não acredita", diz Aldo. E não é mesmo fácil crer em algo
quando se passou anos ouvindo o contrário. É o caso de Alviane Patrícia da
Silva, administradora de empresas. Ela é simplesmente bisneta de Pedro
Valeriano Cavalcanti, um antigo poeta de Porto Calvo. Um homem que
escreveu versos e versos defendendo e exaltando a figura de Calabar.
Versos que se perderam no tempo. "Ninguém na minha família, a não ser
minha avó, lembra disso. A gente aqui não dá importância a Calabar",
comenta Alviane.
Parece ser verdade. Que o diga o padre Expedito, um
verdadeiro entusiasta da causa Calabar Herói. "As coisas antigas sempre
são muito nebulosas. Mas com o tempo estamos tornando-as mais claras",
analisa o padre. Ele diz isso com a experiência de quem faz palestras
sobre o assunto quase todos os dias. Padre Expedito contabiliza um número
considerável de pessoas que o procuram na casa paroquial de Porto Calvo
para ouvir suas explanações.
"O povo tem sido receptivo às novas idéias", constata.
Pelo menos ele garante que em sua frente ninguém duvida dele. "Em palavra
de padre todo mundo acredita. Numa cidade de interior, padre é como
doutor. Tem autoridade máxima".
Para os turistas, que procuram a cidade só como
balneário ou como ponto de passagem, a conscientização fica por conta de
Carlos Roberto Barbosa. Ele abriu o Cala Bar, um espaço cultural na BR
101, a três quilômetros do Centro de Porto Calvo. "Temos de recuperar a
identidade de um dos nossos grandes mitos", pensa Barbosa. No Cala Bar, as
garçonetes são treinadas para responder qualquer pergunta sobre o
controverso personagem, dando a ele a nova versão heróica.
O interesse de Carlos Roberto por Calabar não é de hoje.
Vem de mais de 20 anos atrás, quando ele integrava o Grupo Experimental
Portocalvense de Arte (Gepa). Era os anos 70 e imperava a ditadura
militar. "Falar de Calabar naqueles tempos significava ser convidado a
bater um papo com a repressão", lembra Carlos Roberto. O Gepa não só
falava, como recitava poemas e representava peças teatrais sobre o
personagem. Com Calabar no papel de herói e não traidor.
Carlos Roberto recorda as vezes em que se viu frente a
frente com senhores vestidos de verde-oliva. "Coloquei este nome no meu
bar numa referência à peça Cala Bar de Chico Buarque de Holanda e Ruy
Castro, proibida nos áureos tempos da censura por questionar o conceito do
que na verdade seria traição à pátria".
Pouco a pouco, a disseminação das novas idéias vai
tomando corpo em Porto Calvo. Além da farmácia e do bar, já surgiram uma
hospedaria e um fórum com o nome Calabar estampado na fachada. Mesmo
assim, nas 44 escolas municipais, mais de seis mil crianças e adolescentes
de Porto Calvo ainda aprendem e fazem suas provas através dos livros que
colocam Calabar na escória dos traidores.
Se não houver um professor disposto a pelo menos
plantar-lhes uma desconfiança na mente, eles passam um bom tempo achando
que nasceram na terra de um personagem execrável, até encontrarem alguém
alheio ao sistema escolar tradicional que os faça pensar diferente.
Que esperanças tem Porto Calvo que sua luta dará certo?
Poucas. Mas bem fundamentadas. O som das vozes da terra ultrapassou as
fronteiras da cidade. Pelo Brasil já existem várias publicações resultadas
de gente desconfiada que a história não é bem aquela. "Muitos
historiadores acreditam na inocência de Calabar. Mas seus livros apenas
criam a dúvida na cabeça dos leitores", conta Audemário Lins. Mas o dele
será diferente. "Quero afirmar, provar e não deixar as coisas no ar."
- Duas cidades com muito em
comum
Jornal do Comercio -
Recife, 20 de abril de 1998por ANDRÉ
GALVÃO
Editor de Cidades
O recifense que chega de trem, de avião ou mesmo de
carro a Amsterdã, a capital holandesa, logo tem a impressão de que aquela
peculiar paisagem lhe é familiar. E não poderia ser diferente. As duas
cidades, que já têm uma história em comum, a partir da chegada do conde
Maurício de Nassau ao país, em 1637, apresentam algumas semelhanças. E a
principal delas está na ímpar e rebuscada geografia, formada por rios,
estuários e um amontoado de pequenas ilhas interligadas por dezenas de
pontes.
A única diferença nesse panorama é que em Amsterdã, a
exemplo do glorioso passado marcado pela descoberta dos sete mares, a
população ainda utiliza barcos como moradia e meio de transporte e de
lazer, enquanto que no Recife os rios e canais servem, principalmente,
para escoar os dejetos vindos da precária rede de esgotos. Prova disso é
que, hoje, são poucos os recifenses que já tiveram a oportunidade de
navegar no Rio Capibaribe, o mesmo que inspirou tantos poetas e que figura
como um dos mais belos cartões-postais do Brasil.
TRAÇADO - Também é possível estabelecer
uma ligação no traçado urbanístico das duas cidades. O historiador
Leonardo Dantas, da Fundação Joaquim Nabuco de Pesquisas (Fundaj), cita
como exemplo o bairro de São José, onde alguns quarteirões datam da época
em que o conde Maurício de Nassau construiu a Cidade Maurícia. As
transversais da Avenida Nossa Senhora do Carmo, por exemplo, seguem
paralelas até o Forte das Cinco Pontas, num percurso bem próximo do que se
vê em algumas quadras do centro histórico da capital holandesa.
As coincidências não param por aí. Amsterdã, tal como
Recife, é uma cidade festiva, tem forte potencial turístico e guarda
algumas das relíquias da presença holandesa na capital pernambucana. Para
conferir este acervo, o visitante deve fazer uma visita ao Rijksmuseum, o
mais importante do país. Lá, há uma grande variedade de peças, utensílios,
vestimentas e telas a óleo (com imagens do Recife e Olinda) que retratam
com fidelidade o período em que os holandeses se lançaram ao mar em busca
de novas terras.
Por essas e outras, o Recife deveria ser intitulada a
Amsterdã Brasileira e não a Veneza Brasileira. Com certeza, as semelhanças
com a famosa cidade dos Países Baixos são bem maiores que com às do mais
famoso cartão postal da Itália.
- O nosso espião
Jornal do Commercio - Recife, 20 de
abril de 1998
por JODEVAL DUARTE
Tivessem as forças dos Países Baixos consolidado a ocupação de Pernambuco
no século XVII, haveria vitórias para festejar, como a Batalha dos
Guararapes, falariam nos heróis - entre eles Calabar - e provavelmente
teriam, como contraponto, um traidor de nome Verdunc. Mas a História é
contada por nós, Calabar é o traidor e de Verdunc são raríssimos os
registros. Talvez pela dimensão da presença de um e outro nos capítulos
dessa longa guerra, que consumiu preciosos momentos de nossa formação.
Mesmo assim, uma omissão.
Se outros méritos não tiver, meu primeiro romance - premiado pelo Conselho
de Cultura do Recife - está servindo para resgatar essa figura
interessantíssima dos primeiros momentos de ocupação holandesa do Recife.
Verdunc é o nome-título do livro e, porque romance, não foi construído com
a ansiedade de dissecar a presença do personagens sob a rigorosa lente da
metodologia histórica, até porque não saberia como. O Verdunc imaginado em
meu romance é uma figura muito distinta do guerreiro Calabar. Faz da
dissimulação sua arma, da cultura a tática de combate.
Brabantino, ligado, pois, aos Países Baixos, Verdunc já estava em
Pernambuco quando chegaram os invasores. Pela identificação de origem,
partilhou da mesa farta do comando das tropas e fez-se interlocutor de
assuntos que deveriam estar sob rigorosa censura. De posse das informações
privilegiadas, municiava Matias de Albuquerque, comandante das tropas
nativas, e pode-se presumir que muitas das bem-sucedidas emboscadas dos
primeiros momentos de ocupação se deveram ao trabalho de Verdunc. Ou
Verdonck, como é grafado na extraordinária obra de José Antonio Gonsalves.
Minha descoberta desse personagem foi acidental, parte da deliciosa
leitura do diário de um dos soldados que vieram com as tropas invasoras.
Ele registra, em meia dúzia de linhas espalhadas, a revelação, prisão e
execução do traidor Verdunc. Pareceu-me, desde a primeira leitura, tipo
ideal para um romance de espionagem, enriquecido pelas circunstâncias da
guerra de ocupação em um período marcado por revoluções nas ciências e na
cultura. De molho, o cenário mágico de bruxarias que povoavam o imaginário
coletivo desde a Idade Média.
Assim nasceu o romance, que se fez com espionagem, mistério,
circunstâncias e muita, muita imaginação. Sem comprometer a raiz histórica
de personagens que escreveram capítulos ainda em aberto de nossa formação.
Ainda em aberto porque a ocupação holandesa não se integrou à nossa
tradição, como costuma ser nas terras onde a cultura absorve até os piores
e mais trágicos episódios da História para torná-los produto de consumo e,
sobretudo, memória.
Aqui padecemos do fascínio pela memória porque a luta pela sobrevivência é
mais forte. O que talvez explique uma obra magnífica como a de José
Antonio Gonsalves não inspirar nem enriquecer o patrimônio nacional. Não
poderia pretender nunca, com Verdunc, suprir essa deformação cultural, mas
a obra, pela sua simplicidade, presta-se a ocupar um espaço ao lado de
outras mais densas e reveladoras de um imenso filão, como nos mostra a
grande escritora Luzilá.
- A Batalha vista pelo
Exército
Jornal do Comercio -
Recife, 20 de abril de 1998O Brasil foi
alvo de tentativas estrangeiras de conquista durante o período colonial. A
de maior duração é amplitude territorial foi conduzida por holandeses, que
se iniciou em 1630 e teve fim em 1654, dominando nesse período boa parte
do Nordeste.
A reação que levou à expulsão definitiva do invasor
tomou impulso em 1645. Naquele ano, portugueses e brasileiros de todos os
matizes e estratos sociais deram vida à Insurreição Pernambucana. Na
proclamação dirigida aos estrangeiros, pela primeira vez na nossa
história, a palavra pátria foi usada para referir-se ao torrão a ser
liberado.
O passo inicial do movimento rebelde foi organizar o seu
braço militar, o Exército Patriota, integrado por índios, negros, brancos
e mestiços de todas as classes.
O momento culminante vivido por aquele povo em armas foi
a 1ª Batalha dos Guararapes, ocorrida em 19 de abril de 1648, quando os
patriotas, carentes de meios, mas plenos de determinação, derrotaram as
tropas holandesas de ocupação, dotadas com os mais modernos instrumentos
de guerra que havia na época.
Prodígio de criatividade, ousadia e bravura, a vitória
de 350 anos atrás é muito mais que um inconteste feito militar, um fato
histórico, de nossos antepassados. Sem nenhum auxílio da Côrte Portuguesa,
mas impelidos por arraigado sentimento de amor à terra e unidos num rijo
amálgama de raças, eles combateram movidos por estrangeiro, foram
plantadas as sementes da nacionalidade brasileira.
Assim está registrado o primeiro empreendimento
genuinamente nacional no alvorecer de nossa história e por isso, um fato
repleto de simbolismo.
O Exército permanece fiel ao legado de heróis de
Guararapes, entre eles Barreto de Menezes, Vidal de Negreiros, Fernandes
Vieira, Antonio Dias Cardoso, Felipe Camarão e Henrique Dias que, ao
vencerem uma batalha, também lançaram as bases de uma realidade histórica
e geográfica que desabrocharia soberana, 174 anos depois, às margens do
Ypiranga: a grande Nação brasileira.
A voz que vem dos Montes Guararapes, fala-nos de fé, de
trabalho árduo, de imaginação criadora; fala-nos de união e persistência
diante das dificuldades; diz-nos que é possível construir em nosso
País-continente uma civilização moderna, justa e bem-sucedida.
Que essa voz encontre eco nos corações e nas mentes de
todos nós.
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