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ARTE E
EDUCAÇÃO:UM ENCONTRO POSSÍVEL
Vilma Pereira
Martins Zanin
Revista Científica da
Universidade do Oeste Paulista - Unoeste
A presente
pesquisa aborda o tema Arte e Educação. Os objetivos do presente estudo foram
analisar a produção artística gráfica de escolares e verificar a relação
professor/aluno no processo de motivação no ensino da Arte em escolares do
Ensino Fundamental. Foram utilizados questionários para a coleta de dados com os
professores e solicitação de várias atividades às crianças, entre elas, a
execução de produções gráficas seguidas de histórias sobre os desenhos
realizados. Todos os dados coletados foram analisados quantitativamente e
qualitativamente. As produções artísticas foram analisadas seguindo os
pressupostos de Lowenfeld e Gesell. Os resultados mostraram que as crianças
desenvolveram as atividades propostas mostrando compatibilidade entre a faixa
etária das mesmas com as produções artísticas realizadas.
1 INTRODUÇÃO
A preocupação com a situação do ensino da Arte, em escolas
das redes pública e particular, foi o que motivou e orientou o desenvolvimento
de todo este trabalho de pesquisa para essa área e, que redundou na dissertação
de mestrado intitulada: “Arte e educação: um encontro possível”. Trata-se do
resgate de alguns aspectos históricos – evolutivos do desenvolvimento da arte e
da busca de se traçar um paralelo entre duas escolas.
Como se sabe, o ensino da arte é fundamental para
desenvolvimento da criança, pois arte é conhecimento e envolve o pensamento, o
sentimento estético e a formação intelectual do aluno. Para Lowenfeld (1977), a
arte desempenha um papel potencialmente vital na educação das crianças.
Desenhar, pintar ou construir constituem um complexo em que a criança reúne
diversos elementos de sua experiência, para formar um novo e significativo todo.
A arte sempre esteve presente em todas as formações
culturais, desde o início da história da humanidade. Ao desenhar um bisão numa
caverna, na Pré-história, o homem teve que aprender seu ofício. Depois, ensinou
para alguém o que aprendeu. Assim, o ensino e a aprendizagem da arte fazem parte
do conhecimento que envolve a produção artística em todos os tempos.
Existem autores que formularam os princípios inovadores para
o ensino das artes plásticas, música, teatro e dança.
Tais princípios influenciaram o que se chamou “Movimento da
Educação através da Arte”, que fundamentou -se principalmente nas idéias do
filósofo inglês Herbert Read. Esse movimento teve como manifestação mais
conhecida a tendência da livre expressão que, ao mesmo tempo, foi largamente
influenciada pelo trabalho inovador de Viktor Lowenfeld, o qual acreditava que a
potencialidade criadora se desenvolveria naturalmente em estágios sucessivos
desde que se oferecessem condições adequadas para que a criança pudesse se
expressar livremente.
É importante também, salientar que esses fatos contribuíram
inegavelmente no sentido da valorização da produção criadora da criança, o que
não ocorria na escola tradicional. O princípio da livre expressão enraizou-se e
espalhou-se pelas escolas, acompanhado pelo “imprescindível” conceito de
criatividade, curioso fenômeno de consenso pedagógico, presença obrigatório em
qualquer planejamento. Esse princípio tinha como objetivo fundamental facilitar
o desenvolvimento criador da criança. Mas, como resultado, desencadeou-se uma
descaracterização progressiva da área.
Na década de 60, arte - educadores lançaram as bases para uma
nova mudança de foco dentro do ensino de Arte, questionando basicamente a idéia
do desenvolvimento espontâneo da expressão artística da criança e procurando
definir a contribuição específica da arte para a educação do ser humano. Essa
nova tendência articulou-se num duplo movimento: de um lado, a revisão crítica
da livre expressão, de outro, a investigação da natureza da arte como forma de
conhecimento.
No inicio dos anos 70, Feldman, Thomas Munro e Elliot Eisner,
ancorados em John Dewey, responsáveis pela mudança de rumo do ensino de Arte nos
Estados Unidos afirmavam que o desenvolvimento artístico é resultado de formas
complexas de aprendizagem e, portanto, não ocorre automaticamente à medida que a
criança cresce; é tarefa do professor propiciar essa aprendizagem por meio da
instrução. Segundo eles, as habilidades artísticas se desenvolvem por meio de
questões que se apresentam à criança no decorrer de suas experiências de buscar
meios para transformar idéias, sentimentos e imagens num objeto material.
Atualmente, professores do mundo inteiro se preocupam em
responder perguntas básicas que fundamentam sua atividade pedagógica: “Que tipo
de conhecimento caracteriza a arte?” “Qual a função da arte na sociedade?” “Qual
a contribuição especifica que a arte traz para a educação do ser humano?” “Como
as contribuições da arte podem ser significativas e vivas dentro da escola?” e
“Como se aprende a criar, experimentar e entender a arte e qual a função do
professor nesse processo?”.
Essas questões geraram as condições para o estabelecimento de
um quadro de referências conceituais solidamente fundamentando dentro do
currículo escolar, focalizando a especificidade da área e definindo seus
contornos com base nas características inerentes ao fenômeno artístico. A partir
disso, desenvolveram-se muitas pesquisas dentre as quais se ressaltaram as que
investigam o modo de aprender dos artistas, as quais trouxeram dados importantes
para as propostas pedagógicas, que consideram tanto os conteúdos a serem
ensinados quanto os processos de aprendizagem dos alunos.
No Brasil, o ensino de Arte faz referência às modalidades
artísticas ligadas à imagens, sons, movimentos e cenas.
Observa-se a integração de diferentes orientações quanto às
suas finalidades, à formação e atuação dos professores, mas principalmente,
quanto às políticas educacionais e os enfoques filosóficos, pedagógicos e
estéticos. É identificado pela visão humanista e filosófica que demarcou as
tendências tradicionalistas e escolanovista, as quais vigoraram desde o início
do século XX e ainda hoje estão presentes na disciplina Arte.
As disciplinas Desenho, Trabalhos Manuais, Música e Canto
Orfeônico faziam parte dos programas das escolas primárias e secundárias, na
primeira metade do século XX. Nessa época era valorizada a habilidade manual os
“dons artísticos”, os hábitos de organização e precisão, mostrando uma visão
utilitarista e imediatista da arte. Era o ensino de Arte voltado essencialmente
para o domínio técnico, mais centrado na figura do professor. A disciplina
Desenho, apresentada sob a forma de Desenho Geométrico, Desenho do Natural e
Desenho Pedagógico, era considerada mais por seu aspecto funcional do que uma
experiência em arte; ou seja, todas as orientações e conhecimentos visavam uma
aplicação imediata e a qualificação para o trabalho.
Em 1971, pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional,
a arte é incluída no currículo escolar com o titulo de Educação Artística, mas é
considerada “atividade educativa” e não disciplina. Isso foi um avanço,
principalmente se considerarmos que houve um entendimento em relação à arte na
formação dos indivíduos, seguindo os ditames de um pensamento renovador. Como
muitos professores não estavam habilitados e preparados paro do domínio de
várias linguagens, que deveriam ser incluídas no conjunto das atividades
artísticas (Artes Plásticas, Educação Musical, Artes Cênicas), o resultado foi
contraditório e paradoxal.
Com a Lei n°9.394/96, a Arte passou a ser considerada
obrigatória na educação básica: “O ensino da arte constituirá componente
curricular obrigatório, nos diversos níveis da educação básica, de forma a
promover o desenvolvimento cultural dos alunos” (art. 26 § 2o).
O que se propõe, nesse inicio do terceiro milênio são estudos
sobre a educação estética, a estética do cotidiano, para complementar a formação
artística dos alunos. Ressalta-se ainda o encaminhamento pedagógico artístico
que tem por premissa básica a integração do fazer artístico a apreciação da obra
de arte e sua contextualização histórica, que são indicações da “Proposta
Triangular para o Ensino da Arte”, criada por Ana Mae Barbosa e difundida no
país por meio de projetos como os do Museu de Arte Contemporânea de São Paulo e
o Projeto Arte na Escola da Fundação Iochpe.
A definição de arte nunca satisfez a todos. A arte é uma
dessas coisas que, como o ar ou o solo, estão por toda a nossa volta, mas que
raramente nos detemos para considerar. A arte não é apenas algo que encontramos
nos museus e nas galerias de arte, ou em antigas cidades como Roma, Paris,
Florença. A Arte está presente em tudo que fazemos para satisfazer nossos
sentidos.
No Brasil, a expressão “educação através da arte”, criada por
Herbert Read, transformada em arte-educação”, vem sendo bastante empregada após
o surgimento da conhecida Lei 5692/71, a qual pretendeu modernizar nossa
estrutura educacional, fixando suas diretrizes e bases. Trouxe algumas
novidades, como a introdução da educação artística. No currículo escolar, o que
foi um avanço, principalmente pelo aspecto de sustentação legal para essa
prática e por considerar que houve um entendimento em relação à arte na formação
dos indivíduos. Antes dela, tínhamos na escola algumas disciplinas que possuíam
o termo “arte” em seu nome. É o caso das “artes industriais” , onde se aprendia
a fabricar objetos “úteis”; ou das “artes domésticas”, onde se aprendia a
cozinhar, a bordar.. Também, as aulas de música (às vezes denominadas “canto
orfeônico”), em que o aluno cantava, com o acampamento do mestre, os hinos do
País.
Funcionando precariamente, as escolas não tinham condições
para abrigar um espaço apropriado ao trabalho com a arte, relegando a educação
artística a se tornar uma disciplina a mais dentro dos currículos tecnicista,
com uma pequena carga-horária semanal de 2 aulas. Assim, a arte continuava a ser
encarada, no interior da própria escola, como um mero lazer uma distração entre
as atividades “úteis” das demais disciplinas. O próprio professor de arte era
visto como “pau pra toda obra”, como um “quebra - galhos”. Sempre sendo obrigado
a ceder suas aulas para “aulas de reposição” de outras disciplinas, quando não
lhe era delegada a incumbência de “enfeitar” a escola e os “carros - alegóricos”
para as atividades cívicas. Neste sentido, faz-se totalmente inócua, a
disciplina “educação artística”, já que toda a estrutura física, burocráticas e
ideológicas da escola está organizada na direção da imposição e do cerceamento
da criatividade.
Com a implantação da Lei 5692/71 multiplicam-se os cursos de
formação para o arte-educador. Mas, apesar de já existirem pessoas diplomadas na
área, ainda muitos leigos continuavam ocupando cargo de professor de arte. Outro
grave problema era que “educação artística” compreendida as áreas de música,
teatro e artes plásticas, sendo impossível formar um professor que dominasse
integralmente as três áreas gerando, deficiências no trabalho efetivamente
desenvolvido.
Todo este quadro de desvirtuamento da arte-educação gerava
situações sumamente perniciosas. Como, por exemplo, a entrega de desenhos e
contornos já prontos para o aluno colorir ou recortar. Nesta atividade
escondia-se uma sutil imposição de valores e sentidos. A mensagem subliminar que
ela encerrava, e que era transmitida ao aluno era: “você é incapaz de desenhar
por si próprio, de criar qualquer coisa. Você deve se restringir aos limites
impostos pelos mais capazes”.A este respeito, comentam Lowenfeld e Brittain:
“ Expor
uma aprendizagem artística que inclua tais tipos de atividades é pior de que não
dar aprendizagem alguma. São atividades pré-solucionadas que obrigam as crianças
a um comportamento imitativo e inibem sua própria expressão criadora; esses
trabalhos não estimulam o desenvolvimento emocional, visto que qualquer variação
produzida pela criança só pode ser um equívoco; não incentivam as aptidões,
porquanto estas se desenvolvem a partir da expressão pessoal. Pelo contrário,
apenas servem para condicionar a criança, levando-a a aceitar, como arte, os
conceitos adultos, uma arte que é incapaz de produzir sozinha e que, portanto,
frustra seus próprios impulsos criadores”(
Lowenfeld & Brittain, 1977)
Ainda é comum encontrar, nas salas de arte, a proposta de
confecção de presentes para o dia “das mães”, “dos pais”, das crianças “. Além
de serem” presentes “pré-fabricados que o aluno deve recortar, colar e colorir,
reforça-se a atividades consumista presente entre nós. Devemos sempre nos
lembrar que arte-educação significa expressar os sentimentos e sentidos
oriundos da vida concretamente vivida e não a imitação dos valores alheios”.
Com a promulgação da Constituição, em 1988, iniciaram-se as
discussões sobre a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a qual
foi sancionada em 20 de dezembro de 1996. Com a Lei n°9.394/96, a arte é
considerada obrigatória na educação básica: “O ensino da arte constituirá
componente curricular obrigatório, nos diversos níveis da educação básica, de
forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos” (artigo 26, parágrafo
2°). A atual legislação educacional brasileira reconhece a importância da arte
na formação e desenvolvimento de crianças e jovens. Ela visa a destacar os
aspectos essenciais da criação e percepção estética dos alunos e o modo de
tratar a apropriação de conteúdos imprescindíveis para a cultura do cidadão
contemporâneo. As oportunidades de aprendizagem de arte mobilizam a expressão e
a comunicação pessoal e ampliam a formação do estudante como cidadão,
principalmente por intensificar as relações dos indivíduos tanto com seu mundo
interior como com o exterior.
A criança começa a se expressar desde o nascimento. Começa
com certo desejo instintivo que precisa tornar conhecido do mundo exterior, um
mundo que é, a princípio, representado exclusivamente pela mãe. Seus primeiros
gestos e gritos são, portanto, a linguagem primitiva com que a criança tenta se
comunicar com os outros. Em suas primeiras semanas de vida podemos fazer uma
distinção entre a expressão que é dirigida para um fim específico; garantir a
satisfação de um apetite como a fome e a expressão que é indireta – não tem
nenhum objetivo além de exteriorizar um sentimento mais generalizado, como o
prazer, a ansiedade ou a raiva.
Esses dois modos de expressão estão relacionados entre si: a
satisfação da fome, por exemplo, produz um estado de prazer que é então expresso
com um sorriso, ou a prolongação da fome produz um estado de insatisfação ou de
dor que é então expresso com um grito de raiva.
A livre expressão cobre uma ampla variedade de atividades
físicas e processos mental. A brincadeira é forma mais óbvia da livre-expressão
nas crianças e há uma persistente tentativa, por parte dos psicólogos e
antropólogos, de identificar todas as formas de livre-expressão com a
brincadeira. Froebel chegou a firmar que
“brincar é a mais elevada
expressão do desenvolvimento humano na criança, pois constitui a única expressão
que está na alma da criança. É o produto mais puro e mais espiritual da criança,
sendo, ao mesmo tempo, um tipo e uma cópia da vida humana em todos os seus
estágios e em todas as suas relações”.
Segundo a visão da Dra Margaret Lowenfeld:
“ Nas
crianças, a brincadeira é a expressão de sua relação com o todo da vida, e
nenhuma teoria da criança será possível se não for também uma teoria que cubra o
todo da relação da criança com a vida. Brincar... é visto como a aplicação de
todas as atividades das crianças que são espontâneas e autogeradas; que são fins
em si mesmas; e que estão relacionadas com as” lições “ou com as necessidades
psicológicas normais e diárias da criança”.(
READ, 2001)
A arte pode contribuir imensamente para o desenvolvimento da
criança, pois é na interação da criança com seu meio que se inicia a
aprendizagem. Essa arte tem inicio quando os sentidos da criança estabelecem o
primeiro contato com o ambiente, e ela reage a essas experiências sensoriais.
Tocar, cheirar, ver, manipular, saborear, escutar, enfim, qualquer método de
perceber o meio e reagir contra ele é, de fato, a base essencial para a produção
de formas artísticas.
A criança de sete anos entra em prolongados períodos de
aquietação e de concentração em si mesma. Durante essa calmaria e concentração,
elabora repetidamente as suas impressões, alheada do mundo exterior; ordena
experiências novas com as antigas; é um bom ouvinte, gosta de ouvir histórias
contadas por mais de uma vez. Irrita-se quando alguém se intromete em suas
cogitações.
Esse período corresponde a uma idade agradável, desde que se
respeita o sentimento da criança, os quais requerem uma atenção nova porque ela
tende a mergulhar em períodos de cogitação. É muito difícil, para nós adultos,
avaliar o quanto a criança de 7 anos, tem ainda que aprender com relação à
compreensão dos significados das múltiplas situações da vida que afetam, tanto
no lar, como na escola.
Quando esboçamos um retrato sintético da criança de 7 anos,
temos de salientar novamente as tensões íntimas que nos dão a chave da sua
psicologia. Ela encontra – se predominantemente num estádio assimilativo, em que
desenvolve um equilíbrio funcional entre as suas inclinações interiores e as
exigências da cultura. Ela necessita particularmente duma orientação
discriminativa que dê a importância devida às cogitações sutis da sua vida
interior. É facilmente mal compreendida, assim como é fácil também encaminha –
lá mal. Osborne, psicanalista da Clínica Tavistock de Londres, em
Compreendendo seu filho de 7 anos (1993), relata que a criança de 7 anos é
provavelmente uma criança que apresenta uma consciência de sua própria
competência. Suas conquistas desde quando nasce foram bem considerados: na fala
e na linguagem; em autocontrole, incluindo não só o desenvolvimento muscular,
mas também o controle de sentimentos e reações; na capacidade de se
inter-relacionar socialmente com muitas pessoas; e uma compreensão cada vez
maior do mundo que a rodeia.
Nesta faixa etária, as crianças se relacionam entre si com
mais facilidade e, por isso, também são comuns as comparações em relação a
capacidade de fazer amigos e a popularidade. Tais comparações são feitas em
geral tendo em vista uma idéia preconcebida do que seja normal, idéia esta a
partir da qual toda a criança é “medida”. Entretanto, esta preocupação com o que
é normal e desejável só aparece à medida que as diferenças individuais entre as
crianças vão se tornando cada vez mais claras, pois todas as crianças são
diferentes, não apenas na variedade de suas habilidades intelectuais, interesses
e habilidades sociais, mas também em suas vidas emocionais e na capacidade de
lidar com problemas.
De acordo com Sans, em seu livro A criança e o Artista
(1995), os estudos sobre o desenho infantil se intensificaram no decorrer deste
século, distanciando-se aos poucos do preconceito de ser visto como um “realismo
fracassado” ou um “realismo fortuito”, na suposição de que a criança carece
atenção ao desenhar.
Percebeu-se o rico universo, repleto de particularidades
autênticas e originais que a criança oferece por intermédio de suas criações
plásticas. Embora haja peculiaridades, os desenhos e as pinturas infantis tendem
a uma configuração básica, contendo semelhanças que independem do país ou
período histórico em que foram produzidas.
Ao comparar os desenhos feitos por crianças relativamente da
mesma faixa etária, notam-se certas analogias principalmente na representação da
forma. No entanto, apenas de modo sumário, pode-se indicar aspectos que aparecem
com certa freqüência. É interessante observar que, mesmo contendo semelhanças
nítidas, isso se processa de modo pessoal, pois sempre prevalece o caráter
criativo de cada um.
Para Bessa (1969), a idade dos 7 anos é considerada uma das
fases mais férteis na evolução do grafismo, quando a criança chega do dominar um
vocabulário formal bastante rico, empenhando-se com desenvoltura na
representação daquilo que deseja exprimir. É a busca do conceito – forma ou
enriquecimento dos símbolos. Toda tentativa de correção de cor, forma ou
proporção é desnecessária e prejudicial.
A criança normalmente descobre cada dia uma novidade, uma
estrutura, um detalhe. Seus desenhos são sempre originais: primeiro porque
correspondem a uma visão pessoal; depois, pela incapacidade de representação
realista e pela ausência mesma de lógica formal que a fabulação compensa no
momento da execução. Nesta fase, desenhar deveria ser uma atividade tão regular
quanto falar, cantar, pensar, dramatizar. Também, a criança pode dominar os
símbolos de que se serve para traduzir o mundo que a rodeia e alcança o poder de
exprimir-se pelo desenho com a versatilidade de autêntica linguagem gráfica.
De acordo com Lowenfeld & Brittain (1977), o aparecimento e a
formação de um esquema surge na maioria das crianças por volta dos 7 anos. Ele
pode ser determinado pelo modo como a criança vê alguma coisa, pelo significado
emocional que ela lhe atribui, pelas suas experiências cinestésicas, pelas
impressões táteis do objeto ou pela forma como o objeto funciona ou se comporta.
Quando a representação se confina ao objeto dizemos que se
trata de um esquema puro. Por exemplo: “Isto é uma árvore”. Neste caso, a
representação esquemática é um tipo de representação que não inclui experiências
intencionais.
Caso contrario, a criança manifesta sua experiência
particular.
O esquema humano - expressão é usada para descrever o
conceito de uma figura que a criança criou após muita experimentação. Cada
criança tem seu esquema para representar o homem. Aos 7 anos, quando a criança
desenhar uma figura humana, mostrará um símbolo reconhecível facilmente: com a
cabeça, corpo, braços, pernas e também outras características particulares.
Representará: olhos, nariz, boca, cabelos e pescoço. Para cada um desses
elementos, um símbolo.
A roupa é, freqüentemente desenhada em lugar do corpo. O
esquema consiste em formas geométricas que, quando separadas do todo, perdem seu
significado.
O esquema Espacial: Aos 7 anos, a grande descoberta é a
existência de uma ordem definida nas relações espaciais. A criança percebe que
seus pés ficam no chão, que a grama cresce no chão e, que todas as pessoas estão
no chão. É o primeiro conhecimento consciente de que a criança é parte de seu
meio. Isso é indicado através de um símbolo que recebe o nome de linha de base,
que ela utiliza para representar o espaço. De agora em diante, expressa-se por
meio da colocação de tudo nessa importante linha, perpendicularmente. Mas, a
criança ainda não adquiriu a consciência de como representa a qualidade
tridimensional do espaço. O que se verifica é que o esquema representa duas
dimensões. A criança pode sofrer alguma experiência emocional que a faz
desviar-se desse tipo de esquema e usar representações subjetivas do espaço – a
dobragem, que é o processo de criação do conceito de espaço, quando os
objetos são desenhados perpendicularmente à linha de base, e parecem ser
colocados de pernas para o ar.
Desenhos de Tipo Raios-X: A criança também pode usar,
outro meio não visual de representação, para mostrar aspectos diferentes que não
poderiam ser vistos ao mesmo tempo. Ela pinta o interior e o exterior de uma
casa, simultaneamente, sempre que o interior é de maior importância.
O significado da cor: Naturalmente a criança descobre que
existe afinidade entre cor e objeto. Não existe uma relação emocional que
determina qual a cor que seleciona para os objetos em sua pintura. Ela descobre
relações análogas definidas.
Assim como repete, uma e outra vez, seu esquema de homem, ou
de espaço, também torna a usar as mesmas cores para os mesmos objetos.
Esse estabelecimento de uma cor definido para um objeto, e
sua repetição constante é o reflexo direto do continuo progresso dos processos
intelectuais da criança. Começa, nesta fase, a desenvolver a capacidade de
agrupar coisas em classes e de formar generalizações. Ao perguntar à criança:
“De que cor é o céu?”, Ela responderá: “é azul”, dependendo de o dia estar
nublado ou não. Cada criança desenvolve suas próprias relações de cor. A origem
desse esquema individual de cor será encontrada no próprio conceito visual ou
emocional de cor. O esquema de cor é indicio da capacidade em evolução do
pensamento abstrato, e mostra que a criança pode generaliza-lo a outras
situações, partindo das suas próprias experiências.
O significado do traço: Para a criança a arte é
meio de expressão pessoal. Ela não tem consciência da beleza do que faz, nem tem
pretensão de enfeitar, espontaneamente, o objeto. O ensino dos “fundamentos do
traço” nesta faixa – etária, seria uma imposição adulta, artificial e poderia
destruir a criatividade espontânea da criança. Um dos atributos mais importantes
do traço é o ritmo. Este aparece muito nos desenhos infantis, em suas repetições
de forma. Essa repetição da forma ou dos esquemas é feita de modo inconsciente.
2 MATERIAIS E MÉTODOS
O presente estudo foi desenvolvido segundo a Metodologia de
Pesquisa de Campo.
Compuseram a amostra, 30 crianças de 7 anos de idade,
cursando a 1a série do Ensino Fundamental de duas escolas da Rede Particular de
Ensino da cidade de Presidente Prudente (SP). São crianças que estão em processo
de alfabetização e o currículo vigente contém uma disciplina denominada Educação
Artística, além de outras.
Participaram também, duas professoras com idade de 41 e 30
anos que ministram a disciplina de Educação Artística duas instituições da Rede
Particular de ensino, da cidade de Presidente Prudente, São Paulo.
3 PROCEDIMENTOS DE COLETAS E ANÁLISE DOS DADOS
O estudo obedeceu as seguintes etapas de trabalho:
1. Visita às duas instituições escolares com o objetivo de
conhecer e explicar a pesquisa bem como solicitar autorização para a execução da
mesma;
2. Contato inicial com as professoras da sala de aula de
ambas escolas da 1a série do ensino fundamental, visando explicar o trabalho a
ser desenvolvido, conhecer o currículo escolar vigente e aplicar um questionário
contendo questões relativas à metodologia empregada pelos professores, em sala
de aula e, perguntas específicas às produções artísticas gráficas das crianças;
Os critérios de analise das atividades 3 – 4 e 5 foram:
Figura humana: Símbolo reconhecível (Retrata as diferentes
partes do corpo (cabeça, corpo, braços, pernas e algumas características
particulares); a roupa é freqüentemente desenhada em lugar do corpo; Corpo com
simetria.
Espaço: Ordem definida nas relações espaciais (linha de base
– indicação de que a criança se apercebeu das relações existentes entre ela
própria e seu meio).
Cor: Estabelecimento de uma cor definida para um objeto. Sua
constante repetição é o reflexo direto do contínuo
3. Solicitação às professoras para que os alunos executassem
atividades artísticas gráficas.
4. Desenvolvimento de uma atividade em sala de aula mediante
a solicitação de um desenho a partir de uma história infantil gravada em fita
cassete, cujo tema foi “O Leão Cantor” (Autor desconhecido).
5. Proposta de execução de uma atividade de técnica mista:
colagem, desenho e pintura, com figuras geométricas recortadas cujo tema central
será: “Crianças brincando no parque”. progresso dos processos intelectuais da
criança. A cor está ligada à emoção da criança.
A. Todos os dados coletados foram analisados de forma
qualitativa. As atividades artísticas gráficas foram analisadas segundo Lowenfeld
e Brittain (1970), Lowenfeld (1977) e Arnold Gesell (1995).
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Neste trabalho, analisaram-se as respostas das entrevistas
feitas com as professoras das duas escolas pesquisadas, na expectativa de se
atribuir maior valor ao programa artístico, de modo que, proporcionasse
experiência significativa nas artes, com ampla oportunidade para que as crianças
expressem suas relações próprias com o meio circundante, propiciando uma evasão
artística para seus pensamentos, seus sentimentos e suas percepções.
Ao definir a disciplina Arte (Educação Artística) ambas as
professoras colocaram que “é uma disciplina de um valioso recurso de reflexão,
compreensão e exercício da cidadania e, caminho a ser percorrido para o pensar e
o agir, como descoberta de regras de vida”. Como as professoras citadas
trabalharam com crianças de 7 anos esqueceram de colocar que para as crianças, a
Arte constitui, primordialmente, um meio de expressão, pois elas colocam em suas
atividades artísticas parte de si próprias: como pensam, como sentem e como
vêem.
Observou-se que as duas professoras incluíram o ensino das
cores no conteúdo. A criança da 1a série não tem condição de abstração. É
pretensioso querer ensinar a teoria das cores nesta fase. A criança, nesta faixa
etária esta descobrindo a relação cor/objeto e, isso acontece naturalmente. Na
metodologia, tanto a Professora 1 como a Professora 2, repetiram temas do
conteúdo, não colocando a maneira de como a maneira de como trabalhar o conteúdo
com as crianças.
No que se refere aos planejamentos, observamos serem os
objetivos geral e específico muito confusos, abrangentes e que só seriam
atingidos ao longe de todo um curso fundamental;
Os conteúdos foram colocados sem seqüência e não estão
adequados segundo a evolução psicológica da criança que é a parte mais
importante do processo educativo. Nesta faixa etária ela está descobrindo as
cores reais do objeto que representa. Também, é muito confuso para a criança
falar em apreciação musical. Nesta fase, ela gosta de cantar qualquer música que
traduzam as suas emoções.
Quanto ao Desenvolvimento Metodológico, a forma como a
professora trabalha os conteúdos com as crianças: propondo as atividades com
clareza, colocando os materiais à disposição dos alunos e criando ambiente
favorável para que os mesmos se expressem naturalmente, orientando se necessário
for sempre que solicitado, orientando novos caminhos, diferentes posições,
mudanças de direções, formas originais, apelando para o rico imaginário da
criança e seu ritmo de produção.
Com relação à avaliação não foi definido um critério para a
mesma, nem valores.
Em relação à produção das crianças, apresentamos, as seguir,
alguns desenhos selecionados entre os tantos realizados pelas crianças.
Quanto às atividades gráficas, dentre os Temas sugeridos
pelas professoras, as crianças desenharam “Meu Corpo”.
A produção artística dessa criança corresponde à faixa etária
que se encontra. A figura humana representada é um símbolo reconhecível,
retratando diferentes partes do corpo e algumas características particulares.
Apresenta ainda, organização nas relações espaciais sem traçar a linha de base,
mas aproveitando a borda do papel. Empregou a cor de acordo com a natureza do
objeto.
As produções artísticas dessa criança apresentam organização
espacial; representa a figura completa; utiliza corretamente as cores, de acordo
com a natureza do objeto.
No que se refere à solicitação de um desenho, a partir de uma
história infantil “O leão cantor”, neste desenho, observamos uma excelente organização espacial,
já definiu esquemas de representação e também utiliza a cor corretamente.
Desenhou poucos personagens do circo, porém atingiu o objetivo. É uma criança
muito criativa.
Na atividade de técnica mista, colagem, desenho e pintura,
esta criança mostra uma produção bem alegre.
O espaço está organizado e utiliza a cor corretamente.
Desenha as pessoas de forma diferente porque ainda está pesquisando como
representar a figura humana, apesar dela estar completa.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Como pudemos observar, as crianças de 7 anos, nesta amostra
conseguiram desenhar a figura humana, mostraram símbolos reconhecíveis ao
desenharem as partes do corpo humano; a internalização das partes demonstra a
capacidade de a criança representar o esquema corporal completo, em formas
geométricas. A criança mantém ordem definida nas relações espaciais; percebe que
seus pés ficam no chão. É o primeiro conhecimento consciente de que ela faz
parte de seu meio.
A criança naturalmente descobre que existe afinidade entre
cor e objeto; não existe uma relação emocional que determina qual a cor que
seleciona para os objetos de sua pintura. Para ela, a arte é um meio de
expressão pessoal; não se apercebendo da beleza que faz, nem tem pretensão de
enfeitar espontaneamente o objeto.
Um dos atributos mais importantes do traço é o ritmo; esse
aparece muito nos desenhos infantis, em suas repetições de forma, a qual é feita
inconscientemente.
Concordamos com Read quando ele declara que a educação
através da arte significa uma educação que tem a arte como uma das suas
principais aliadas, que permita uma maior sensibilidade para o mundo ao nosso
redor. Segundo ele, a educação tem por objetivo desenvolver, juntamente com a
singularidade, a consciência social do indivíduo. Comenta ainda que a função
mais importante da educação é a educação da sensibilidade estética.
A arte pode contribuir imensamente para o desenvolvimento da
criança, seja nos primeiros anos de vida, seja na idade escolar. O importante é
que os professores esteja abertos à mudanças, no sentido de aprofundarem mais
seus conhecimentos na psicologia do desenvolvimento infantil e se permitirem
ensinar arte às crianças. Somente assim a criança poderá exprimir o seu mundo
através da arte.
6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BESSA, M. Artes Plásticas entre as Crianças. Rio de
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LOWENFELD, V. & BRITTAIN, W.L. Desenvolvimento da
capacidade criadora. São Paulo: Mestre Jou, 1977.
LOWENFELD, V. A criança e sua arte. São Paulo:
Mestre Jou, 1977.
OSBORNE, E. Compreendendo seu filho de 7 anos. Rio de
Janeiro: Imago, 1993.
READ, H. A educação pela arte. São Paulo: Martins
Fontes, 2001.
SANS, P.T.C. A criança e o Artista. 2ed.
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SÃO PAULO. Secretaria da Educação. Coordenadoria de Estudos e
Normas Pedagógicas.
Proposta Curricular para o ensino de educação artística: 10 grau.
São Paulo: SE/CENP, 1992.
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