"Conheci
a pintura de Eckhout através do livro de Clarival de Prado
Valladares e Luís Emygdio de Mello Filho,
intitulado "Albert Eckhout, Pintor de Maurício de Nassau", Rio de
Janeiro 1981. Fiquei fascinado, de imediato. Sensibilizaram-me os
aspectos contínuos da apresentação e interpretação do Brasil por
Eckhout nos tipos, na paisagem, nas árvores e nos bichos, naquele
céu imenso, típico da pintura holandesa, aqui dotada de uma luz
tropical, enfim, na "atmosfera rarefeita". Reconheci minha
experiência e visão do Brasil, de holandês radicado no Nordeste
Brasileiro desde 1982.
O
reconhecimento vem daquela continuidade como descreve José Cláudio
em "Artistas de Pernambuco" (Recife 1982): "A paisagem, a natureza
que viram os olhos dos holandeses ainda a podemos ver quase sem sair
do Recife, as mesmas casas de taipa, as mesmas moitas selvagens, e
em matéria de culturas somente o canavial, a mesma gente de pé no
chão e até a mesma idéia de tempo e economia, indo apanhar manga e
caju, procurando cacho de dendê, se atolando no mangue para pegar
caranguejo e até caçando e pescando para comer, andando a pé,
carregando balaio na cabeça, andando meio nus, arm
ando
arapucas, chamando boi"
Surgiu a
vontade de revisitar Eckhout, 350 anos depois, com o intuito de
fazer minha leitura do Brasil através do retrato. Nessa releitura
sigo alguns parâmetros das grandes telas de Eckhout. Sigo, mas não a
rigor, deixando abertura para brincar com esses mesmos parâmetros
que são:
figura central em pose frontal, linha do horizonte na altura dos
joelhos da figura, céu imenso, pano de fundo paisagístico cheio de
detalhes, no primeiro plano flora e fauna com destaque para uma
determinada árvore e um bicho.
Eckhout
retratou quatro casais representando várias etnias: homem Tapuia e
mulher Tapuia, homem Tupinambá e mulher Tupinambá, mulher mameluca e
um homem mestiço, um casal de negros. Existe ainda a composição de
uma cena em movimento intitulada "a dança Tapuia".
Ana
Maria de Morais Beluzzo cogita a hipótese de uma interpretação
alegórica dos quatro casais, representando os quatro continentes:
- Os
tapuias nus e bárbaros, colocados na contigüidade com a paisagem
natural intocada e identificados por lanças de caça e pesca e pela
sobrevivência canibal, não escapam à imagem mitológica que os
europeus construíram da América.
- A
imagem dos índios Tupinambás aculturados na civilização européia é
mais evidente na cercania da figura feminina que carrega uma
criança, tendo atrás a paisagem cultivada das plantações agrícolas e
no registro de outros aspectos da cultura material, como, por
exemplo, o cesto trançado e as cabaças. O casal referia a Europa.
- A
mameluca está emoldurada pela natureza mais sensual: as flores
evocam perfume e promovem a cor, os frutos falam de sabor, as jóias
atraem o olhar, os trajes de cetim sugerem
o contato com o corpo e um pequeno porquinho da índia saído de um
quadro como "Adão e Eva no Paraíso", de Peter Paul Rubens e Jan
Breughel, o Velho, completa convenientemente a suavidade da paisagem
e da cena. Nos cabelos soltos e nos olhos amendoados da mestiça
pode-se notar um certo paralelo com a imagem feminina descrita por
Cesare Ripa para a alegoria da Ásia.
O homem
mestiço pode muito bem ser um subalterno asiático a serviço da
Companhia das Índias Orientais pelo uso do saiote de tecido e não
calções curtos, pela tatuagem na face esquerda e pelos espécimes
vegetais representados.
- O casal de negros evoca a África, o
homem Gana, a mulher Angola, escravos, aqui convertidos em dignos
representantes da civilização negra, um fato recorrente na pintura
holandesa do período.
Complementar
a essa alegoria, Boogaart (5) sugere estados civilizatórios
diferentes: o estado de barbárie dos irrecuperáveis Tapuias, aliados
dos holandeses, e o estado promissor dos recrutados pela cultura
européia: tupis, negros e mestiços.
Retomando
o empreendimento de Eckhout, tantos anos depois, me deparei com o
fato que o Brasil de hoje não pode mais ser enquadrado em tipologias
étnicas ou funcionais tão distintas. Procuro, portanto, apresentar a
pluralidade brasileira através da singularização da figu
ra
humana e seu ambiente particular. Fico perto de casa, quer dizer,
perto da vida que levo, das amizades e relações que fui construindo
nesses anos todos no Brasil. Retrato gente do meu convívio, do meu
próprio cotidiano, por
sinal, todas pinturas feitas com modelo vivo. O documento é pessoal.
Um "álbum de família", particular e, por suas referências
alegóricas, universal em termos brasileiros ou, pelo menos, em
termos nordestinos.
Os
retratados são nativos. Um termo anacrônico que remete aos
tempos de descobrimento e colonização com seu olhar de fora sobre os
indígenas, primitivos habitantes desta terra estranha. Nativos agora
"populares", muitas vezes ainda vistos pela elite instalada como
primitivos, incultos. Para mim, porém, são eles o retrato,
a força e
a esperança deste país. São naturais, gentes desta terra, nativos,
que me cativam.
- O
primeiro casal retrata a miscigenação, mais as cores brasileiras do
que uma suposta raça brasileira. A pose lembra a mulher negra de
Eckhout com o menino mulato. A força e presença da raça negra na
formação do povo brasileiro estão simbolizadas no galo, um gigante
negro.
O homem,
negro de raça, moreno de cor, posa como o guerreiro negro de
Eckhout, agora numa missão mais pacífica
apanhando
caju no sítio onde moro. É cacaucatandocaju, numa palavra só. O
bicho é um camaleão, que adapta sua cor à paisagem como Cacau faz no
seu dia a dia para garantir sua sobrevivência.
- O
segundo casal apresenta uma alegoria das cidades vizinhas Olinda e
Recife. Olinda é um negro, sol forte na cara, reinando sobre uma
Olinda bucólica, o mar para dar brisa, um pé de fruta-pão para dar
comida, passarinhos lavadeiras que lembram liberdade, pois são
passarinhos que não se cria em gaiola. O pessoal tem até receio de
prendê-los por serem divinos. Diz-se que já lavaram a roupa de
Jesus.

Recife é
uma mulher buchuda com um neném no braço, apoiado no quadril (como a
índia Tupinambá de Eckhout), e na mão uma sacolinha de compras.
Bucho de vida. Vida de aperreio e movimento retratada frente à
cidade que serpenteada por rios e banhada pelo sol, serena flutua no
mar. O flamboyant dá charme com sua folhagem fina e suas flores
vermelhas.
- O
terceiro casal retrata o interior nordestino: sertão e zona
canavieira. O homem tem aquela cara avermelhada que faz o povo dizer
que tem sangue holandês. Ele me lembra o poeta de Van Gogh e o poeta
de Van Gogh me lembra os poetas sertanejos. Pintei-o numa paisagem
amarela, ocre e laranja. Van Gogh que enche a tela. Ao lado um pé de
algaroba que mesmo cinzento de tanta seca continua verde na
folhagem, dando vagens. Um tatu se esconde no milharal.
A zona
da mata é cana sem fim, fertilidade, sensualidade lânguida de uma
menina nova. Pintei-a na pose da Mameluca de Eckhout. O vestidinho
vermelho. Um cachorro de lado, roncando, lembrando o Lobo Mau de
Chapeuzinho Vermelho.
- O
quarto casal é situado numa cena urbana, enfatizando os aspectos do
crescente "apartheid social" nas grandes cidades. As duas telas
formam um quadro só: "Adão e Eva e o Cão chupando manga". A posição
e os bichos, a cobra morta e o cachorro, são referências ao casal de
índios Tapuias de Eckhout. Retrato, digamos, do habitante
"pré-colombiano", protótipo do homem americano, Adão e Eva num
suposto paraíso das Américas. Assim está o casal hoje frente ao
paraíso de consumo do qual é excluído. A cobra morta, desde que
abaixo do equador não há pecado. O cão chupando manga, pois assim
deve fazer para sobreviver.
Como
Eckhout completei a série dos retratos grandes com um quadro de
dança, um forró do jeito que a gente faz em casa no mês de junho,
retratando a tribo de casa,
cunhados,
afilhados, compadres, agregados e amigos.
Integra
a exposição também uma série de retratos menores (80 por 60cm.) de
figuras populares. A pintura destes quadros foi tanto um momento de
pesquisa como um motivo para chegar ao desenvolvimento dos grandes
formatos (210 por 130cm.).
Executei
este projeto numa caligrafia pictórica "estilo Eckhout", uma
figuração naturalista, porém não hiperrealista devido ao traço da
pincelada e ao improviso da cor, que dão um caráter mais solto à
pintura. Desafio foi chegar a uma unidade criativa e uma composição
pictorial de todos esses elementos capazes de comunicar como Eckhout
aquela "atmosfera rarefeita" que tanto me encanta"
Roberto Ploeg
Fonte
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transcrição do depoimento do
artista
2002/ Espaço Cultural Bandepe