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Batalha do Monte Guararapes

 

  • Três montes de perfis variados
    Jornal do Comercio - Recife, 20
    de abril de 1998

    por FREDERICO PERNAMBUCANO DE MELLO

    Queremos evocar um conjunto de três montes de perfis variados, guardando em comum a pobreza do solo, feito de barro e areia, e uma vegetação geralmente baixa e rala, com poucas árvores a pontilhar o manto verde que se estendia por sobre as ondulações, numa alternância de picos e grotas que as enxurradas do inverno só faziam acentuar. O encaixe estreito dos relevos faz que os espaços planos entre estes se mostrem quase nulos, embora ricos, outrora, em árvores de porte avantajado, numa exuberância vegetal que se estendia pelas campinas em volta, interrompidas, aqui e ali, pelo verde mais escuro dos alagados, o verde dos mangues que todos conhecemos tão bem no litoral do Nordeste.

    De muitos século, a voz do povo os batizou a cada um de maneira incerta, a passagem das gerações conspirando por tornar ainda mais precárias as designações coloniais de Barreiras, Oitizeiro e Oiteiro, sem que essa voz movediça contaminasse o conjunto das elevações, este sim, de denominação indígena invariável: Guararapes.

    Montes Guararapes. Sob o nome sonoro da língua dos índios que significa tambor, eles se fizeram sentinela natural do setentrião brasileiro e, dessa varanda sobre o Atlântico, a tudo assistiram desde a origem dos tempos. Viram chegar o português nos primeiros anos que se sucederam à Descoberta de 1500. Com ele, tantos aventureiros de mesma origem européia, ávidos todos pela riqueza do pau-brasil e pela adaptação posterior da cana-de-açúcar ao massapê da nossa faixa verde, de que resultaria não somente o assentamento do primeiro processo econômico de exportação, todo ele erguido por sobre o braço do escravo, senão do sistema patriarcal de relações sociais brotado à sombra do triângulo casa-grande, senzala e capela.

    Viram o progresso da Capitania pela afirmação rápida dos negócios privados, como viram o desespero a que foi lançado o colonizador branco quando a Coroa portuguesa, vacante por sucesso de guerra, vem a ser unificada à do Reino de Espanha em 1580, abrindo-se a nossa terra à cobiça estrangeira pelas seis décadas que se seguiram. É quando franceses e ingleses amiúdam as incursões de rapina às nossas costas, e é quando os holandeses, em guerra contra os espanhóis, premidos, em conseqüência, pela necessidade do açúcar bruto para as muitas refinarias que poussuíam à época, decidem-se pela conquita do Brasil setentrional, a se transformar em palco do que os cronistas contemporâneos chamavam orgulhosamente de Nova Holanda. Os velhos montes viram o projeto dessa Holanda tropical iniciar-se por sobre o Pernambuco florescente de 1630, com o desembarque das forças do almirante Lonck na praia de Pau Amarelo, ao norte de Olinda, não se privando de saber também do incêndio dessa cidade pelo invasor no ano seguinte, com a transferência do empreendimento colonial para as areias do Recife. Souberam da queda do Arraial Velho em 1635; da chegada do conde Maurício de Nassau em 1637; do ânimo desse regente esclarecido em deitar pontes sobre os rios e entre as pessoas, além de erguer o burgo de Maurícia, menina dos seus olhos ainda juvenis; como souberam das façanhas dos nossos capitães-de-emboscada, a aprender com o índio as astúcias da guerrilha; da epopéia de Luís Barbalho, ao retirar seu exército por 400 léguas, desde o Rio Grande até a Bahia; da restauração do trono português em 1640 e da insurreição final dos luso-brasileiros em 1645, coroada essa etapa com as vitórias sucessivas de Tabocas, de Serinhaém, do Cabo, do Pontal, de Nazaré e da Casa Forte, num crescendo que prenunciava um ajuste de contas de dimensões nunca vista na chamada Guerra de Pernambuco, que viria com as duas batalhas dos Guararapes, em 1648 e 1649. Mas antes de que a síntese histórica nos remeta aos dois recontros máximos da guerra, cedamos espaço a considerações analíticas necessárias à compreensão dos fatos com maior profundidade.

    Na passagem do século XVI para o XVII, a Espanha era a grande potência do mundo, com o seu império colonial tocado à base sobretudo da prata do Peru e do México, e a dividir com Lisboa a preocupação comum da manuntenção de colônias espalhadas pelo orbe. No ponto, aliás, não havia descrepância entre uma e outra das sedes imperiais peninsulares, ambas concebendo a defesa de suas posses vastíssimas como uma função exclusivamente naval. Coisa de que deveriam ocupar-se as armadas e apenas estas. Ainda mais do que a Espanha - que andara às voltas com guerras terrestre intermináveis na Europa - Portugual se deixa ficar para trás na doutrina da ação militar em terra, apostando tudo do mar.

    O pacto colonial vigente à época entre portugueses e sua próspera colônia do Brasil - que, na porção setentrional bafejada pelo cultivo da cana, passara rapidamente dos 66 engenhos de açúcar "moentes e correntes" em 1584, para as 144 chaminés com que se deparariam os holandeses em 1630 - não implicava apenas numa partilha da atividade econômica senão também na divisão das responsabilidades militares: à Coroa cabendo a defesa naval e ao Brasil, a resistência local, uma vez que seuas praças podiam-se sustentar à custa da população imigrada e autóctone, segundo estimava a metrópole. Com efeito, à época do inicío da chamada Guerra de Pernambuco, a nossa população se constituía de cerca de 95.000 almas, sendo em números de 40.000 os homens livres, outro tanto de cativos, e 15.000, o de índios aldeados. Considerado o conjunto da região, com o acréscimo, portanto, das capitanias de Itamaracá, Paraíba, Rio Grande e Ceará, esse contingente se elevava para algo em torno dos 120.000 habitantes, dos quais, cerca de 20% poderiam ser mobilizandos para a ação militar. Isto, potencialmente, bem entendido, de vez que se sabe que o nosso exércio oscilaria ao longo de toda a guerra em torno dos 3.000 homens.

    À possibilidade demográfica da organização de uma defesa militar local - como vimos - deve ser acrescida uma outra licença concedida naturalmente pelo meio físico generoso, no qual a população colonial ia buscar tudo o de que necessitava em essência para sobreviver, privando-se apenas do vinho e do azeite, num quadro logístico radicalmente oposto àquele com que se viram às voltas os invasores, dependentes em tudo das carnes curadas - do porco (presunto e toucinho), do peixe-pau (bacalhau), do arenque - do queijo, da manteiga, do trigo, dos biscoitos, dos vinhos, da cerveja, do tabaco e das aguardentes que o seu controle sobre nossas costas de mar e bocas de rio lhes permitia importar das fontes norte-européias tradicionais.

    No plano de saúde, ao lado da disenteria, da hemeralopia e dos vermes, um exemplo de doença ilustra bem o que se passou então. Inscientes da lição indígena da necessidade da ingestão de cajus, fruta rica em vitamina C, os holandeses foram vítimas do escorbuto, em muitos casos suas gengivas crescendo como trombas e levando o paciente a tê-las cortadas a navalha sob pena de morrer de fome. E o remédio estava muitas vezes ao alcance da mão, conhecida a abundância dessa fruta em nosso meio, da qual, aliás, é nativa. Para grande parte dos males, a farmácia era o mato. O índio, o farmacêutico. Registre-se aqui que a adaptação holandesa ao nosso trópico úmido foi penosíssima. A ênfase da política de quadros militares foi sempre a de reter aqui o soldado veterano, pouco interesse existindo quanto à vinda de adventícios.

    No que tange aos caminhos, à exceção das faixas de praia, eram todos péssimos. Mesmo os rios navegáveis, por correrem do oeste para leste, não acudiam a quem necessitava deslocar-se verticalmente do norte para sul ou vice-versa. E mais: na longa estação das chuvas, ofereceriam obstáculo por vezes intransponível ao viajante. Nisso os holandeses tiveram uma grande vantagem por conta do predomínio quase ininerrupto de suas forças navais em nossas costas, cabendo lembrar que testemunhos de época assinalam a vantagem de 4x1, ao comparar os dias necessários a um mesmo deslocamento por mar ou por terra.

    A essa dificuldade dos caminhos, deve-se acrescentar uma outra ainda mais geral e abrangente: a da própria terra, representada pelos areiais, pelo massapê encharcado, quando não mesmo pela lama, em todos os casos, solos difíceis de afeiçoar à caminhada, atoleiros, quase sempre. E se a isto juntarmos a cobertura vegetal invariavelmente densa da mata, do canavial e do mangue, teremos a explicação para o desprestígio entre nós da Cavalaria, usada vestigialmente de parte a parte e, entre os luso-brasileiros, mais para fornecer patentes consideradas honrosas, o cavalo tendo sido em nosso mundo colonial um símbolo de senhorialismo, como assinalou Gilberto Freyre. Costuma-se lembrar que duas companhias de cavalos intervieram na Segunda Batalha dos Guararapes. É certo. Mas sabem qual era seu efetivo? 40 cavaleiros, apenas.

    Do outro lado, talvez a maior expressão de uso dessa arma seja representada pelos 80 cavaleiros de que se acompanhava o conde de Nassau em suas incursões de conquista. Uma diferença cabe assinalar entre esses dois empregos igualmente restritos dos cavalos, por implicar em mais uma evidência ilustrativa da desatualização lusitana no tocante à guerra terrestre. É que, enquanto a cavalaria de Nassau operava com arcabuzes, clavinas ou pistolas, como era dominante na Europa desde o início do século XVII, a nossa, usava as lanças, evocativas de uma tradição já morta junto a exércitos modernos, sensíveis à revolução das armas de fogo em todos os setores da guerra.

    O meio natural diverso do europeu responde igualmente pelo desprestígio da Artilharia, reduzida à condição de "sério obstáculo à mobilidade das operações militares luso-brasileiras", conforme comenta Evaldo Cabral de Mello, evocando testemunhos de coevos, quer por estorvar a marcha dos campanhistas, quer por não pagar com eficácia o esforço penosíssimo de sua condução ao teatro de luta. Em novembro de 1632, o conde Bagnuolo levou 4 peças de bronze para bater os holandeses no Forte de Orange, em Itamaracá. Decepcionado com o baixo proveito ofensivo obtido, largou as peças naquela ilha. Peso a evitar...

    À exceção de uns poucos, em geral os nossos fortes também denunciavam o atraso que vimos flagrando na força portuguesa de terra, no caso específico, o desenvolvimento insuficiente de nossa Engenharia militar, ademais do que, voltada esta muito mais para cobrir o risco da escalada por índios ágeis que para fazer face às peças de artilharia. As muralhas eram, assim, altas e delgadas, ao contrário da tendência moderna - e já então corrente - de expandi-las no sentido horizontal. Na dificuldade da pedra de cantaria, que tinha que vir do Reino, e do arrecife, de retirada muito penosa, o material generalizado era o que a terra ofertava em abundância: a madeira e o massapê, de cuja combinação resultava a chamada taipa. Os fortes do Brasil setentrional se erguiam quase todos em "taipa de pilão" - que é a taipa socada - sólida como pedra no estio mas a se delir perigosamente sob a chuva intensa do trópico. Raríssimo aqui os mestres de Engenharia militar, não estranha que os nossos fortes padecessem, além de tudo, da escassez de espaço nas esplanadas, quando não ausentes estas de todo, de fossos rasos e da freqüente má colocação de baluartes, de estacadas e de parapeitos. Entre nós, o forte de pedra é realidade de disseminação posterior à guerra contra os holandeses.

    No tocante às armas leves, a guerra representa para os nossos a travessia precipitada do arcabuz de mecha para a espingarda de pederneira, tecnologia, esta última, que o inimigo já chega aqui empregando maciçamente. O resultado pouco risonho da substituição da mecha reinol, feita de linho, pela filbra de coco local, a umidade e as chuvas excessivas da região, de par com a denúncia com que a mecha iluminante - e de odor característico - fez abortar a surpresa de tantas emboscadas, tudo foram fatores de prestígio para a pederneira junto às duas facções combatentes. Dentro desse balizamento, não será demais registrar que chegamos a usar armas de muito boa qualidade, superiores em alcance e segurança às holandesas, conforme registro de alguns de seus cronistas, a revelar a boa fase por que passava Portugal no particular.

    Albert Eckhout, pintor e documentalista da corte do conde de Nassau, um regente sabidamente ilustrado apesar dos apenas 32 anos de idade que contava ao chegar ao Brasil, teve o cuidado de captar numa tela a óleo de 1641, hoje no Museu de História Natural de Copenhague, um mulato combatente tendo ao ombro um moderníssimo fuzil de cargas sobrepostas - uma arma de repetição, portanto - cabendo a suposição de se tratar de homem e petrecho nossos, à vista da preocupação do pintor em apreender meticulosamente a provável novidade que lhe chegava aos olhos. De toda maneira, um bom testemunhoo da qualidade do armamento leve empregado na Guerra de Pernambuco, nas espécies da pistola, da clavina, do arcabuz, do mosquete ou da espingarda, e nos sistemas de mecha, de roda com pirita fagulhante ou de ou de pederneira, com as declarações mais entusiásticas reservando-se para os mosquetes biscainhos, reforçados, de calibre e alcance superiores aos similares holandeses.

     

  • A Batalha em seu contexto histórico
    Jornal do Comercio - Recife, 20 de abril de 1998

    por MANUEL CORREIA DE ANDRADE

    A Reforma Protestante e as lutas na Alemanha, com rompimento de vários estados que compunham o Império Romano-Germânico, atingiram profundamente, no século XVI, a Espanha e Portugal. Unindo, inicialmente, a Coroa Espanhola e a do Império, Carlos V absorveu as divergências existentes entre os seus súditos e, ao morrer, transferiu-as ao seu sucessor, Felipe II.

    Havia, no século XVI, uma grande diferença econômica entre o mundo germânico e flamengo e o mundo ibérico, uma vez que, no primeiro, o feudalismo já entrara em decadência, e a burguesia urbana, tendo aumentado sua riqueza e poder, não queria mais permanecer sob o controle de soberanos absolutistas; comerciando no além-mar, com os países colonizados pela Espanha e Portugal, os burgueses passaram a ambicionar o controle dos territórios coloniais, produtores de matérias-primas.

    Com a morte do rei de Portugal, Cardeal D. Henrique, em 1580, sem deixar descendentes, a Espanha conseguiu que a coroa portuguesa passasse para Felipe II. Como a Holanda iniciasse uma guerra de independência com a Espanha e como Portugal estivesse na dependência desta, naturalmente ele passou a ser também visado pelas ambições flamengas.

    Dispondo de capital, os holandeses passaram também a financiar a instalação de engenhos de açúcar no Brasil, permitindo que o número de fábricas tivesse um grande crescimento, ao mesmo tempo em que estimulavam a ampliação de outras culturas, como o algodão e o fumo. Esse crescimento agrícola acarretou o crescimento do tráfico de escravos que era um dos negócios mais rendosos da época. Com o crescimento dos negócios, os holandeses, autorizados pelo governo português, passaram a fazer um comércio triangular: as suas embarcações viajavam até Lisboa carregadas de produtos industrializados, descarregavam e viajavam para as colônias portuguesas do Golfo de Guiné onde adquiriam escravos já aprisionados pelos régulos africanos e que eram trazidos para o Recife e vendidos aos senhores de engenho; daí retornavam à Holanda carregados de açúcar e de outros produtos da terra.

    Com a união de Portugal à Espanha, como a Holanda se encontrasse em guerra com esta, teve o seu comércio interrompido pelo governo espanhol causando-lhe grande prejuízo. Os holandeses, porém, estavam preparados para enfrentar as lutas que se seguiram e trataram de arregimentar mercenários na França e nos países da Europa Central e Setentrional, montando uma grande esquadra. Sendo comerciantes, os holandeses organizaram a Companhia das Índias Orientais para atuar no Oriente. Em 1621, os flamengos organizaram a Companhia das Índias Ocidentais para atuar na África e na América.

    A invasão holandesa foi feita com uma preparação segura; os flamengos mantinham contatos com habitantes de Pernambuco, sobretudo judeus e brabanteses que passavam informações detalhadas sobre as várias áreas, ou seja, a capacidade de produção, o estado das fortificações e dos efetivos militares. Um dos mais importantes informantes foi Verdonk (1949 - veja artigo neste carderno).

    Não se pode analisar a invasão holandesa em Pernambuco sem fazer referência à invasão da Bahia, ocorrida em 1624. Lá, os holandeses foram derrotados. Apesar disso, tiveram um grande lucro com a captura que fizeram de um carregamento de pau-brasil, açúcar, tabaco, algodão e outros produtos.

    A INVASÃO DE PERNAMBUCO - A invasão de Pernambuco ocorreria a 14 de fevereiro de 1630, quando a esquadra holandesa comandada pelo almirante Lonk, aportou em Pau Amarelo, ao Norte de Olinda, quase sem encontrar resistência, dirigindo-se para o sul, atacando Olinda e Recife, onde encontrou uma resistência heróica, mas pouco expressiva. Começava uma guerra, que duraria cerca de 24 anos e teve efeitos memoráveis de heroísmo, de covardia, de traições, de corrupções e crueldade. Ela pode ser dividida em três fases, a da conquista (1630/37), a da administração (1637/42) e a da insurreição (1642/54).

    No primeiro período os holandeses enfrentaram sérios problemas, apesar de sua superioridade bélica, pois encontraram pela frente um valoroso capitão, irmão do donatário de Pernambuco, Matias de Albuquerque. Weerdenburch, o comandante holandês, consolidou a ocupação do Recife e de Olinda e, em seguida, incendiou esta última para reduzir o território em que se concentrava e garantir o controle do porto, de onde recebia alimentos e reforços.

    Em 1631, realizou o seu primeiro ataque a Itamaracá. Entre os oficiais que acompanharam Pater, estavam duas figuras de generais, von Schkoppe e Artichofsky. Entre os que cerraram fileiras no Arraial estavam Martim Soares Moreno, Luiz Barbalho, o índio Antônio Felipe Camarão e o negro Henrique Dias.

    Em 1632, a situação mudou com a chegada de novos reforços holandeses e a deserção de Domingos Fernandes Calabar, um dos mais capazes capitães de Matias de Albuquerque. Calabar colaborou para os grandes sucessos que os flamengos passaram a ter na luta contra os luso-brasileiros. Os historiadores de então afirmam que Calabar teria traído os seus compatriotas mediante o recebimento de suborno, ou de que o teria feito por ter dado um desfalque no erário e temer a punição. Daí, então, o nome de Calabar passou a ser considerado como sinônimo de traição (veja matérias neste caderno). Há, porém, uma série de estudiosos que procura tirar esta mancha do desertor alagoano, dizendo que ele não traiu o Brasil e que, se vendo diante de uma dupla ação, continuar o seu país a ser colônia portuguesa ou tornar-se colônia holandesa, preferiu a segunda opção.

    "A partir de 1632, a situação holandesa melhorou consideravelmente, tendo vindo para o Recife dois altos conselheiros, von Ceuloen e Gysserlingh, para implantar uma administração que maximizasse a exploração da colônia e organizasse o território ocupado, que ia se expandindo com a conquista de novas áreas, como Igarassu, Rio Formoso e, em seguida, Itamaracá. A estas áreas seriam agregados o Rio Grande, a Paraíba, e o Cabo de Santo Agostinho.

    A resistência pernambucana começava a desmoronar e logo cairiam o Arraial do Bom Jesus e o Cabo de Santo Agostinho onde se situava o porto (Suape) por onde os luso-brasileiros se abasteciam desde a queda do Recife. Começaria, então, a grande retirada de Matias de Albuquerque, com seus soldados, parentes, amigos e liderados, para o sul, em direção ao São Francisco, fugindo ao jugo holandês. A desordem era geral, quem não acompanhava o exército luso-brasileiro se embrenhava nas matas à procura de segurança, os indígenas fugiam para o interior à procura de suas tribos e nações, enquanto os negros organizavam-se em quilombos, onde voltavam a viver à maneira africana. O mais famoso quilombo, o de Palmares, no norte de Alagoas, subsistiu à dominação holandesa e resistiu por mais de seis décadas às investidas que lhe foram feitas.

    Em Alagoas ocorreram as últimas grandes batalhas, de vez que as tropas trazidas por D. Luiz de Rojas y Borja, que substituía ao valoroso Matias de Albuquerque, não foram felizes, sendo derrotados na batalha de Mata Redonda, em 1636. Concluída a conquista, em 1636, iniciava-se, no ano seguinte, o período de administração holandesa, conduzida pelo príncipe João Maurício, conde de Nassau-Siegen, que perduraria por oito anos e daria um certo esplendor ao Recife e um pouco de paz à colônia.

    MAURÍCIO DE NASSAU - A chegada de Nassau ocorreu a 23 de janeiro de 1637, quando os holandeses já haviam conquistado uma expressiva parte do Nordeste brasileiro. Nassau se apresentava como uma figura que incutia grande ânimo aos holandeses e esperanças aos portugueses, que desejavam mudanças na conduta dos invasores. Ele vinha ao Brasil como um príncipe da Renascença, afeito ao uso da espada e à luta em campo aberto, mas vinha também como homem interessado nas ciências e nas artes. Em sua escolta não viajavam apenas soldados e funcionários, mas cientistas naturais, como Piso, astrônomos como Marcgraff, pintores, como Franz Prost, poetas e literatos. Com trinta e dois anos de idade, o príncipe alemão vinha curioso de conhecer o mundo tropical com suas surpresas, e sequioso de conquistar vitórias, riquezas, fama e fortuna. Trazia também grandes preocupações administrativas, pensando em organizar a colônia que os holandeses esperavam construir nos trópicos; para isto tinham um mandato de cinco anos que poderia ser prolongado.

    Inicialmente, procurou fazer-se respeitar pelos inimigos e pelos seus próprios comandados que viviam indisciplinados, fazendo tropelias e extorsões no território conquistado. Organizando-se militarmente, expulsou os luso-espano-brasileiros para o além São Francisco. Nassau considerou que o São Francisco, linha divisória entre Pernambuco, a Nova Lusitânia de Duarte Coelho e a Bahia, seria, por algum tempo, uma fronteira natural para a separação do Brasil holandês do hispânico. Nassau conseguiria estender o domínio holandês pelo Ceará e o Maranhão - ainda muito pouco povoado.

    A Companhia das Índias Ocidentais, com os seus monopólios e numerosos comerciantes, sobretudo judeus, desenvolveu as suas atividades mais no setor comercial, importando produtos da Europa e negros da África para serem vendidos aos senhores de engenho ou habitantes das cidades e exportando o açúcar e outros produtos da terra - fumo, algodão, couro, etc. Como a maioria dos senhores de engenho não dispusesse de capitais à mão, os comerciantes fizeram grande abertura de crédito aos mesmos, levando-os muitas vezes à falência por não conseguirem pagar as dívidas, em vista dos juros elevados que eram cobrados. Esta relação entre credores e devedores, acentuaria o desejo de independência e fortaleceria a Restauração Pernambucana depois da saída do conde de Nassau.

    O abastecimento alimentar era difícil, sobretudo para a população pobre, o que levou Nassau a determinar que os proprietários não cultivassem apenas os produtos de exportação mas também produtos alimentícios. Compreendendo que a convivência entre portugueses e holandeses era indispensável à sobrevivência da colônia, Nassau permitiu uma relativa liberdade religiosa; ao lado dos calvinistas, que tiveram grande pregadores no Recife, como Soler, conviveram, em sua capital, as sinagogas dos judeus - havia até uma na rua dos Judeus - onde pregou, entre outros, o rabino Aboab da Fonseca. Aos sacerdotes católicos foi permitido que dessem assistência religiosa, havendo até um sacerdote católico, frei Manoel Calado, autor de um livro muito rico em informações sobre o Brasil holandês, que conviveu com o próprio príncipe.

    A obra que traria maior fama a Nassau, porém, foi a construção da Cidade Maurícia, para ser a capital do Brasil holandês. Ao chegar ao Brasil, ele encontrou o governo holandês localizado no Recife, numa estreita península entre o oceano e o leito do Capibaribe, sem área contínua para a sua expansão. Achou que a colônia deveria ter uma capital melhor localizada. Nassau preferiu construir a sua cidade, a Maurícia, na ilha de Antônio Vaz, ligando-a ao Recife e à Boa Vista. Para isto mandou fazer um projeto de cidade semelhante à Amsterdam (veja matéria neste caderno), cortada por canais. Além deste palácio, dos canais, dos muros, do forte Ernesto e do casario, ele fez construir um outro palácio, o da Boa Vista, utilizado para descanso. No seu governo, o Recife cresceu a ponto de ficar bem mais importante do que Olinda; os seus planos de expansão abrangeram toda a ilha de Antônio Vaz - atuais bairros de Santo Antonio e São José - e, ao sul da mesma, construíram a fortaleza de Cinco Pontas.

    Graves problemas surgiram, a partir de 1640, quando os portugueses conseguiram restaurar a dinastia portuguesa, desvinculando o reino da União Pessoal com a Espanha e fazendo rei a D. João IV, duque de Bragança. Na guerra entre Espanha e Portugal os portugueses trataram de se aliar, na Europa, aos holandeses para enfrentar os espanhóis e, no Brasil, espanhóis e portugueses, que eram até então aliados, tornaram-se inimigos. Portugal, por sua vez, através de solicitações diplomáticas, procurou reaver terras conquistadas pela Holanda, mas Nassau, antes que o tratado entre os dois países fosse ratificado, tratou de expandir e consolidar suas conquistas.

    A Companhia das Índias Ocidentais, que era uma empresa comercial cujos acionistas estavam cada vez mais carentes de dividendos, preocupava-se com a queda de sua receita e pressionava a Nassau para que cobrasse as dívidas existentes em Pernambuco. Nassau, homem vivido e político experimentado, retardou o quanto pôde a cobrança, procurando agir de forma amena e a médio e longo prazo, sem executar os grandes devedores. Estes fatos e os incidentes ocorridos, levaram Nassau a solicitar a sua demissão, esperando, certamente, que ela não fosse aceita. Puro engano, a Companhia aceitou e passou o governo da colônia para um triunvirato formado por um comerciante, Hamel, um ourives, Bas, e um carpinteiro Bullestraten.

    A INSURREIÇÃO - Alguns historiadores afirmam que a revolta contra os holandeses iniciou-se com a retirada de Nassau; na realidade, porém, ela foi iniciada antes em 1642, no Maranhão, quando proprietários da Baixada se organizaram, tomaram os postos militares aí existentes e fizeram cerco a São Luís. Em Pernambuco, a insurreição iniciou-se quando os holandeses, abandonando a linha política de Nassau, iniciaram a cobrança das dívidas que muitas vezes eram superiores ao valor dos bens dos devedores. João Fernandes Vieira era um dos grandes devedores.

    Às primeiras suspeitas e denúncias chegadas aos holandeses sobre o andamento de uma conspiração, João Fernandes Vieira afastou-se do Recife e escondeu-se nas matas à espera do momento em que poderia se definir, e o momento não demorou a chegar, quando o governo da Bahia começou a autorizar as tropas que estavam acantonadas lá a se dirigirem para o território holandês. Assim, vieram as tropas de Henrique Dias, seguidas das de Felipe Camarão e ainda as de Martim Soares Moreno, apesar de bastante idoso, e de André Vidal de Negreiros, paraibano, filho de senhor de engenho.

    O governo holandês, surpreso, fez reclamações ao governador da Bahia, Antônio Teles da Silva, e este respondeu que não tinha autorizado o avanço de suas tropas e que Henrique Dias tinha se deslocado sem sua autorização para a margem esquerda do São Francisco e que ele havia mandado Felipe Camarão intimá-lo a retornar. É claro que os holandeses não aceitaram a explicação e já em 1644, estava deflagrada a "guerra da liberdade divina".

    A primeira batalha, a mais expressiva, travou-se no Monte das Tabocas, próximo à Vitória de Santo Antão, onde os luso-brasileiros, a 3 de agosto de 1645, venceram o exército holandês, apesar da superioridade numérica. Esta vitória trouxe grande ânimo aos pernambucanos que já a 17 do mesmo mês venceriam novamente os holandeses no engenho Casa Forte, de propriedade de D. Ana Paes, cuja casa os holandeses haviam transformado em fortaleza. A guerra continuou favorável aos portugueses no interior e aos holandeses no litoral, onde uma esquadra comandada pelo Al. Lichtharsdt, destruiu uma flotilha portuguesa em Tamandaré. Em 1646, chegaram reforços da Holanda e o governo do Recife resolveu atacar a ilha de Itaparica, na Bahia, visando fazer com que o governo geral determinasse a volta de seus soldados a Salvador.

    Com o passar dos anos, a situação foi se definindo em favor dos luso-brasileiros que começaram a conquistar vilas, como Penedo e Porto Calvo. No ano seguinte, Itamaracá foi conquistada em quase toda a sua extensão, ficando os holandeses apenas com o controle do forte de Orange. Em 1647, finalmente, o rei de Portugal se definiu e enviou para Pernambuco Francisco Barreto de Menezes que assumiu o comando de todas as tropas insurretas. Com um comando único e a condução da guerra nas mãos de um militar profissional e competente, a situação holandesa piorou. Segismundo von Schkoppe, comandante do Recife e profissional experimentado, compreendeu que teria que tomar atitudes mais agressivas, de vez que a capital estava atravessando uma situação muito difícil quanto à segurança e abastecimento.

    Em abril de 1648, von Schkoppe resolveu romper o cerco, fazendo um avanço para o sul em direção a Muribeca, em plena área açucareira. Informado do deslocamento das tropas holandesas, Barreto de Menezes se dirigiu aos Montes Guararapes onde, após renhida luta, fez os flamengos retrocederem derrotados para o Recife, impondo-lhes a derrota na primeira batalha dos Guararapes, a mais importante, certamente, da guerra holandesa. Estavam a 19 de abril de abril de 1648.

    Manuel Correia de Andrade é historiador. Texto adaptado do livro "Pernambuco Imortal", publicado em fascículos pelo Jornal do Commercio em 1995

     

  • As batalhas pelas terras do açúcar -
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    Jornal do Commercio - Recife, 20 de abril de 1998

    por CÍCERO BELMAR

    A maior autoridade sobre a história da invasão holandesa no Brasil, o professor José Antônio Gonsalves de Mello interpreta as batalhas dos montes Guararapes como sendo uma luta de interesse pelas terras dos canaviais em Pernambuco. Não chegou a ser uma defesa da Pátria, porque esse sentimento ainda era incipiente, no seu entender. O professor, de 82 anos, forjou sua opinião em anos e anos de pesquisas baseadas em documentos trazidos da Holanda para Pernambuco pelo professor José Higino, no século XIX. Os estudos o levaram a escrever um dos clássicos da História do Brasil, "Tempo dos Flamengos". Autor de 30 livros e de outras 182 publicações, entre artigos e prefácios, José Antônio Gonsalves de Mello foi condecorado pela rainha Juliana, da Holanda, em 1972, como Oficial da Ordem Orange-Nassau, pelos estudos da dominação holandesa no Brasil. O Instituto Histórico Brasileiro considera-o como o maior historiador vivo do Brasil.

    - As duas batalhas dos Guararapes representam o primeiro momento da consciência do povo como Nação?

    R - Não foi o primeiro momento. Antes houve outras batalhas importantes. O que aconteceu, na minha opinião, foi uma luta dos luso-brasileiros por sua terra. Foi o momento culminante dessa consciência de luta pelo que era deles. Mas, o Exército Brasileiro diz que ali, nas batalhas, nasceu de fato a sua organização militar. Elas foram o início da formação militar. Os brasileiros compreenderam, naquele momento, que tinham o poder físico para vencer um exército estabelecido, organizado, armado, com boas armas e comando experiente.

    - Pode-se resumir as duas batalhas como sendo a luta pelo domínio das terras dos canaviais?

    R - Sim. O açúcar foi quem trouxe os holandeses para cá. A Capitania era muito importante para a Holanda, que tinha grandes refinarias em Amsterdan. O produto para refino era o açúcar, que eles exportavam, pois estavam na entrada da Alemanha. Era um mercado de açúcar muito grande. Aqui, poucos deles foram donos de engenho. Mas, eles tinham grande interesse pelo produto.

    - Na sua opinião foi uma luta patriótica?

    R - Não, tanto que a iniciativa das duas batalhas foi dos holandeses.

    - Para ambas as partes a pátria valia menos do que as terras dos canaviais?

    R - Ainda não havia um sentimento de pátria, embora muitos dos que lutaram já tivessem nascido aqui. Os índios comandados por Felipe Camarão e o negros por Henrique Dias foram colaboradores importantes, mas eram colonos de uma propriedade portuguesa.

    - As duas batalhas foram uma vitória da raça brasileira?

    R - No século XVII já havia uma raça brasileira? Hoje pode-se falar em raça brasileira, mas naquele tempo não havia essa consciência de nacionalidade, na minha opinião.

    - Então, a principal conseqüência das duas batalhas foi apenas a organização militar dos brasileiros?

    R - Não foi só militar, mas foi principalmente militar. Não vejo conseqüências políticas. Os brasileiros perceberam que tinham condições de defender o seu território, mesmo com uma ajuda pouco numerosa do poder colonial.

    - O brasileiro estava praticamente sozinho na luta, sem o apoio de Portugal?

    R - Realmente estava, pois teve pouca ajuda nesse sentido. O destino do Brasil, na época, estava dependendo de uma negociação entre Portugal e Holanda.

    - No período, negociava-se uma saída diplomática para desocupação da Capitania?

    R - Houve uma ou duas tentativas de compra e venda da Capitania. Padre Antônio Vieira queria indenizar a Holanda para a retirada das suas tropas. Nesse caso, Pernambuco ficaria com Portugal.

    - A que o senhor atribui as vitórias dos luso-brasileiros nas duas batalhas, já que eles enfrentavam uma tropa muito mais forte?

    R - Os holandeses eram mais bem armados, mas os brasileiros tinham armas que os holandeses temiam muito. Eram armas pontiagudas, como facas e espadas. A arma de fogo, para ser carregada, exigia quatro ou cinco minutos, o que é muito tempo no momento da batalha. Além disso, a estratégia de batalha levou em conta a largura da passagem entre os pés dos montes e o mangue. O local das duas batalhas era a passagem obrigatória para o sul da capitania. Era muito estreito e os holandeses não tinham como desdobrar o seu exército. Não havia condições de usar toda a sua força na frente da batalha. A superioridade militar holandesa foi dificultada pelo local, como já tinha ocorrido nas Tabocas.

    - Foi o oportunismo contra a técnica militar?

    R - A maioria dos soldados holandeses era de mercenários de várias nacionalidades que viviam disso, empregando sua força. Os luso-brasileiros não eram militares, mas civis que se associavam a tropas regulares existentes no Brasil. Diante disso, podiam cometer alguns excessos, alguns exageros.

    - Que exemplo as gerações atuais podem depreender desse período da História do Brasil?

    R - Acho que o principal é a consciência de que o Brasil merece ser defendido tanto do ponto de vista militar quanto civil.

    - O senhor acha que as gerações atuais têm pouco interesse por esse período da história brasileira?

    R - Em geral, as novas gerações não têm muito interesse por essa história militar. Os locais de batalha são pouco visitados e também foram ocupados. Acho que, de um modo geral, falta interesse pela História, infelizmente. Mas, seria um motivo honroso a todos brasileiros e pernambucanos terem alcançado duas vitórias contra um poder militar.

    - Quando o senhor escreveu "Tempo dos Flamengos", qual foi o seu sentimento em relação ao período holandês no Brasil?

    R - Confesso que me envaideceu muito o período holandês, em especial os anos do governo do Conde Maurício de Nassau. Foi um homem excepcional, que trouxe consigo pintores, artistas, cientistas para registrar o que havia de novo nos trópicos para a Holanda, para a Europa. Ele teve a iniciativa de construir a Cidade Maurícia, seus palácios, suas pontes, seu parque botânico e a sua atitude de contemporização com os naturais da terra e aqueles que não professavam a religião reformada holandesa.

    - Como o senhor escreveu o "Tempo dos Flamengos"?

    R - Eu fazia pesquisas desde 1933. Ajudei nas pesquisas iniciais para Gilberto (Freyre) escrever "Casa Grande e Senzala". Desde aí comecei a me interessar pela história dos holandeses no Brasil. Visitava o arquivo do Diário de Pernambuco e também o Instituto ( Arqueológico Pernambucano, fundado em 1862). Eu já era sócio do Instituto e ficava além do horário normal de abertura da sede. Foi um longo trabalho de pesquisa, que exigiu, inclusive que eu estudasse a língua holandesa. Já sabia falar alemão e isso me facilitou aprender holandês, pois são línguas germânicas. Meus professores foram o padre Henrique, da Várzea e o padre carmelita Bonifácio Harnk. Esse estudo me permitiu manusear cópias de documentos que foram feitos na Holanda, sob a direção do professor José Higino (professor da Faculdade de Direito do Recife, que morreu em 1901, no México). A coleção de documentos do Instituto é muito grande. Tem correspondências, atas do governo holandês do Brasil, entre outras coisas. E eles contam o dia-a-dia na capitania, os problemas, as soluções. Concluí o livro em 1943. Gilberto (Freyre) escreveu o prefácio em 44. Mas, a editora (José Olympio) estava publicando livros com muito cuidado. Era tempo de guerra. O livro só foi publicado em 1947.

     

  • Surgem os defensores de Calabar
    Jornal do Comercio - Recife, 20 de abril de 1998

    Em cada canto de Porto Calvo vão aos poucos surgindo vozes a favor de Domingos Fernandes Calabar. Elas nascem geradas por outras um tanto antigas e que há muito encamparam a batalha de revisar a história. Vozes como a do professor Audemário Lins, do padre Expedito Macedo e do empresário Carlos Roberto Barbosa.

    Não é uma luta nada fácil. Mas tem reconhecimento. Basta chegar em Porto Calvo e perguntar sobre alguém que fale sobre Calabar. O nome de um dos três será indicado, senão todos. E também tem sua recompensa. Ela vem na forma, por exemplo, dos estudantes Aldo Bosco da Silva e Paulo José, ambos nascidos e criados em Porto Calvo. Mesmo filhos da cidade, até há pouco tempo os dois rapazes acreditavam que Calabar era um traidor da pátria. "Aprendemos isso na escola. Está nos livros", comenta Aldo. A mensagem impressa nas lições do primeiro grau durou até quando eles foram trabalhar na Farmácia Calabar, de propriedade de Audemário Lins.

    Gota a gota, o ex-professor foi mudando a mentalidade de seus funcionários. E conseguiu convencê-los. "A gente foi ouvindo o que ele falava e passamos a acreditar", explica Paulo José. Vez por outra passavam o olho nas folhas do livro Calabar, O Herói Desconhecido, escrito por Lins e o convencimento aumentava.

    De posse das informações, os rapazes tentam passá-las para seus colegas de turma. Nem sempre ganham credibilidade. "O pessoal, muitas vezes, não acredita", diz Aldo. E não é mesmo fácil crer em algo quando se passou anos ouvindo o contrário. É o caso de Alviane Patrícia da Silva, administradora de empresas. Ela é simplesmente bisneta de Pedro Valeriano Cavalcanti, um antigo poeta de Porto Calvo. Um homem que escreveu versos e versos defendendo e exaltando a figura de Calabar. Versos que se perderam no tempo. "Ninguém na minha família, a não ser minha avó, lembra disso. A gente aqui não dá importância a Calabar", comenta Alviane.

    Parece ser verdade. Que o diga o padre Expedito, um verdadeiro entusiasta da causa Calabar Herói. "As coisas antigas sempre são muito nebulosas. Mas com o tempo estamos tornando-as mais claras", analisa o padre. Ele diz isso com a experiência de quem faz palestras sobre o assunto quase todos os dias. Padre Expedito contabiliza um número considerável de pessoas que o procuram na casa paroquial de Porto Calvo para ouvir suas explanações.

    "O povo tem sido receptivo às novas idéias", constata. Pelo menos ele garante que em sua frente ninguém duvida dele. "Em palavra de padre todo mundo acredita. Numa cidade de interior, padre é como doutor. Tem autoridade máxima".

    Para os turistas, que procuram a cidade só como balneário ou como ponto de passagem, a conscientização fica por conta de Carlos Roberto Barbosa. Ele abriu o Cala Bar, um espaço cultural na BR 101, a três quilômetros do Centro de Porto Calvo. "Temos de recuperar a identidade de um dos nossos grandes mitos", pensa Barbosa. No Cala Bar, as garçonetes são treinadas para responder qualquer pergunta sobre o controverso personagem, dando a ele a nova versão heróica.

    O interesse de Carlos Roberto por Calabar não é de hoje. Vem de mais de 20 anos atrás, quando ele integrava o Grupo Experimental Portocalvense de Arte (Gepa). Era os anos 70 e imperava a ditadura militar. "Falar de Calabar naqueles tempos significava ser convidado a bater um papo com a repressão", lembra Carlos Roberto. O Gepa não só falava, como recitava poemas e representava peças teatrais sobre o personagem. Com Calabar no papel de herói e não traidor.

    Carlos Roberto recorda as vezes em que se viu frente a frente com senhores vestidos de verde-oliva. "Coloquei este nome no meu bar numa referência à peça Cala Bar de Chico Buarque de Holanda e Ruy Castro, proibida nos áureos tempos da censura por questionar o conceito do que na verdade seria traição à pátria".

    Pouco a pouco, a disseminação das novas idéias vai tomando corpo em Porto Calvo. Além da farmácia e do bar, já surgiram uma hospedaria e um fórum com o nome Calabar estampado na fachada. Mesmo assim, nas 44 escolas municipais, mais de seis mil crianças e adolescentes de Porto Calvo ainda aprendem e fazem suas provas através dos livros que colocam Calabar na escória dos traidores.

    Se não houver um professor disposto a pelo menos plantar-lhes uma desconfiança na mente, eles passam um bom tempo achando que nasceram na terra de um personagem execrável, até encontrarem alguém alheio ao sistema escolar tradicional que os faça pensar diferente.

    Que esperanças tem Porto Calvo que sua luta dará certo? Poucas. Mas bem fundamentadas. O som das vozes da terra ultrapassou as fronteiras da cidade. Pelo Brasil já existem várias publicações resultadas de gente desconfiada que a história não é bem aquela. "Muitos historiadores acreditam na inocência de Calabar. Mas seus livros apenas criam a dúvida na cabeça dos leitores", conta Audemário Lins. Mas o dele será diferente. "Quero afirmar, provar e não deixar as coisas no ar."

     

  • Duas cidades com muito em comum
    Jornal do Comercio - Recife, 20 de abril de 1998

    por ANDRÉ GALVÃO
    Editor de Cidades

    O recifense que chega de trem, de avião ou mesmo de carro a Amsterdã, a capital holandesa, logo tem a impressão de que aquela peculiar paisagem lhe é familiar. E não poderia ser diferente. As duas cidades, que já têm uma história em comum, a partir da chegada do conde Maurício de Nassau ao país, em 1637, apresentam algumas semelhanças. E a principal delas está na ímpar e rebuscada geografia, formada por rios, estuários e um amontoado de pequenas ilhas interligadas por dezenas de pontes.

    A única diferença nesse panorama é que em Amsterdã, a exemplo do glorioso passado marcado pela descoberta dos sete mares, a população ainda utiliza barcos como moradia e meio de transporte e de lazer, enquanto que no Recife os rios e canais servem, principalmente, para escoar os dejetos vindos da precária rede de esgotos. Prova disso é que, hoje, são poucos os recifenses que já tiveram a oportunidade de navegar no Rio Capibaribe, o mesmo que inspirou tantos poetas e que figura como um dos mais belos cartões-postais do Brasil.

    TRAÇADO - Também é possível estabelecer uma ligação no traçado urbanístico das duas cidades. O historiador Leonardo Dantas, da Fundação Joaquim Nabuco de Pesquisas (Fundaj), cita como exemplo o bairro de São José, onde alguns quarteirões datam da época em que o conde Maurício de Nassau construiu a Cidade Maurícia. As transversais da Avenida Nossa Senhora do Carmo, por exemplo, seguem paralelas até o Forte das Cinco Pontas, num percurso bem próximo do que se vê em algumas quadras do centro histórico da capital holandesa.

    As coincidências não param por aí. Amsterdã, tal como Recife, é uma cidade festiva, tem forte potencial turístico e guarda algumas das relíquias da presença holandesa na capital pernambucana. Para conferir este acervo, o visitante deve fazer uma visita ao Rijksmuseum, o mais importante do país. Lá, há uma grande variedade de peças, utensílios, vestimentas e telas a óleo (com imagens do Recife e Olinda) que retratam com fidelidade o período em que os holandeses se lançaram ao mar em busca de novas terras.

    Por essas e outras, o Recife deveria ser intitulada a Amsterdã Brasileira e não a Veneza Brasileira. Com certeza, as semelhanças com a famosa cidade dos Países Baixos são bem maiores que com às do mais famoso cartão postal da Itália.

  • O nosso espião
    Jornal do Commercio - Recife, 20 de abril de 1998


    por JODEVAL DUARTE
    Tivessem as forças dos Países Baixos consolidado a ocupação de Pernambuco no século XVII, haveria vitórias para festejar, como a Batalha dos Guararapes, falariam nos heróis - entre eles Calabar - e provavelmente teriam, como contraponto, um traidor de nome Verdunc. Mas a História é contada por nós, Calabar é o traidor e de Verdunc são raríssimos os registros. Talvez pela dimensão da presença de um e outro nos capítulos dessa longa guerra, que consumiu preciosos momentos de nossa formação. Mesmo assim, uma omissão.
    Se outros méritos não tiver, meu primeiro romance - premiado pelo Conselho de Cultura do Recife - está servindo para resgatar essa figura interessantíssima dos primeiros momentos de ocupação holandesa do Recife. Verdunc é o nome-título do livro e, porque romance, não foi construído com a ansiedade de dissecar a presença do personagens sob a rigorosa lente da metodologia histórica, até porque não saberia como. O Verdunc imaginado em meu romance é uma figura muito distinta do guerreiro Calabar. Faz da dissimulação sua arma, da cultura a tática de combate.
    Brabantino, ligado, pois, aos Países Baixos, Verdunc já estava em Pernambuco quando chegaram os invasores. Pela identificação de origem, partilhou da mesa farta do comando das tropas e fez-se interlocutor de assuntos que deveriam estar sob rigorosa censura. De posse das informações privilegiadas, municiava Matias de Albuquerque, comandante das tropas nativas, e pode-se presumir que muitas das bem-sucedidas emboscadas dos primeiros momentos de ocupação se deveram ao trabalho de Verdunc. Ou Verdonck, como é grafado na extraordinária obra de José Antonio Gonsalves.
    Minha descoberta desse personagem foi acidental, parte da deliciosa leitura do diário de um dos soldados que vieram com as tropas invasoras. Ele registra, em meia dúzia de linhas espalhadas, a revelação, prisão e execução do traidor Verdunc. Pareceu-me, desde a primeira leitura, tipo ideal para um romance de espionagem, enriquecido pelas circunstâncias da guerra de ocupação em um período marcado por revoluções nas ciências e na cultura. De molho, o cenário mágico de bruxarias que povoavam o imaginário coletivo desde a Idade Média.
    Assim nasceu o romance, que se fez com espionagem, mistério, circunstâncias e muita, muita imaginação. Sem comprometer a raiz histórica de personagens que escreveram capítulos ainda em aberto de nossa formação. Ainda em aberto porque a ocupação holandesa não se integrou à nossa tradição, como costuma ser nas terras onde a cultura absorve até os piores e mais trágicos episódios da História para torná-los produto de consumo e, sobretudo, memória.
    Aqui padecemos do fascínio pela memória porque a luta pela sobrevivência é mais forte. O que talvez explique uma obra magnífica como a de José Antonio Gonsalves não inspirar nem enriquecer o patrimônio nacional. Não poderia pretender nunca, com Verdunc, suprir essa deformação cultural, mas a obra, pela sua simplicidade, presta-se a ocupar um espaço ao lado de outras mais densas e reveladoras de um imenso filão, como nos mostra a grande escritora Luzilá.

 

  • A Batalha vista pelo Exército
    Jornal do Comercio - Recife, 20 de abril de 1998

    O Brasil foi alvo de tentativas estrangeiras de conquista durante o período colonial. A de maior duração é amplitude territorial foi conduzida por holandeses, que se iniciou em 1630 e teve fim em 1654, dominando nesse período boa parte do Nordeste.

    A reação que levou à expulsão definitiva do invasor tomou impulso em 1645. Naquele ano, portugueses e brasileiros de todos os matizes e estratos sociais deram vida à Insurreição Pernambucana. Na proclamação dirigida aos estrangeiros, pela primeira vez na nossa história, a palavra pátria foi usada para referir-se ao torrão a ser liberado.

    O passo inicial do movimento rebelde foi organizar o seu braço militar, o Exército Patriota, integrado por índios, negros, brancos e mestiços de todas as classes.

    O momento culminante vivido por aquele povo em armas foi a 1ª Batalha dos Guararapes, ocorrida em 19 de abril de 1648, quando os patriotas, carentes de meios, mas plenos de determinação, derrotaram as tropas holandesas de ocupação, dotadas com os mais modernos instrumentos de guerra que havia na época.

    Prodígio de criatividade, ousadia e bravura, a vitória de 350 anos atrás é muito mais que um inconteste feito militar, um fato histórico, de nossos antepassados. Sem nenhum auxílio da Côrte Portuguesa, mas impelidos por arraigado sentimento de amor à terra e unidos num rijo amálgama de raças, eles combateram movidos por estrangeiro, foram plantadas as sementes da nacionalidade brasileira.

    Assim está registrado o primeiro empreendimento genuinamente nacional no alvorecer de nossa história e por isso, um fato repleto de simbolismo.

    O Exército permanece fiel ao legado de heróis de Guararapes, entre eles Barreto de Menezes, Vidal de Negreiros, Fernandes Vieira, Antonio Dias Cardoso, Felipe Camarão e Henrique Dias que, ao vencerem uma batalha, também lançaram as bases de uma realidade histórica e geográfica que desabrocharia soberana, 174 anos depois, às margens do Ypiranga: a grande Nação brasileira.

    A voz que vem dos Montes Guararapes, fala-nos de fé, de trabalho árduo, de imaginação criadora; fala-nos de união e persistência diante das dificuldades; diz-nos que é possível construir em nosso País-continente uma civilização moderna, justa e bem-sucedida.

    Que essa voz encontre eco nos corações e nas mentes de todos nós.

 

 

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