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Anais do V Congresso
Nacional de Arte-Educação na Escola para Todos - MEC
V Congresso Nacional de Arte-Educação na Escola para Todos
VI Festival Nacional de Arte sem Barreiras
Ministério da Educação
Secretaria de Educação Especial
Conferências
Ana
Mae T. Barbosa,
Pierre
Weil,
João de Jesus Paes Loureiro.
Mesa Redonda
Maria Heloisa Corrêa de Toledo Ferraz,
Lucia Gouvêa Pimentel,
Amanda Pinto
da Fonseca Tojal,
Fernando Antônio Gonçalves de Azevedo,
Alice Fátima Martins,
Virgínia Vendramini,
Wellington José Chagas Torres Júnior,
Arnaldo
Augusto Godoy,
Alcione Araújo,
Geraldinho
Vieira,
Franciscus
van der Poel Ofm,
Cássia Frade,
Laís Aderne,
Roberta Puccetti Polizio Bueno.
Painel
Verônica Camisão,
Louise Ritzel.
Sala de Convivência Solazer
Marta Graciela Pereyra Rossiello,
Alexandre
Santiago.
Conclusão
Versão
completa em pdf
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CONFERÊNCIA
ARTE NA EDUCAÇÃO PARA TODOS
Ana Mae Barbosa
O Movimento de Arte para a Recuperação Social vem
demonstrando a necessidade da Arte para todos os seres humanos, por mais
desumanas que tenham sido as condições que a vida impôs a alguém.
Basta que o cérebro funcione , basta não estar em estado de
coma para ser possível estabelecer alguma ligação com a Arte ou através dela.
Das ONGs que trabalham com os excluídos , esquecidos ou
desprivilegiados da sociedade, todas as que vêm obtendo sucesso têm trabalhado
com Arte e até estão ensinando às escolas a lição da Arte como caminho para
recuperar o que é humano no ser humano.
O ensino/aprendizagem da Arte é obrigatório pela LDB na
escola fundamental e no ensino médio. Contudo, algumas escolas estão incluindo a
Arte apenas numa das séries de cada um desses níveis porque a LDB não explicitou
que seu ensino é obrigatório em todas as séries. Daí a necessidade de
esclarecimento, e até mesmo campanha, em favor da Arte na Escola.
Nem a mera obrigatoriedade nem o reconhecimento de
necessidade são suficientes para garantir a existência da Arte no currículo para
todas as crianças. Tão pouco é garantida uma experiência estética que torne os
estudantes aptos para entender o mundo visual que os cerca , isto é, a imagem,
definidora da condição pós-moderna contemporânea.
Somente a ação inteligente e empática do professor pode
tornar a Arte ingrediente essencial para favorecer o crescimento individual e o
comportamento de cidadão como fruidor de cultura e conhecedor da construção de
sua própria nação.
Todo brasileiro e brasileira tem garantido pela Constituição
o direito de através da Arte contemplar sua própria Cultura e a dos outros,
qualquer que seja o seu nível intelectual e/ou a diferença física, mental ou
social que ameaça separá-lo /a dos outros que constituem a maioria .
Portanto, os poderes públicos, além de reservarem um lugar
para a Arte no currículo e se preocuparem em como a arte é ensinada, precisam
propiciar meios para que os professores desenvolvam a capacidade de compreender,
conceber e fruir Arte. Sem a experiência do prazer da Arte, por parte de
professores e alunos, nenhuma teoria de Arte/Educação será reconstrutora .
Em minha experiência tenho visto que as artes visuais ainda
estão sendo ensinadas como desenho geométrico, seguindo a tradição positivista,
ou continuam a serem utilizadas principalmente na comemoração de festas, na
produção de presentes muitas vezes estereotipados para os dias das mães ou dos
pais . Nos Hospitais ainda a maioria dos terapeutas ocupacionais dão modelos
para os doentes copiarem sob a alegação de que são incapazes de criar.
A chamada livre-expressão, praticada por um professor
realmente expressionista ainda é uma alternativa melhor que as anteriores, mas
sabemos que o espontaneismo apenas não basta, pois de um lado o mundo de hoje, e
a Arte de hoje exigem um leitor informado e um produtor consciente e de outro
lado sabemos que a construção da subjetividade clama não apenas pela expressão
da interioridade mas também pela expansão dos limites desta interioridade em
diálogo com o mundo que nos cerca.
A falta de uma preparação de pessoal para entender Arte antes
de ensiná-la é um problema crucial, nos levando muitas vezes a confundir
improvisação com criatividade. Embora já exista boa produção teórica e um grande
número de pesquisas nas Universidades(mais de 200 teses) é necessário ampliar o
número de cursos de Pós- Graduação. Hoje existem apenas dois com linhas
específicas em Arte/ Educação, o da Universidade de São Paulo, ligado ao
Programa de Artes Plásticas e o da Universidade Federal do Rio Grande do Sul no
Programa de Educação. São apenas dois cursos específicos de Arte /Educação(há
mais 2 em organização na Universidade Federal de Minas Gerais e a de Goiânia
)para atender a demanda de 108 Licenciaturas no país .Por outro lado, falta
estímulo para que os professores de sala de aula e de educação informal busquem
cursos de aperfeiçoamento e de especialização mais aprofundados que os cursos de
curta duração que quase sempre apenas treinam para receitas de ensinar , agora,
receitas de aplicar os PCNs que tem até cartilhA (os PCNs em Ação).
A falta de um aprofundamento dos professores de educação
infantil, de educação especial ,de ensino fundamental , de ensino médio e de
ensino superior pode retardar a Nova Arte/Educação em sua missão de favorecer o
conhecimento nas e sobre Artes Visuais, organizado de forma a relacionar
produção artística com apreciação estética, informação histórica e
contextualização . Nas Artes Visuais, estar apto a produzir uma imagem e ser
capaz de ler uma imagem são duas habilidades interrelacionadas , o
desenvolvimento de uma ajudando no desenvolvimento da outra( Analice D. Pillar e
Denise Vieira, 1990)
Esta integração corresponde à epistemologia da Arte, aos
modos como se lida com Arte e/ou se aprende Arte. (transparência de Johann
Hauser , paciente de Leo Navratil, Gugging Hospital , Viena, relendo Arnulf
Rainer, 1966 ) ( slides do trabalho de Oliver Saks), A trajetória conceitual das
relações entre o fazer e o ver fundando novas metodologias e práticas nortea a
busca de resolução de problemas da Arte/Educação nos dias de hoje.
Vejamos em que sentido mudou a Arte /Educação:
1. Maior compromisso com a cultura e com a história. Até os
inícios dos anos 80 o compromisso da Arte na Escola era apenas com o
desenvolvimento da expressão pessoal do aluno. Hoje, à livreexpressão, a Arte
/Educação acrescenta a livre- interpretação da obra de Arte como objetivo do
ensino. O slogan modernista de que todos somos artistas era utópico e foi
substituído pela idéia de que todos podemos compreender e usufruir da Arte
2. Ênfase na interrelação entre o fazer, a leitura da obra de
Arte (apreciação interpretativa) e a contextualização histórica, social,
antropológica e /ou estética da obra. Para isto se baseiam os arte educadores na
construção do conhecimento em Arte, que se dá segundo pesquisadores( Elliot
Eisner,99 Brent Wilson ,99) na interseção da experimentação , decodificação e
informação.
Só um saber consciente e informado torna possível a
aprendizagem em arte.
3. Não mais se pretende desenvolver apenas a sensibilidade
dos alunos através da Arte, mas também se aspira influir positivamente no
desenvolvimento cultural dos estudantes através do ensino/ aprendizagem da Arte.
Não podemos entender a Cultura de um pais sem conhecer sua Arte. A Arte como uma
linguagem aguçadora dos sentidos transmite significados que não podem ser
transmitidos através de nenhum outro tipo de linguagem, tais como a discursiva e
a científica. Dentre as artes, as visuais, tendo a imagem como matéria-prima,
tornam possível a visualização de quem somos, onde estamos e como sentimos.
Relembrando Fanon, eu diria que a arte capacita um homem ou
uma mulher a não ser um estranho em seu meio ambiente nem estrangeiro no seu
próprio país. Ela supera o estado de despersonalização, inserindo o indivíduo no
lugar ao qual pertence, reforçando e ampliando seus lugares no mundo
A Arte na Educação como expressão pessoal e como cultura é um
importante instrumento para a identificação cultural e o desenvolvimento
individual. Através da Arte é possível desenvolver a percepção e a imaginação,
apreender a realidade do meio ambiente, desenvolver a capacidade crítica,
permitindo analisar a realidade percebida e desenvolver a criatividade de
maneira a mudar a realidade que foi analisada
4. O conceito de criatividade também se ampliou . Pretende-se
não só desenvolver a criatividade através do fazer Arte mas também através das
leituras e interpretações das obras de Arte . Para o Modernismo, dos fatores
envolvidos na criatividade o de máximo valor era a originalidade. Hoje a
elaboração e a flexibilidade são extremamente valorizados. Desconstruir para
reconstruir, selecionar, reelaborar, partir do conhecido e modificá-lo de acordo
com o contexto e a necessidade são processos criadores, desenvolvidos pelo fazer
e ver Arte, fundamentais para a sobrevivência no mundo cotidiano.
5. A necessidade de Alfabetização Visual vem confirmando a
importância do papel da Arte na Escola. A leitura do discurso Visual , que não
se resume só a uma análise de forma, cor ,linha, volume, equilíbrio , movimento,
ritmo, mas principalmente é centrada na significação que estes atributos em
diferentes contextos conferem à imagem é um imperativo da contemporâneidade . Os
modos de recepção da obra de Arte e da imagem ao ampliarem o significado da
própria obra ampliama subjetividade do interprete.
Não se trata mais de perguntar o que o artista quis dizer em
uma obra mas o que a obra nos diz, aqui e agora em nosso contexto e o que disse
em outros contextos históricos a outros leitores.
Em nossa vida diária, estamos rodeados por imagens veiculadas
pela mídia, vendendo produtos, idéias, conceitos, comportamentos, slogans
políticos etc. Como resultado de nossa incapacidade de ler essas imagens, nós
aprendemos por meio delas inconscientemente.
A leitura das imagens fixas e móveis da publicidade e da Arte
na Escola nos torna conscientes acerca daquilo que aprendemos através da imagem.
Por outro lado, na Escola, a leitura da obra de Arte prepara o grande público
para a recepção de obras de Arte e nesse sentido Arte/ Educação é também
mediação entre Arte e Público.
6. O compromisso com a diversidade cultural é enfatizado pela
Arte/Educação Pós-moderna . Não mais somente os códigos Europeus e Norte
Americanos Brancos, porém mais atenção à diversidade de códigos em função de
raças, etnias, gênero, classe social , diferenças físicas e mentais.
Para definir diversidade cultural, nós temos que navegar
através de uma complexa rede de termos. Alguns falam sobre multiculturalismo,
outros sobre pluriculturalidade (PCN), e temos ainda o termo a meu ver mais
apropriado - Interculturalidade. Enquanto os termos “Multicultural” e
“Pluricultural” significam a coexistência e mútuo entendimento de diferentes
culturas na mesma sociedade, o termo “Intercultural” significa a interação entre
as diferentes culturas. Isto deveria ser o objetivo da Arte/Educação interessada
no desenvolvimento cultural.
Para alcançar tal objetivo, é necessário que a Escola forneça
um conhecimento sobre a cultura local, a cultura de vários grupos que
caracterizam a nação e a cultura de outras nações.
Além disto a Escola Multiculturalista é INCLUSIVA. A
aceitação sem barreiras de crianças e adolescentes na Escola comum que
apresentem diferenças físicas e mentais beneficia a maioria , flexibilizando-a e
possibilita à minoria diferente, potencializar as suas capacidades positivas.
Entretanto pesquisas têm mostrado que a inclusão é mais
facilitada no sistema profissional que no sistema escolar. Educar para o
reconhecimento respeitoso da diferença física e/ou mental é tarefa do professor
multiculturalista .
O multiculturalismo é uma enorme responsabilidade sobre os
ombros dos professores. Com classes de 40 alunos dificilmente se faz uma boa
educação comum , muito menos uma educação inclusiva.
No jornal O Estado de São Paulo de 1 de outubro de 2000 um
aluno de Escola Pública assim avalia a Educação: “o ensino é ruim, porque,
antigamente as professoras ia em cada carteira espricar como se fais a lição e
também as professora manda os aluno suletrar” (sic).
Enfim, com tantos alunos na classe não há possibilidade de
atenção individual aos alunos , temos a soletração no lugar da alfabetização.
Os comentários acerca do péssimo português na frase deste
aluno foram muitos. Não houve na reportagem nenhum comentário acerca de sua
aguda capacidade crítica. Até o ex reitor da UNB, do tempo da ditadura, José
Carlos Azevedo, deu sua opinião na citada reportagem, dizendo que os estudantes
têm hoje “incapacidade de se expressarem de modo compreensível”. Ora a atitude
deste senhor foi durante a ditadura exatamente impedir a EXPRESSÃO.
Para que expressão e competência vernacular se integrem é
preciso liberdade, diálogo constante e uma educação com possibilidades de
construção coletiva dos saberes que dê também atenção às necessidades
individuais de cada aluno.
Ora, nossas escolas estão excluindo os alunos com
dificuldades de aprendizagem porque as professoras não têm tempo para eles.
Que dizer daqueles com deficiências evidentes. Acabam sendo
aceitos nas Escolas comuns e acabam sendo entregues à própria sorte “talvez mais
segregado e excluído na turma do ensino regular do que se estivesse em classes
especiais ou escolas especiais” (Rosita Edler Carvalho,2000) Por isto é
necessário cautela para não jogar a água do banho com o bebê dentro. Precisamos
melhorar, aparelhar e expandir nosso sistema de Educação Especial , atualizando
e formando os professores da área publica e privada , como as APAEs , enquanto
não tivermos assegurado uma eficiente educação inclusiva. Por outro lado sempre
haverá necessidade das Escolas Especiais para reforçar a educação dos mais além
da norma que, embora freqüentando a Escola Inclusiva ideal , precisarão estender
as experiências para garantir uma funcionalidade no mundo.
Rosita Edler Carvalho denuncia em seu livro
Removendo barreiras para a aprendizagem: educação
inclusiva um fenômeno absurdo, a
expansão das classes Especiais para atender a demanda de alunos que não
deficientes, tem dificuldades graves de aprendizagem.
O sistema é que é deficiente e necessita de outras saídas.
Vou mostrar o caso de um aluno de 14 anos que no tempo em que
se reprovava no Ensino Básico passou 7 anos na 1a série , sem aprender a ler e
estava sendo encaminhado para uma classe especial no Estado de São Paulo.
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O REENCONTRO DO MASCULINO E DO FEMININO NA ARTE DE EDUCAR
Pierre weil
A existência de bipolaridade masculina e feminina no homem
como na mulher se tornou um fator consumado, depois da descoberta de Freud da
bissexualidade, por Jung dos Animus e Anima e dos trabalhos pioneiros de Paule
Salomon. Há uma necessidade de sairmos do desequilíbrio atual causado por
milênios de predomínio absoluto do masculino, seguido pela explosão feminista e
suas repercussões benéficas e destrutivas e de desenhar os contornos de uma
educação desta polaridade no homem e na mulher.
Para isto teremos de ser bastante lúcidos quanto às
finalidades que temos que ter em mente para esta educação . Isto nos forçará á
aprofundar o assunto sob vários ângulos.
FINALIDADES DA EDUCAÇÃO DA BIPOLARIDADE MF
Há ao nosso ver quatro aspetos importantes à considerar
preliminarmente à elaboração de metodologias educacionais:
1. A ignorância do princípio MF e da sua importância, pela
maioria das pessoas;
2. A perspectiva evolutiva de cada um dos fatores;
3. A existência de uma variabilidade de proporções MF tanto
no homem como na mulher;
4. A necessidade de uma tomada de posição quanto à orientação
a dar no que se refere a relação entre as proporções MF no homem e na mulher.
Vamos enunciar quatro princípios a respeito destas quatro
questões. Destas poderemos extrair quatro princípios ou finalidades para a
educação bipolar.
Primeiro princípio educacional: A primeira fase de uma
educação do princípio MF começa necessariamente por uma tomada de consciência
pelo educando da existência nele mesmo desta polaridade e de alerta quanto a sua
importância em quase todos os grandes domínios da nossa existência.
Segundo princípio educacional: Os métodos de educação
terão de levar em consideração o estado evolutivo dos princípios masculino e
feminino no educando, qualquer que seja a sua idade, o que implica num
conhecimento não somente do sentido desta evolução, mas ainda das fases pelas
quais passam as pessoas no caminho desta evolução, permanecendo consciente e
alerta em relação às pressões e influências regressivas provocadas por consensos
ainda em vigor das normoses machista e feminista mesmo se em decadência.
Terceiro princípio educacional. Uma das funções
principais da Educação no que se refere a bipolaridade MF é de tornar o educando
consciente da presença destes princípios nele mesmo, estejam eles em formação
nas crianças, ou em estagnação ou evolução no adulto. Esta tomada de consciência
abrange a descoberta pelo educando da proporcionalidade existente nele assim
como da influência nas suas relações de amizade e de casal, assim como de
numerosos outros aspetos como a escolha da profissão, dos jogos, divertimentos e
das suas atitudes em diferentes situações.
Quarto princípio educacional. A ação educacional deverá ter
duas direções: Uma no sentido de despertar o princípio feminino nos adultos nos
quais se encontra reprimido. O outro no sentido de fazer chegar as crianças, aos
adolescentes e aos jovens o máximo de equilíbrio possível do fator MF,
respeitadas as limitações do seu sexo ou outras condições imprevisíveis em
função dos nossos conhecimentos atuais na matéria.
Os quatro princípios que acabamos de expor vão agora nos
orientar no que se refere aos métodos pedagógicos que podem ser aplicados na
prática educacional.
MÉTODOS EDUCACIONAIS NO REENCONTRO DA
MASCULINIDADE E FEMINIDADE
No caso dos adultos podemos nos inspirar da experiência
psicoterápica, adquirida ao longo dos tempos, da existência de formações de
funções especificamente femininas ou masculinas, mas que não tiveram este
objetivo específico, assim como das experiências mais recentes de reequilibração
MF. Vamos também tecer comentários sobre decorrências educacionais da evolução
da própria sociedade inclusive da mudança de sentido diante da dissolução
progressiva de paradigmas ultrapassados.
No caso da educação infantil e de adolescentes, iremos nos
inspirar de costumes da educação familiar a este respeito, assim como fazer um
esboço de censo das matérias escolares que eventualmente estimulam um ou outro
princípio MF.
A EDUCAÇÃO DE ADULTOS
Vamos, pois começar pela educação de adultos. Para isto vamos
seguir os quatro princípios e indicar o que se faz ou se poderia fazer em
matéria de metodologia educacional.
Na minha experiência, para informar ao público da existência
do fator MF, palestras com o uso do psicodrama do Tão surtem um grande efeito.
Mesmo sem psicodrama, simples palestras em que se informa da existência da
masculinidade e da feminidade em cada ser humano, além de ter um efeito
surpresa, provocam nas pessoas a necessidade de se posicionar e descobrir neles
estes dois fatores. É o momento de aprofundar a questão dando as linhas gerais
do que se entende por caracteres masculino e feminino. Basta mostrar que o
masculino é expressado por características ativas, dinâmicas, empreendedoras, de
liderança, combatividade, racionalidade e objetividade. O feminino se expressa
por características de abertura, receptivas, amorosas, ternas, amigas,
sensíveis, compreensivas, intuitivas, subjetivas e sentimentais. Alguns
comentários com o símbolo do Tão ajudam bastante a demonstrar o caráter
complementar de cada um dos componentes. Treinamentos complementares podem ser
dados com o método de casos, ou com psicodrama visando reconhecer o masculino e
o feminino em qualquer situação da vida. É o que costumamos fazer num dos nossos
seminários do conjunto “Viver a Vida”e que se intitula “Arte de Viver em
Plenitude”. Neste seminário pedimos a um casal para representar o seu primeiro
encontro. De vez em quando interrompemos para apontar em cada um, em que nível
energético de troca se encontra e que princípio MF está em jogo. Notei que esta
colheita de dados nos mostra qual a qualidade da relação do casal durante toda a
sua existência.
No Seminário seguinte, destinado a casais ou pares de amigos,
mostramos diferentes tipos de casais, indo do casal ocasional ao casal
plenamente desperto em nível transpessoal. Sensibilizamos o grupo a
possibilidade de transformar um par ou casal numa relação evolutiva, o que
implica também a evolução do fator MF. Este seminário, intitulado “A Arte de
Viver em Harmonia”, atende ao Segundo Princípio, o Evolutivo, pois introduz o
conceito de Relação Evolutiva e mostra como se pode estabelecer esta relação, em
que se convenciona aproveitar o relacionamento do matrimônio para uma ajuda
recíproca para evoluir.
No que se refere ao segundo princípio, o evolutivo,
costumamos sensibilizar as pessoas à existência de dois extremos, um involuído e
destrutivo e o outro evoluído e altamente construtivo. Aevolução consiste em
passar de um ao outro. Enumeramos algumas das características: para o feminino,
a bruxa, a maledicente, a conspiradora de um lado e, do outro lado, a amorosa, a
santa, a Mona Lisa, a Grande Mãe, a inspiradora; para o masculino, o Barba Azul,
o tirano, o violento, o macho de um lado e, do outro lado, o Sábio, o Iluminado,
o Mestre, o Herói, o Cavalheiro. A simples tomada de consciência da existência
destas características e da possibilidade de evoluir de uma a outra já tem, por
si só, um efeito educacional importante. Pois é muito importante tomar contato e
reconhecer humildemente a presença destas sombras em nós. Reforçamos esse
esforço neste seminário, convidando os participantes para um autodiagnóstico do
estado evolutivo dos sete centros energéticos em que cada qual se encontra e de
como cada um se comporta, isto é, se de maneira masculina ou feminina.
O método de Paule Salomon, permite ir muito mais a fundo
neste sentido, pois integra nele as relações com os pais e sua influência na
evolução de cada um. É sem dúvida um aperfeiçoamento notável da terapia jungiana,
e me parece exigir do educador uma sólida formação terapêutica. Isto
evidentemente é o caso de Paule Salomon, que criou no Sul da França um Centro do
Despertar onde realiza seminários de cinco dias cada um, para “Relação de
Casais”. Um outro seminário intitulado “A Mulher Solar”, é dirigido
exclusivamente para mulheres, e outro ainda, exclusivamente para homens,
intitulado “O Homem Lunar”.
Um casal de educadores de Findhorn, May East e Craig Gibson,
também tem uma linha evolutiva e realiza seminários comuns, para homens e
mulheres, e separados, exclusivamente para homens ou para mulheres. O seu
enfoque permite uma evolução partindo das funções sexuais primitivas no homem e
na mulher, para uma sacralização destas. Conseguem isto através de dinâmicas
interpessoais, massagens, uso de instrumentos musicais, reconstituição da
história cultural e individual do ventre feminino e do pênis masculino.
O que há de comum nas três metodologias aqui citadas é a
finalidade transpessoal da evolução.
A descoberta da existência de uma proporcionalidade entre o
masculino e o feminino, precisa ser comunicada aos educandos antes de eles
fazerem uma avaliação pessoal. No psicodrama do Tão, depois de uma simples
explanação das categorias existentes, pedimos a cada participante para se
auto-avaliar.
Na nossa experiência, a simples tomada de consciência parece
o equivalente de um desencadeador de transformação e possue um valor educacional
imenso. Esta tomada de consciência pode se fazer simplesmente, durante o
Psicodrama do Tão, observando qual dos parceiros do casal toma a iniciativa do
diálogo.
O efeito desta tomada de consciência pode ser reforçado pela
aquisição de novos hábitos próprios ao principio MF que se quer desenvolver.
Neste sentido a história do boné basco é bastante ilustrativa. Se a inclinação
do boné para a direita na cabeça indicar a necessidade de tirar o excesso de
masculinidade, o homem irá procurar um mestre de feminilidade o qual o orientará
para a prática de atividades culinárias ou de cuidados de enfermagem. Se pelo
contrário ele tiver excesso de feminilidade, ele procurará um mestre de
masculinidade que vai o encaminhar, para que esta derivação seja reparada, para
o exercício de atividades bem masculinas como a de carpinteiro ou ferreiro. Eis
uma sugestão bastante interessante para os futuros educadores do princípio MF!
De qualquer forma, como já mostramos, esta história reforça a
posição de que existe um ideal de proporção MF, o da sua emparelhagem.
Enquanto esta for o caso de apenas uma parte da população de
cada sexo, teremos inúmeras combinações de proporções MF entre os dois sexos.
Isto nos introduz ao quarto princípio que indica a necessária
conscientização, para boas relações interpessoais mais particularmente de
casais, mas também de amigos, colegas de trabalho ou pais e filhos, da sua
proporção MF e da sua ação recíproca. Em outras palavras se torna evidente, para
quem toma conhecimento da interação do masculino e do feminino entre os casais,
que esta se torna o fator essencial para o bom ou mau entendimento entre eles.
O Psicodrama do Tão permite uma abordagem direta desta
interação entre casais. Cada um dos pares tem um fantoche masculino na sua mão
direita e um fantoche feminino na sua mão esquerda.
Costumamos estimular diálogos a respeito de evento do passado
tal como um conflito específico, o que constitui um excelente treino para
reconhecer os fatores MF de desavença. Notei que o maior motivo se dá entre o
masculino de um e de outro. O reconhecimento deste fato provoca uma vontade de
resolver o caso; um tem que ceder e chamar o seu componente feminino para
reestabelecer o equilíbrio. Ou então haverá um entendimento de cavalheiros para
determinar quem vai fazer o que.
Existem mais de trinta combinações possíveis; umas com muita
chance de relação harmoniosa, outras com maior probabilidade de conflito. Por
exemplo, um homem com muita masculinidade e pouco feminilidade se dará bem com
uma mulher com muita feminilidade e pouca masculinidade.
Vice-versa, uma mulher com muita masculinidade encontrará o
seu complemento num homem com feminilidade bastante acentuada. Mulher e homem
com masculinidade acentuada são candidatos a conflitos permanentes.
Para tratar os conflitos devidos a proporções incompatíveis,
é evidentemente necessário estabelecer diálogos entre os parceiros, uma vez que
estes estivessem conscientizados das suas proporções MF. Do diálogo feito com
empatia tal como o ensinamos no nosso seminário a Arte de Viver o
Conflito, podem nascer decisões criativas entre as quais
podemos citar algumas:
·Uma mulher que por excesso de masculinidade costumava
desagradar o marido tomandodecisões que ele achava lhe caber, decidiu aprender
balê.
·um marido cuja mulher ansiosa de realizar o seu lado
masculino num emprego de contabilidade à noite, resolve fazer um curso de
puericultura, para cuidar dos filhos durante o trabalho da mulher.
Estamos aqui muito perto do sistema basco acima descrito.
Falta ainda uma catalogação mais precisa de atividades recreativas ou
profissionais que tem poder educativo masculino ou feminino.
Por enquanto, decisões pessoais resultantes de diálogos
consigo mesmo ou com os outros, ajudam bastante.
Creio que mesmo sem nenhuma educação de adultos para o
reencontro do masculino e do feminino, este se fará pela força evolutiva e por
fatores sociais de transformação. Cabe à educação apressar o processo onde isto
for possível para que a humanidade entre numa nova fase, e com isto saia da
normose machista que nos leva à um verdadeiro autosuicídio da humanidade.
E para alcançar esta finalidade é urgente a educação das
crianças e adolescentes. Pela nossa experiência, a educação dos jovens se
confunde ou se assemelha suficientemente da dos adultos; por isto não se
justifica por enquanto tratar deste assunto em separado.
Vamos, pois abordar a questão das crianças e adolescentes,
começando por uma maior reflexão sobre as condições específicas da questão e da
diferença com a educação de adultos.
EDUCAÇÃO E MANUTENÇÃO DO EQUILÍBRIO MF NA CRIANÇA E NO
ADOLESCENTE.
Sair da normose machista e preparar uma cultura do verdadeiro
encontro entre o Masculino e o Feminino em cada cidadão e cidadã, assim como o
encontro e colaboração de homens e mulheres na gestão dos organismos humanos,
eis o imenso serviço que pode prestar a Educação. Deste modo atende também ao
objetivo da Unesco de transformar a atual cultura de guerra e de violência em
cultura de Paz.
Isto significa contribuir para a dissolução da cultura
machista e evitar a perpetuação da normose machista.
Isto implica em aproveitar a situação específica da criança
na qual os princípios masculino e feminino estão em plena formação. Tudo indica
que a criança é como se fosse uma cera virgem, onde os pais podem gravar os
componentes MF graças aos processos de identificação, imitação ou rejeição pela
criança do seu próprio modo de ser MF.
É claro que muito mais ainda que os adultos, as crianças
desconhecem totalmente a existência dos fatores MF. Por isto que a aplicação dos
quatro princípios educacionais acima descritos, assumem na criança aspetos
diferentes dos adultos , como vamos o demonstrar mais adiante.
Como o anunciamos mais acima, para cada princípio vamos
procurar como o sistema educacional familiar e escolar se comporta em relação á
educação das meninas e dos meninos. Faremos alguns comentários sobre o que nos
parece viável quanto á manutenção ou mudança eventual de metodologia. A tarefa é
delicada e necessitaria de apoio em pesquisas sistematizadas. Pelo fato de
ignorarmos se existe algum sistema que cuida conscientemente da educação do MF,
teremos que nos limitar á uma mera especulação sobre o assunto. Ao contrário da
educação de adultos, a educação de crianças ainda está bastante confusa no que
se refere ao MF. No caso dos adultos já existe uma certa conceituação e
experiência no assunto; o terreno da criança é virgem e inexplorado. Falta uma
obra de fôlego do tipo das investigações de epistemologia genética de Piaget,
cujo título poderia ser:
“A Gênese dos princípios masculino e feminino na criança dos
dois sexos”.
Um estudo desta natureza permitiria jogar luz sobre a questão
dos fatores hereditários e sociais na formação dos princípios MF. Então, na
ausência deste estudo vamos nos limitar a observações empíricas e conseqüentes
considerações especulativas. Mas de qualquer jeito iremos tecer algumas
considerações sobre a influência da proporção MF dos adultos educadores, sobre a
educação da criança.
No que se refere ao primeiro princípio, o da ignorância da
bipolaridade e da sua importância, é uma preocupação que temos que ter com os
educadores antes de tudo. Uma vez os educadores instruídos a respeito da sua
própria polaridade, poderá se pensar na sua ação pedagógica. Convém esta começar
por introduzir esta distinção num nível em que os componentes ainda estão se
formando?
É isto possível? De qualquer forma, mesmo se desejável,
teríamos de esperar a formação do reconhecimento da identidade MF. “Eu sou um
menino”, ”eu sou uma menina”, são afirmações de identidade sexual que precisam
estar presentes antes de se reconhecer a existência do MF. Como é que MF está se
formando? Observando os brinquedos de um e outro sexo, é evidente que os
brinquedos femininos são as bonecas com as suas roupas e mamadeira, as casinhas
para arrumar e as cozinhas para fazer de conta de preparar os alimentos; podemos
acrescentar a isto cordas de pular e pequenos teares de tecer e bolas de Volley.
Os brinquedos masculinos são metralhadoras, revólveres, soldados de plástico ou
de chumbo, trens elétricos, roupas de marciano ou de ET, jogos de construção, de
mecânica e a inevitável bola de futebol. Existem também jogos neutros, jogados
pelos dois sexos junto as tais como o lego- lego, damas, jogos de ganso,
Talvez possa se pensar numa intervenção informativa junto as
crianças que espontaneamente estão brincando com jogos do sexo oposto. Isto
acontece com meninas que jogam futebol com os rapazes ou meninos que brincam de
boneca e de comidinha com as meninas. Neste momento pode se incentivar uma
conscientização sem porem contrariar este pendor espontâneo.
Mas será conveniente incentivar esta mistura sem correr o
risco, nesta idade, de incentivar a homossexualidade? E até que ponto temos o
direito de provocar uma conscientização em caso de participação espontânea nos
jogos de sexo oposto, entre os quais se manifestam inversões sexuais precoces?
Estamos aqui numa região fronteiriça entre normalidade e patologia, entre
educação e terapia. A distinção é difícil de fazer. Eis um exemplo típico tirado
de um dos nossos seminários. Uma mulher, separada do marido cujo componente MF
era tipicamente feminino, descobre o componente masculino predominante nela. Ela
nos conta que nunca brincou de boneca e que gostava de andar de bicicleta e
jogar futebol com os colegas de turma. Perdeu o pai cedo e assumiu o seu lugar;
ela reconhece que tem mais as característica do pai do que da mãe que ela
considera confusa e fraca. É evidente que a sua masculinidade provem da
identificação com o pai. Teria adiantado quando ela tinha uns cinco seis anos,
convidá-la a brincar de boneca para despertar a sua feminidade?
Na idade escolar, temos dois casos bem diferentes: separação
dos sexos ou coeducação. A separação dos sexos parece um caso marginal reservado
para certos colégios religiosos católicos. A coeducação dos dois sexos é
considerada hoje um fator favorável à educação. Por isto vamos apenas tratar da
questão MF com coeducação.
Existem matérias mais masculinas como as matemáticas, a
história, a geografia, a lógica, e matérias tipicamente femininas como as artes,
o canto, a poesia, a literatura. É evidente que o fato de meninos e meninas
aprenderem estas matérias juntos, muito contribui para aceitar a existência do
masculino e do feminino em cada um, assim como do futuro exercício de profissões
masculinas por mulheres, mesmo se esta aceitação ainda permanece no nível
inconsciente dos automatismos e hábitos.
No que se refere ao princípio evolutivo, mesmo sem se falar
explicitamente no masculino e no feminino, os contos infantis e as peças de
teatro infantil forem ótimas oportunidades de transformação simbólica dos dois
extremos das duas polaridades MF. Para o feminino a bruxa vingativa se
transforma em fada, para o masculino o guerreiro sanguinário ou o Barba Azul
viram cavalheiros românticos defensores das viúvas e indefesos... Eis uma
maneira de semear a idéia da possibilidade de evolução.
Parece-me que o terceiro princípio, o das proporções MF em
cada sexo seja próprio aos adultos, já que estas proporções estão em plena
formação na criança e no adolescente. Tudo indica que o mesmo se passa para o
quarto princípio, o da relação entre as proporções. Possivelmente seja no nível
de jovens que se possa trabalhar esta questão e nos cursos para noivos.
Resta nos tecer algumas considerações sobre a proporção MF
nos educadores.
A POLARIDADE MF NOS EDUCADORES
Embora não tenhamos dados suficientes para comprovar
experimentalmente o que vamos afirmar, tudo indica que o melhor educador, do
ponto de vista que nos interessa aqui, será o que tem um equilíbrio MF, seja ele
homem ou mulher.
Isto é antes de tudo uma necessidade profissional. Ele ou ela
precisam de planejamento, iniciativa e autoridade propriamente masculinos, mas é
também indispensável a criatividade, a intuição, a sensibilidade a ternura
próprios ao Feminino.
Este equilíbrio é também indispensável para a interação com
toda espécie de educando. Ser firme e flexível, isto é, masculino, e feminino
para a criança rebelde masculina, ou dinâmico e incentivador da criatividade
própria para a criança extremamente passiva e dependente, isto é feminina, são
exemplos desta sintonia entre o MF do educador e do educando.
E enfim ,já vimos mais acima que tudo indica que o modelo
próprio á uma nova cultura de paz seja o do equilíbrio MF sem torna lo
obsessivamente obrigatório, ferindo a liberdade individual. Graças ao exemplo
dos educadores que serão objetos de imitação, ou em termos psicanalíticos de
introjeção, estaremos literalmente contribuindo para a construção de uma nova
geração de jovens. Estes, graças ao seu equilíbrio MF, estarão em condições de
estabelecer relações de casais harmônicas e evolutivas, assim como se adaptar às
exigências de uma grande variedade de atividades profissionais e empresariais.
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES FINAIS
Tenho consciência de que, mais uma vez na minha vida, fiz um
trabalho pioneiro de desbravamento do campo quase virgem dos aspetos
educacionais da polaridade MF. No caso dos adultos já conseguimos fazer algum
trabalho coerente. No caso das crianças e adolescentes, apenas aranhamos o
assunto
Em outras palavras falta muito para atingir os objetivos
traçados neste trabalho. Muitas colaborações, estudos e pesquisas assim como
experiências pioneiras se revelam indispensáveis. Só nos resta emitir o voto que
o presente trabalho tenha servido de desencadeador de uma nova visão no campo
educacional, incluindo nesta o seu papel de construção de uma nova cultura MF,
em que homens e mulheres terão aprendido em harmonizar a serviço de um mundo
melhor, mais em Paz e Feliz.
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BIBLIOGRAFIA DAS OBRAS CITADAS
Freud Sigmund. “Fantasias histéricas e sua relação com a
sexualidade.”.In Synopses da Standard Edition. 1979. Salamandra. Rio de Janeiro.
1908 A
Freud Sigmund. “Análise terminavel e interminável. A
bissexualidade é a mais forte resistência contra a Psicanálise.”. in Synopses da
Standard Edition. 1979. Salamandra. Rio de Janeiro. 1037 C
Jung C. G. “L’Homme et ses Symboles”. Paris. Pont Royal.
1967. Anima. P. 185-6. Animus. P. 194-5.
Salomon Paule. “La Femme Solaire”. Paris. Albin Michel. 1991.
Salomon Paule. “La Sainte Folie du Couple”. Paris. Albin
Michel. 1994.
Salomon Paule. “Les Hommes se transforment”. Paris. Albin
Michel. Paris. 1999.
Weil Pierre. “A Mudança de Sentido. O Sentido da Mudança.”
Rio de Janeiro. Rosa dos Tempos. Distribuidora Record. 2.000. Ver os capítulos
sobre a normose na p.121 e sobre o resgate do feminino na liderança do terceiro
milênio, na p.243.
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RESUMO DO CONTEÚDO DA APRESENTAÇÃO DA CONFERÊNCIA
João de Jesus Paes
Loureiro
“A Estética de uma Ética sem Barreiras
Não é nova a relação entre ética e estética. A estética, ao
provocar a emoção partilhada do estar-juntos, deixa passar a correnteza de uma
afetividade interpessoal que acaba por ter na ética um forte sentido.
Confrontam-se situações sociais contraditórias, modos diversos de vida se
conjugam, histórias pessoais convivem numa espécie de corrente vitalista cheia
de energia e plurissignificação de valores.
Pela convivialidade estética do sentir em comum, pelo
conviver na emoção, há o estimulo não só do processo criador, como de uma comum
fruição. Seja na vivência, seja na convivência com estados existenciais, a
emoção se incorpora de um sentido mesmo de criatividade. A dilatação
compartilhada desta relação carregada de sentido ético, provoca socialmente a
passagem para a emoção estética, naquilo que esta representa o prazer de
sentir-se em companhia diante de expressões da beleza. A experiência da
sensibilidade diante do artístico torna-se, ao mesmo tempo, o compartilhamento
de um vínculo e de uma libertação.
É indiscutível a relação entre a emoção estética e a
solidariedade, acentuado por M. Maffesoli, ao afirmar que “nossas faculdades
simpáticas e ativas são estreitamente ligadas e que é esta relação mesma que
especifica a vitalidade de uma época dada, e serve de fundamento a toda forma da
sociedade”.
É nesse sentido que será compreendida aqui a ligação entre o
estético e o ético. O estético terá, portanto, a capacidade de fazer emergir
“formas de simpatia” acentuando seu papel de ligação e religação social. É como
se ocorresse a produção de um sistema de conhecimento humano a partir da
sensibilidade. A acentuação da importância do outro como fator inerente a isso.
A aparência sensível remarcada, o hedonismo transformado em valor existencial, a
fascinação holística da festa, enfim, a consagração de tudo o que se traduz na
existência implicativa do outro. Uma valorização includente da presença do
outro, uma vez que estar presente é uma das condições necessárias do
experimentar juntos uma emoção estética coletiva.
Essa cultura do sentimento favorece o trajeto de uma lógica
da identidade à uma lógica da identificação, do individual para o coletivo. A
conjugação composta desses valores conduz ao que ainda Maffesoli chama de ética:
“uma moral sem obrigação nem sanção; sem obrigação outra além desta de agregar,
de ser membro de um corpo coletivo, sem sanção outra além desta de ser excluído
se cessa o interesse de me ligar ao grupo”.
Estamos falando da socialização prazerosa decorrente de um
ardoroso experimentar em comum. E do conjunto de relações daí decorrentes que
tende a estimular a sinergia entre o estético e o ético.
É de Gaston Bachelard a afirmação de que “nada é dado, tudo é
construído”. Pode-se, portanto, entender que todos os homens, portadores de
deficiência ou não, são capazes de realizar operações construtivas de
transformação da natureza em signos da cultura, além de transformar os signos da
natureza e da cultura. Todos, os homens são capazes de conhecer e fazer, isto é,
produzir representações, realistas ou abstratas, através de modos resultantes de
vários caminhos. São capazes, ainda, de se exprimir, de projetar a vida
interior, construir alegorias, penetrar nos símbolos e nos mitos.
Podem os homens (portadores de deficiência ou não), agir nos
momentos decisivos do processo artístico como conhecer, fazer, experimentar.
Podem, portanto, envolver-se com as indeterminações do jogo estético. Exercer,
como bem se lê em Nietzsche, a “vontade de ilusão”, justificando-a e produzindo
a ilusão afirmativamente. A ilusão como um valor maior que a verdade.
As belezas livres da arte, independentes de uma pura
representação do real, são frutos da fantasia ou da imaginação criadora, a
partir do que o artista inventa enquanto faz. É, portanto, uma atividade de
invenção operativa, um fazer que refaz, a invenção de uma forma de fazer
correlata ao modo de fazê-la. Uma invenção plena, um procedimento sagrado, na
medida em que “todos os procedimentos são sagrados quando interiormente
necessários”, como diz com propriedade o pintor russo e também um importante
teórico da arte, W.Kandinsky. Invenção germinada no entusiasmo de quem sente uma
energia divina dentro de si e se entrega ao virtuosismo da imaginação,
considerada pelo músico vanguardista Pierre Boulez a rainha das faculdades.
Este é um assunto apaixonante, até porque é de paixão que
essencialmente estamos falando.
Não essa paixão medida e não apaixonada das retóricas
burocráticas. Mas da paixão mesmo, desmedida como tudo o que tem grandeza,
consagradoura de nossa condição dialogal, que se realiza como construção e não
nas inércias de um conceito. Paixão que é enquanto se faz. Por isso é fruto
nascido na capacidade que temos de ouvir o outro, materializada na diversidade
que humanamente a concretiza. A paixão que deixa de ser apenas uma palavra
cativante para tornar-se a linguagem dialogal plena dos homens.
O romance da paixão através dos tempos da reflexão teórica
percorre um interessante itinerário desde seu entendimento como: dominação
irracional de um sujeito passional; força misteriosa e assustadora que irrompe
no homem e o possui; loucura divina; demônio possessivo; orgia em festa nos
sentidos; tremor sísmico da alma; grandeza desmedida de “eros”; perturbação da
vontade; instrumento de “catarses”; possibilidade dupla do bem e do mal;
efervescência do êxtase. Até ser compreendida como consagração perturbadora do
ser.
Modernamente, o sentido da paixão foi reabilitado. A busca da
felicidade passou a ser o farol ou a proa da escolha de uma paixão. Guiado pela
razão, movido pela experiência, o homem escolhe as paixões que o possam levar à
felicidade. Por isso, então, passa a ser responsável por sua escolha e pela
paixão que escolheu para ser sua guia.
Benedito Nunes lembra, ao estudar competentemente essa
questão, que o “romantismo liberaria o fundo noturno instintivo da
subjetividade, livraria o entusiasmos poético e o arrebatamento amoroso”. . .
além disso mostraria “por trás das paixões da alma como se desvendaria a alma
das paixões”. Faz-se, com base na ilusão, suporte da realidade. A paixão também
como instrumento social torna-se a instância plena de realização do ser. Não é
apenas uma atitude manifesta ou expressa.
É, muito mais, o próprio exercício dessa paixão. Nesse
sentido é que a paixão deve aqui ser entendida: uma atitude pela qual ética e
estética se entrelaçam e visam uma aplicação humana de felicidade social.
A estética de uma ética sem barreiras remete, portanto, a
esse sentido. Paixão que bem poderá ter a significação que a ela empresta
Aristóteles, ou seja, “tudo aquilo que faz variar os juízos e de que se seguem
sofrimento e prazer”. Uma paixão, escolhida, que nos obriga a uma
responsabilidade decorrente dessa escolha. Eis mais uma razão pela qual se pode
falar em estética de uma ética sem barreiras. Porque é uma paixão escolhida, uma
paixão eleita e, por isso, sustentada pela responsabilidade que está inerente a
toda escolha. Não se trata de uma ética que busque regular a estética, controlar
a paixão. A estética, sendo uma epifania das paixões na forma sensível, terá um
caminho ético para abrigar em seu campo lúdico, todos aqueles que são (por
diferentes fatores) dele excluídos.
A ética do estético, neste caso, é a escolha do estético como
procedimento inclusivo. Uma simetria socialmente operativa aplicada, por
extensão à sociedade, do que Simmel entende em sua sociologia da cultura: que a
estética e, por conseqüência, a arte, têm como princípio gerador a simetria. O
artista portador de deficiência numa transposição social desse princípio de
simetria, tendo oportunidades correspondentes às dos outros artistas, em
grandeza, forma e posição relativa. Uma harmonia na diferença.
Como ter uma arte sem paixão? A paixão na arte instiga a
desmedida. Mas a paixão social busca a simetria. E é nisto que desponta a sua
ética. Uma ética que assume a desmedida na arte em proveito da justa medida da
participação nela de todos os homens. Mesmo dos homens que trazem uma
dissimetria física ou mental. O mesmo desequilíbrio que tornou a arte possível,
pode buscar o equilíbrio que a sociedade precisa ter para a felicidade inclusiva
dos homens. Esta pode ser uma virtude do homem ético-estético. Não a virtude do
equilíbrio amorfo, infecundo e estagnante. Mas a virtude da justa medida ou
desmedida da paixão. Paixão que não reprime. Paixão que reconhece o dispositivo
ético da razão, mas que se vale da energia vitalista da fantasia. A paixão de um
grande gesto de amor pelo homem e pela humanidade.
Convém lembrar aqui ainda a reflexão de Maffesoli, inspirada
em Nietzsche referente ao estudo da identificação propiciada pela estética, isto
é, “o fato de experimentar emoções, sentimentos, paixões comuns nos mais
diversos momentos da vida social”. A condição de partilhar com os outros,
próprio da ambiência estética, capaz de provocar uma identificação emocional que
ultrapassa o confinamento tribal dos portadores de deficiência, muitas vezes na
condição de sem-teto ou semterra no campo artístico para se abrigar ou cultivar.
Na relação produtiva da arte e os portadores de deficiência
não há impedimentos seja como processo criador ou de participação como
personagem. A questão, portanto, é menos no campo da estética e mais no da
ética. Porque é uma decisão de caráter ético que permite ao grupo social
usufruir das possibilidades do estético. A estética de uma ética sem barreiras
está no sentido de refletir na sociedade a “simetria”, que é um dos fundamentos
do estético. Pois, mais uma vez, relembrando Simmel, repetimos: “No começo de
todos os motivos estéticos, há a simetria” A estética de uma ética sem barreiras
é, na verdade, a estética transposta como princípio de simetria para o campo
social. A igualdade de oportunidades, a diferença entendida como valor próprio,
a inclusão como o equilíbrio diante do desequilíbrio dissimétrico da exclusão.
Uma sociedade vista esteticamente, possibilitando que a inclusão se estenda como
simetria e garanta condições para que os excluídos tenham oportunidades sociais
de exercer o seu talento pessoal.
Uma arte sem barreiras não pode existir como apenas sonho,
refém das utopias pessoais. Precisa concretizar-se no chão das relações sociais,
no que a quebra da exclusão é um gigantesco passo.
A produção artística, ainda que pessoal é parte do processo
social e, por isso, a inclusão artística é intercorrente com a inclusão social.
Não se pode admirar a beleza do vôo sem libertar as asas de
suas penas. Somente as penas, elas não possibilitam o vôo. O vôo é função das
asas. E a asa é o ultrapensamento das penas. A asa são as penas em liberdade.
A alma, que pertence ao campo imaginal tem necessidade de
ajustar-se ao corpo que a contém e que é o seu suporte de realidade. O que se
espera é que pelo reconhecimento do próprio corpo, o portador de deficiência se
reconheça harmônico numa relação com os outros e, especialmente, numa relação
consigo mesmo. Uma harmonia no sentido de reconhecer-se e de ajustar sua
harmonia interior ao exterior, ao conjunto de pessoas que socialmente constituem
a sua alteridade. De certa maneira agir na compreensão de si, no conhecimento e
aceitação de si mesmo.
Romper a cisão, a separação entre alma e corpo, promovendo a
harmonia pessoal correlata dessa relação. Ajustar a sombra da imagem à sombra da
sombra. Não ficar fora de si no duplo reflexo. Uma aceitação integradora do
exterior com o seu interior. De certa maneira, um ajustamento próprio da
simetria estética, entre conteúdo e forma . A “coincidentia opositorum” entre o
seu interior e o exterior.
Este é um processo que a arte pode promover, uma vez que a
arte é também uma fina forma de conhecimento. A arte abre a via de um percurso
que arranca daquilo que é na busca do que deveria ser. A arte busca a perfeição
a partir de condições materiais que lhe servem de base. A arte não escolhe um
único ponto de partida e nem tem pontos de partida selecionados. A arte parte do
que é possível para alcançar o impossível possível. Parte do que é na busca do
que deveria ser.
Por conseqüência, nada indica que a arte só possa nascer
deste ou daquele corpo, desta ou daquela alma, deste ou daquele material, desta
ou daquela realidade. Tudo pode ser matéria de criação artística. O resultado
estético decorre do ajustamento de técnicas adequadas agindo sobre materiais
escolhidos, impulsionado pela paixão de criar, banhado pelo jorro da inspiração.
Se a inspiração artística é um influxo passageiro e causador de uma intuição,
ela é um gesto que pode acontecer no homem enquanto ser cultural, o que
significa ocorrer também no cadeirante, no deficiente visual, no portador de
diferentes necessidades especiais. O de que se necessita é a realização de um
corajoso ajustamento narcísico da imagem interior à exterior, o impulso
cultivado da paixão de criar, o aprendizado de técnicas que permitam a criação
artística a partir das condições dadas do corpo ou de materiais possíveis de
serem utilizados. Torna-se importante essa interação entre o artista portador de
deficiência e seu mundo exterior e os outros artistas. Na criação artística
essas áreas – interior e exterior – reagem interativamente. Por isso, a criação
artística, sendo uma transformação do mundo, ela transforma também o artista
para esse mundo. O artista sente que cria com a totalidade da emoção de sua
vida, uma obra que, para ele é antes de tudo, única e sagrada. Levar o artista
portador de deficiência a compreender isso, com clareza e sinceridade é tarefa
constitutiva das estratégias estabelecidas para apoio ao desenvolvimento de sua
arte.
A criação artística está socialmente presente em toda cultura
e não apenas reservada a membros deste ou daquele grupo social. A arte é a
vanguarda do desenvolvimento humano, social e individual, porque, como bem diz
Suzanne Langer, “é a prática de criar formas perceptíveis do sentimento humano”.
Faz com que o nosso conhecimento, por seu intermédio, avance em direções e
espaços além do campo de nossa experiência real. É o território da experiência
interior objetivada, palco onde se deflagra a vida do sentimento e da emoção.
A educação da sensibilidade pela arte é uma forma de evitar
que se agrave a visão unilateral do mundo que o homem contemporâneo passa a ter
em virtude do impacto tecnológico, restituir uma visão humanista globalizadora,
que compense o crescente prestígio da especialização em campos cada vez mais
restritos, turvando a perfeita integração do homem consigo mesmo e com a
sociedade.
Pode, também a arte constituir-se em instrumento de
restauração de características humanas básicas como a iniciativa, a autonomia e
a individualidade. A integral formação da alma.
Verdadeiramente não estamos muito distantes dos ideais
promovidos por Schiller, expostos em suas “Cartas sobre a educação estética do
homem”. Nelas, Schiller trata com igual interesse a estética, bem como o caráter
social da arte e o interesse social pela beleza, relacionando esses assuntos às
questões éticas da natureza humana e a nobreza social. Ao dizer que “é pela
beleza que se vai à liberdade”, estreita o círculo entre ética e estética. A
arte provoca o despertar da consciência de não serem os homens escravos de
ninguém e nem dos preconceitos sociais, através de um “caminho... aberto pelo
coração”. Estimula o fortalecimento ampliado da cultura estética, onde o
“enobrecimento dos sentimentos” vem sustentado pela “perfeição ética da
vontade”. Devo, no entanto remarcar aqui, a sábia ponderação de Schiller a
respeito da distinção entre o artístico e o não-artístico, visto ser o tema da
arte de portadores de deficiência de um modo geral sublinhado pela comiseração
ou pela permissividade piedosa: “A exposição da paixão – enquanto mera paixão –
não é jamais fim da arte, embora seja extremamente importante para ela como meio
para seu fim. O fim último da arte é a exposição do supra-sensível”. (Schiller
“Sobre o político”). Uma estética, portando que avança por uma ética unindo
graça e dignidade, conduzindo a natureza humana à plenitude do desenvolvimento,
onde se dê a “união da dignidade moral com a felicidade”. É nesse sentido que,
para encerrar esta preleção, lembrarei, como alegoria exemplificativa, a linda e
significante lenda amazônica do Tambatajá, um dos produtos do mundo imaginal estudados por mim em
Cultura amazônica – Uma poética do imaginário.
A cultura amazônica constitui-se num amplo vitral mítico.
Nela, as lendas de amor – líricas ou eróticas, ingênuas ou maliciosas, simples
ou artimanhosas, felizes ou trágicas – brilham de modo especial. Dentre essas
numerosas narrativas simbólicas do amor, aflora a lenda do Tambatajá.
Uma índia macuxi fugiu da maloca bonita, no rio Surumu, com o
filho de um tuxaua Taulipang.
E nunca mais se separaram
Se ele ia pescar, ela ia também.
Se ela ia banhar-se, ele ia também.
Se ele ia caçar, ela ia também.
Se ela ia para a roça, ele ia também.
Nove meses depois a índia tornou-se mãe.
Mas a criança nasceu morta e a índia não conseguia
levantar-se ou caminhar.
E, desde esse dia, nunca mais conseguiu forças nas pernas
para andar.
Então o índio passou a levar a sua amada nos ombros para toda
parte.
Um dia saíram pelo campo comendo mangaba e muruci.
O sol foi embora. Veio a lua. Veio o sol. Depois a lua veio.
E assim aconteceu durante muitos e
muitos dias.
E os dois amantes nunca mais voltaram.
Muito tempo depois, no lugar onde encontraram o arco, as
flechas, do homem; a tanga, os brincos e a pulseira da índia, crescera um Tajá
de um verde brilhante, que não conheciam.
Essa planta, que é o Tamba-Tajá, nascida do corpo dos índios
amantes tem nas folhas uma reprodução vegetal do sexo da mulher e no talo
da folha o sexo do homem.
A lenda do Tambatajá reproduz na Amazônia índia o percurso
dos grandes amorosos. O amor da estrema dedicação, lírico por sua origem e
trágico em seu destino. Poucas histórias de grandes amores contém, num relato
tão breve, a densidade de poesia e espiritualidade como dessa lenda taulipangue.
Legitimação da perenidade do amor, o Tambatajá é também uma
verdadeira ética amorosa. Coincidentia opositorum (coincidência de
opostos), reconciliação transcendente do dualismo homem/ mulher, ela revela uma
concentrada idealização do amor. Uma idealização normativa, expressa por meio de
uma plasticidade sensível, sem propriamente mandamentos ou sentenças. O amor
aparece como motivação superior de uma vida, capaz de orientar e reger toda uma
existência e sua transfiguração após a morte. É a lenda do amor que não morre,
que violenta a hybris natural quando transubstancia o humano em vegetal a
fim de que ele não morra, perenizando sua vida por um incessante nascer de novo,
um vir incessantemente à luz. Esse amor não elimina o que cada um ser é para si,
mesmo que a distância que separa os amantes seja por ele suprimida, até que
sejam reunidos em uma síntese da coincidentia opositorum do amor que é o
próprio do Tambatajá.
Tudo se resume numa vida de dedicação sacrificial do amor
pelo amor. Um amor altruísta, pleno dessa força vital que, desde Platão, se
conceitua no amor. Aqueles índios estavam sós no mundo. Mas é uma solidão não
solitária, pois que está completa de tudo aquilo que a plenifica: o amor. Não é
uma individualidade no vazio da existência. Mas, sim, uma individualidade
totalizada pela existência. O amor emancipado de sua natureza erótica e, ao
mesmo tempo, erotizado. Uma união da qual foram eles mesmos que nasceram como
dualidade una. Um amor que, como a planta
Tambatajá é mortal porque morre, mas, ao mesmo tempo, é
imortal porque continua renascendo.
Participa, portanto, de uma prodigiosa hybris: é
humano porque morre; é divino porque renasce.
Guarda em si o mais profundo sentido contraditório: é um amor
mortal que não morre.
Mas é um amor que ultrapassa a deficiência pois a índia
ficara paraplégica após o parto, impossibilitada de andar. Um amor ético por sua
força moral de companheirismo e estético pela externalização da beleza que ele
representa. Um amor sem barreiras no qual o próprio amor se ultrapassa
tornando-se além de humano, natureza.
O significado desta lenda para o tema que estamos
desenvolvendo é magnifico. Porque no Tambatajá o amor se configura ética e
esteticamente de uma forma integra e é dessa integridade que resulta a sua
grandeza humana e eterna. E sua beleza poética.
A grande lição que daqui desejo concluir, religa-nos com o
início desta preleção: o sentido da paixão. Há que se ter paixão em tudo. A
paixão inclusiva, por natureza e na essência de si mesma.
Paixão no sentido do amor ardente. Que transborda. Que tem no
ser amado origem e fim de seu destino. Que se faz na forma do seu conteúdo e que
vê no que se ama a realidade plena e não comparativa da perfeição.
E a conclusão é que, toda a exuberância emotiva da estética,
toda a grandeza magnifica do ético, nada seria verdade, sem a maravilha do amor.
Esse amor, amor e amor sem o que nada vale a pena.
Conferência proferida no encerramento do V Congresso Nacional
de Arte-Educação na Escola para Todos e VI Festival Nacional de Arte sem
Barreiras, no dia 09 de novembro/2000, no Centro de Convenções Ulisses
Guimarães, em Brasília.
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BIBLIOGRAFIA
Bachelard, G. “Le droit de rêver”. PUF. Paris, 1970.
Langer, Suzanne. “Sentimento e Forma”. Ed. Perspectiva. São
Paulo, 1980.
Maffesoli, M. “Lê mystère de la conjunction”. Fata Morgana.
Paris, 1999.
Nietzsche. “La volonté de puissance”. Tel-Galimard. Paris,
1995.
Nunes, Benedito. “A paixão de Clarice Lispector”. In
Os sentidos da paixão. Funarte/Cia das Letras. São Paulo, 1987.
Paes Loureiro, João de Jesus. “Cultura Amazônica – Uma
poética do imaginário”. Escrituras Editora. 2° Edição. São Paulo, 2000.
Pereira, Nunes. “Moronguetá – Um decameron indígena”.
Civilização brasileira Editora. Rio de Janeiro, 1967.
Schiller. “A educação estética do homem”. Iluminuras. São
Paulo, 1995.
Simmel. “La tragédie de la culture”. Rivage Poche. Paris,
1988.
MESA REDONDA
REFLETINDO SOBRE OS PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS DE ARTE
Maria
Heloisa Corrêa de Toledo Ferraz
OS PCNs DE ARTE E A EDUCAÇÃO ESPECIAL
Nesses três anos de publicação e implantação, os Parâmetros
Curriculares Nacionais de Arte têm sido discutidos e analisados em vários
âmbitos, mas estava faltando este olhar específico da educação especial.
Ao observar-se os documentos e outras estratégias de
intervenção ( por exemplo os PCNs em Ação e os trabalhos de Educação à
Distância) , percebe-se a preocupação com as novas diretrizes mundiais que
tratam do respeito às diferenças, da crítica aos atos discriminatórios, da
inserção de valores éticos e culturais, e da apreensão desses valores como uma
das metas prioritárias da ação pedagógica. Tais idéias embasam os PCNs de Arte e
visam principalmente ao aprimoramento do aluno como indivíduo participativo e
consciente de suas possibilidades e deveres sociais. A melhoria da qualidade do
ensino é um desafio para todos os docentes e os PCNs procuram mostrar que o
valor da aprendizagem é mais evidenciado quando reflete em profundidade o
sentido e o fortalecimento da cidadania, preparando os alunos para a vida.
Mas será que os professores de arte, em suas práticas,
estudos e reflexões sobre os PCNs, estão realmente conscientizados sobre a
extensão da diversidade cultural, e para agir com a arte junto a diferentes
alunos, principalmente às crianças e jovens portadoras de deficiências, ou para
compreender os benefícios que a inclusão e a integração podem trazer para todos?
Sobre essas questões parecem existir ainda muitas lacunas.
Elas se manifestam quando os professores não têm clareza de suas ações
profissionais ou das possibilidades que a Arte tem.
Para a viabilização de projetos de arte que inclua os
portadores de necessidades especiais é preciso conhecer-se a extensão de suas
dificuldades, e saber como tratar o domínio de linguagens artísticas e a busca
de novos caminhos e novas manifestações do pensar e do agir, bem como uma maior
integração. Os procedimentos em arte são direcionados para o conhecimento de
saberes artísticos e estéticos mas também estão assentados em princípios que
norteiam as práticas de inclusão social: aceitação das diferenças individuais,
valorização de cada pessoa, respeito à própria produção e à dos demais,
aprendizagem com ênfase na experimentação e cooperação mútua. Se forem
desenvolvidos adequadamente, os cursos de arte favorecem a apreensão desses
princípios e podem abrigar outros conhecimentos, atendendo as propostas de
integração social e transição para futuras inserções profissionais. São os saberes que cercam
uma educação para a experiência, a descoberta, o auto-conhecimento.
É importante explicitar-se também as possibilidades
integradoras do ensino e da aprendizagem artística e estética na escola para que os professores que
lidam com a arte possam compreender a abrangência do seu papel e saber, primeiro, se estão
incluindo ou excluindo as crianças e jovens da experiência da arte, e, em segundo lugar, se entre elas
também incluem as portadoras de deficiências mental, física, visual, auditiva e múltipla, por exemplo.
Por outro lado, para que se possa tratar efetivamente da
inclusão, há necessidade de preparação profissional e de inúmeras adaptações organizacionais na
escola, currículos etc. É preciso, ainda, que os professores saibam que eles podem sensibilizar a
comunidade, incluindo os pais de alunos ( deficientes e não deficientes), para construir juntos essa
escola que almejamos .
Finalmente, se esperamos uma atuação profissional consistente
e que atenda tais expectativas, devemos pensar nos cursos de formação dos professores de
arte. Isso quer dizer que os cursos devem prepará-los discutindo questões como essas que apresentamos,
e abrir espaços para as pesquisas e estudos de educação especial, com fundamentação teórica e
experiências práticas em ateliês, centros de saúde, centros de convivência, lares abrigados, hospitais,
enfim tanto na escola como na comunidade em geral.
Bibliografia
A Educação Especial no Contexto da Lei de Diretrizes e Bases
da Educação. Brasília: Centro de Documentação e Informação. Coordenação de Publicações, 1997. BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental.
Parâmetros curriculares nacionais: terceiro e
quarto ciclos do ensino fundamental: introdução aos parâmetros
curriculares nacionais/ Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1998. BRASIL. Secretaria de
Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: ARTE/
Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1998. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Média
e Tecnológica. Parâmetros curriculares nacionais: ensino médio: Linguagens, códigos e suas
tecnologias/ Ministério da Educação./
Brasília: MEC/SEMT, 1999. CARVALHO, Erenice Natália S. Adaptações curriculares: uma
necessidade. Salto para o Futuro: Educação Especial: tendências atuais.
Secretaria de Educação a Distância. Brasília:
Ministério da Educação, SEED, 1999, p.51-57. SASSAKI, Romeu Kazumi. Educação para o trabalho e a proposta
inclusiva. Salto para o Futuro: Educação Especial: tendências atuais.
Secretaria de Educação a Distância. Brasília: Ministério da Educação, SEED, 1999, p.81-92.
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REFLETINDO SOBRE OS PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS
Lucia Gouvêa Pimentel
Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) têm como objetivo
desenvolver capacidades. Também procuram oferecer condições para que
os professoros possam
definir seus projetos curriculares: “Na visão aqui assumida, os alunos constroem significados a
partir de múltiplas e complexas interações. Cada aluno é sujeito de seu processo de
aprendizagem, enquanto o professor é o mediador na interação dos alunos com os objetos de conhecimento; o
processo de aprendizagem compreende também a interação dos alunos entre si, essencial à
socialização. Assim sendo, as orientações didáticas apresentadas enfocam fundamentalmente a intervenção
do professor na criação de situações de aprendizagem coerentes com essa
concepção.”
Com relação a Arte, espera-se que sua influência sobre os
currículos dos cursos de Licenciatura se exerça no sentido de encaminhar a um estudo mais
aprofundado da Arte em seus vários aspectos: fazer, conhecimento, crítica, filosofia etc. Somente assim será possível formar profissionais que se
interessem em trabalhar a área de conhecimento Arte numa perspectiva de ação que possa
incluir os mais diversos níveis e as mais variadas metodologias de ensino, e que atendam, também, o
ensino da Arte para todas.
Com relação aos conteúdos específicos, parece que as escolas
responsáveis pela Licenciatura em Arte, em sua maioria, já contemplam a parte de ensino das
técnicas das diversas áreas. “O conjunto de ações que conduzem aos resultados precisa ser
feito pelos alunos para que ocorra aprendizagem e o professor precisa dominar tais
procedimentos para poder ensiná-los”.
Tem-se, portanto, que somente uma professora especialista
poderá dominar os procedimentos de cada uma das áreas às quais se referem os PCN, ou seja,
Artes Visuais, Dança, Música e Teatro. A antiga Educação Artística, com sua pretensão de
polivalência impossível de ser efetivada, felizmente cai por terra e possibilita a formulação de
projetos integrados, com vários especialistas.
Reforça-se, assim, a necessidade de uma sólida formação da
professora em sua área de atuação, aliada ao conhecimento mais amplo de Arte e à
disponibilidade de aprendizagem constante e interativa.
Entretanto, o enfoque muitas vezes dado ao conteúdo
curricular - que nos PCN recebe as denominações de: Expressão e
Comunicação na prática dos alunos em Artes Visuais, As Artes Visuais como objeto de apreciação significativa, As Artes Visuais
como produto cultural e histórico, A Música como produto cultural e histórico: Música e sons do mundo, O
Teatro como expressão e comunicação, O Teatro como produção coletiva, Comunicação e expressão em
Música, Apreciação significativa em Música, A Dança na expressão e comunicação humana, A Dança
como manifestação coletiva, A Dança como produto cultural e apreciação estética, O Teatro
como produto cultural e apreciação estética - precisa
ser repensado em muitos dos cursos de Licenciatura. As técnicas, aqui, devem ter outra leitura que não o tradicional “ensinar a fazer”.
Em todas as áreas há indicações da complexidade do trabalho a
ser desenvolvido, como por exemplo na de Artes Visuais: “A educação em Artes Visuais requer trabalho continuamente
informado sobre os conteúdos e experiências relacionados aos materiais, às técnicas e às
formas visuais de diversos momentos da história, inclusive contemporâneos. Para tanto, a escola,
especialmente nos cursos de Arte, deve colaborar para que os alunos passem por um conjunto amplo de
experiências de aprender e criar, articulando percepção, imaginação, sensibilidade,
conhecimento e produção artística pessoal e grupal.”
E essa complexidade só poderá ser atendida se a preparação
d@s profissionais em Educação que trabalham com Arte tiver uma outra dinâmica.
O quê, ao meu ver, precisa urgentemente ser mudado na
Licenciatura - e já precisaria ser, independentemente dos PCN - é a estrutura compartimentada,
segmentada, pouco colaborativa e pouco crítica, que nunca possibilita, inclusive, a prática da
permeabilidade entre o saber, o fazer, que supõem o refletir constante, ou seja, entre os três eixos
propostos.
Essa é uma outra postura, uma outra prática, para a qual
teremos que saltar, se quisermos ter os Parâmetros como referência para a melhoria do ensino de
Arte. Se não, correremos o risco de importar não só o modelo curricular, mas também o modelo
comportamental rígido, que bloqueia ao invés de desenvolver.
E o que precisa ser considerado, sem dúvida, é o
comprometimento de TODOS – governo, administradores e profissionais do ensino - com a
implementação de mudanças efetivas. De nada adianta os especialistas elaborarem um documento, a
comunidade discuti-lo e acertar-lhe as arestas, se não forem dadas condições às escolas de efetivar suas
propostas e à universidades de continuar suas pesquisas e sua efetiva prática na formação – não só
inicial, mas também continuada – de professoras de Arte que devem ter a consciência
do que seja
ensinar para todas.
O espaço da Arte tem que ser disponibilizado e viabilizado na
prática. O espaço da pesquisa é essencial para essa viabilização, pois o ofício de professor@
é, por excelência, questionador e inquietante, baseia-se no já conhecido, mas movimenta-se incessantemente
em direção ao que há por conhecer.
1 Professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG),
Coordenadora da Coleção
Arte & Ensino da Editora C/ARTE, Membro da Comissão de
Especialistas do MEC para Artes Visuais.
2 Ministério da Educação e do Desporto. Parâmetros
Curriculares Nacionais. 1997, p.58 (disquete).
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MUSEU DE ARTE E PÚBLICO ESPECIAL
Amanda Pinto da
Fonseca Tojal
Pesquisas realizadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS)1
revelam um percentual de
10% da População Mundial como portadora de algum tipo de
deficiência.
No Brasil, dados fornecidos pelo Censo Demográfico do ano de
1991, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)2, atestam a
existência de 2.198.988 pessoas portadoras de deficiências cadastradas (portadores de deficiências
mentais, físicas, auditivas, visuais e deficiências múltiplas), numa população geral de 146.815.750
habitantes.
Perante os profissionais das áreas de Educação e Cultura
estes dados populacionais conduzem necessariamente à reflexão, não só sobre questões relativas à
inclusão destas pessoas em todas as instâncias da sociedade, como mais especificamente sobre o
importante papel sócio-político e cultural que os
museus e outras instituições culturais possuem ao integra-las convenientemente,
como cidadãs ativas e participativas da sua comunidade.
Acolher as pessoas portadoras de deficiências nos
museus e espaços culturais é portanto um dever político e social. Porém, isto implica em uma série de
responsabilidades e adequações que deverão ser assumidas pela política cultural destas
instituições, a qual, por sua vez, há de contemplar:
.A derrubada das barreiras arquitetônicas, permitindo o
acesso físico de todos os visitantes a esses locais.
.Elaboração de exposições adaptadas cuja museografia
possibilite tanto a circulação dos visitantes nestes espaços, como também a apreensão e interação dos
participantes com os objetos neles expostos.
.Formação de profissionais especializados e treinamento de
funcionários que lidam com o público, visando o melhor atendimento do público geral e especial,
contribuindo de forma mais efetiva para inclusão do público especial nestes locais.
.Elaboração de programas de ação educativa adaptados a
cada tipo de deficiência, possibilitando a freqüência e o contato permanente desses visitantes com o
seu patrimônio artístico e cultural.
.Divulgação e contatos permanentes com instituições
que atuem com pessoas portadoras de limitações tanto nas áreas da saúde como também nas áreas
culturais e educacionais, gerando parcerias e programas conjuntos.
A Ação Educativa dos museus e instituições culturais
pode e deve ampliar o seu raio de ação para alcançar também as pessoas portadoras de deficiências
nos lugares onde estudam, trabalham ou freqüentam, levando reproduções de obras ou parte de seu
acervo, permitindo o contato inicial desse público com tais objetos, para uma posterior visita a
estes locais.
Além disso, a atuação do serviço educativo deve estar
igualmente voltada para atividades práticas, com o intuito de estimular o potencial criativo deste
público, a partir do conhecimento do objeto. Essas atividades, desde que integradas a um programa
e metodologia próprios, são essenciais também para estimular o seu desenvolvimento cognitivo,
afetivo e criativo, bem como colocá-lo em contato direto com a produção cultural do seu tempo
com todos os direitos que ele, como cidadão, tem de participar e usufruir.
A relevância da Ação Educativa e Cultural em Museus de
Arte enfocando o público portador de deficiências de
diversas naturezas poderá ser exemplificada no trabalho realizado pelo Projeto
“Museu e Público Especial”
do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, programa pioneiro de ação educativa para público especial desenvolvido
de forma permanente desde o ano de 1991 em um museu de arte brasileiro.
O Projeto “Museu e Público Especial” tem por objetivo
a realização de um programa permanente de ação educativa e cultural dirigido ao público
portador de limitações sensoriais
(visuais e auditivas), físicas e mentais
em exposições de arte especialmente
concebidas e adaptadas para receber este público ampliando a freqüência e a participação do
público especial no museu a partir dos seguintes ítens:
.Organizar exposições de arte contemporânea (de
caráter fixo e itinerante) com obras pertencentes ao acervo do Museu de Arte Contemporânea da USP,
concebidas principalmente para o atendimento do público portador de deficiências sensoriais, físicas e
mentais.
.Desenvolver programas de ação educativa em museu de arte
especializados no atendimento do
público especial.
.Pesquisar, desenvolver e reproduzir materiais
multisensoriais a partir de
reproduções bi e tridimensionais de obras de arte originais
incluindo jogos e materiais didáticos e kits
multisensoriais de apoio à compreensão e aprendizagem de conteúdos das artes
plásticas para o público especial.
.Produzir e editar catálogos, folders, textos e artigos
em tinta e braille sobre artistas e obras das exposições pertencentes ao Projeto, bem como publicações
informativas sobre o trabalho desenvolvido, oferecidos tanto ao público especial como também ao público
geral.
.Implantar um acervo de materiais didáticos
multisensoriais dirigidos à percepção tátil, auditiva e visual de obras de arte, recursos estes utilizados tanto
nos programas educativos das exposições do Projeto como também em escolas e instituições especializadas.
. Organizar e ministrar cursos de extensão e oficinas
sobre o Ensino da Arte na Educação Especial, visando a capacitação de professores, estudantes e outros
profissionais de áreas afins que trabalham com crianças, jovens e adultos portadores de deficiências.
.Divulgar e dar assessorias sobre programas de Ação
Educativa em Museu de Arte para o
público especial em eventos científicos e culturais, bem
como em escolas e instituições públicas e privadas.
.Promover intercâmbios entre instituições nacionais e
internacionais, incluindo também as demais unidades da Universidade de São Paulo, visando a melhoria do
Ensino da Arte e da qualidade de vida das pessoas portadoras de deficiências.
Desta forma, o Projeto “Museu e Público Especial”, além de
possibilitar um acesso qualitativo e especializado deste público com o objeto artístico,
contribui também para a melhoria do
ensino e aprendizagem da arte contemporânea e
da produção artística destas pessoas,
possibilitando sua inclusão na produção artística e cultural do nosso tempo, da nossa
sociedade e do nosso país.
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ARTE NA PERSPECTIVA DA INCLUSÃO
Fernando
Antônio Gonçalves de Azevedo
Nossas heroínas e a perspectiva multicultural da
arte/educação.
O filósofo, existencialista, Jean-Paul Sartre em seus estudos
e reflexões sobre a imaginação observa: “O ato de imaginação é um ato mágico. É uma
encantação destinada a fazer aparecer o objeto no qual se pensa a coisa que se deseja de modo a dela
se tomar posse” (1940:161).
Aqui o objeto evocado e encantado é no sentido do pensamento,
da contribuição de uma vida dedicada a realização de relações de aprendizagem; aqui o
objeto é a pessoa que pensa, que se dedica ao ato concreto/mágico e humano de ensinar arte,
desafiando seus aprendizes de arte/educadores a pensar dialeticamente quando afirma: arte não se ensina,
embora tenha dedicado toda sua vida a ensinar arte.
Aqui revelo a pessoa/arte/educadora que quero enaltecer por
ser ela memória viva, portanto parte importantíssima da historia da arte/educação de nosso
país - Noemia de Araújo Varela.
E porque falar de D. Noemia em uma reflexão sobre a Arte na
Perspectiva da Inclusão?
Diria que por variadas razões e certamente em se tratando de
D. Noemia, todas seriam plausíveis, mas me deterei em algumas: D. Noemia foi a primeira
arte/educadora brasileira, nordestina, a alçar vôos interligando Arte e Educação Especial, tendo
criado nos anos 50 um atelier de arte na Escola Ulisses Pernambucano da rede estadual de Pernambuco
(essa escola existe até hoje e homenageou a mestra Noemia Varela colocando seu nome no auditório).
Se tudo isso não bastasse, destaco que a arte/educação
nacional precisa olhar para a sua história, como observa Ana Mae: “...A história é
importante instrumento de auto-identificação” (1996:11), respeitando e enaltecendo nossos heróis e
heroínas.
D. Noemia é uma de nossas heroínas por sua inteligência e
sensibilidade, por sua dedicação e espírito aberto aos estudos, pela coragem de ser aprendiz aos
80 anos, ensinando para cada um de nós a beleza de inventar/reinventar cada dia como se cada um
deles fosse todo um complexo universo cheio de sutilezas a serem descobertas - é assim que nossa
mestra pensa as obras de arte, a estética do cotidiano e o pensar/fazer estético e artístico de seus
alunos/aprendizes.
A beleza maior de D. Noemia é se relacionar com variadas
pessoas respeitando todos os saberes, respeitando as diferenças e neste sentido a lição maior que
aprendemos com ela é olhar para as pessoas especiais/diferentes pelo ângulo das potencialidades
e não pelo ângulo das deficiências.
A homenagem aqui revelada forma com a história da
arte/educação uma espécie de amálgama que se reflete e se desvela na história da arte/educação
especial fazendo aparecer à perspectiva do gênero exatamente porque as grandes e profundas
transformações na arte/educação brasileira têm sido levadas adiante pelas mãos inteligentes das
mulheres/educadoras.
A formação de tal amálgama histórico justifica-se quando Ana
Mae Barbosa, arte/educadora reconhecida dentro e fora do território nacional afirma ter
pais intelectuais: Noemia Varela e Paulo Freire.
Novamente lembro Ana Mae dizendo: sem história não podemos
construir identidade, sem história não podemos pensar nem agir como coletividade, como
categoria.
Após esta breve introdução chamo a atenção para as
contribuições da Arte para a Educação Especial na perspectiva da inclusão.
Arte/educação não propõe modelos de CERTO e ERRADO, ao
contrario um processo arte/ educativo busca trabalhar a construção de hipóteses partindo
do princípio, da interação dos saberes, por isso mesmo tal processo se dá no coletivo, incluindo a
participação – a voz, o olhar, o tocar, o pensar/sentir – de TODOS.
Neste sentido a arte/educação é multicultural, pois não
apenas propõe o respeito às diferenças, mais reconhece os diversos sistemas construídos
histórico/socialmente, ou seja os modelos de perceber, agir, pensar, crer, avaliar, simbolizar, ler, criticar, fazer
e refazer conhecimentos/saberes das culturas minoritárias contrapondo-as dialeticamente as culturas
majoritárias.
Quero dizer assim que o portador de necessidades especiais é
um sujeito concreto, histórico/ social que constrói sua subjetividade – sua identidade – seu
jeito de compreender e estar no mundo a partir da relação dialética: potencialidade x dificuldade,
igual a novas potencialidades que se traduzem em novas maneiras de se adaptar ao contexto/sistema
hegemônico e criticá-lo, mas principalmente forçar tal contexto a se modificar, se abrir, a não ser tão
excludente.
Vivemos um tempo de mudanças de paradigmas na educação
brasileira, talvez o mais importante deles seja o apontar para uma organização social inclusiva.
Fato que não se dará apenas pela imposição de um comportamento politicamente correto, mas pela
mudança profunda de mentalidades.
Tal mudança não acontece por decreto sendo necessário a
mobilização de todas as esferas da sociedade, inclusive a Escola, modificando suas altitudes
pela consciência, a forma de educar, lidar, tratar o portador de necessidades especiais considerando-o e
abrindo-se para a luta das minorias. A Escola dessa forma é um espaço privilegiado porque
construímos saberes a partir de negociações e interações entre diversas culturas sejam elas majoritárias ou
minoritárias.
O campo da arte e da arte/educação tem algo a dizer através
da Mostra do Redescobrimento Brasil + 500, pois sua composição apesar de tender para a
espetacularização impõe aos seus visitantes/ leitores um olhar a multiculturalidade brasileira, tanto do
ponto de vista da profundidade quanto do desafio dos leitores a um olhar não excludente. Na mostra
destaca a arte indígena, arte negra, a arte ainda denominada preconceituosamente de popular e a arte
dos “loucos”.
Sobre esta última, o artista Bispo do Rosário com a exposição
de suas roupas/artefatos, suas coleções/instalações desafiam os olhares mais conservadores,
mas provavelmente nenhum deles pode ignorar a arte de Bispo mesmo porque paira magicamente sobre
esse espaço o espírito reformador critico e inventivo da Dra. Nise da Silveira. Assim se
evidencia a coragem dessa grande psiquiatra brasileira, nordestina, que tratou as diferenças – a loucura
– de forma diferente, considerando as potencialidades estéticas e artísticas de seus pacientes,
sendo relembrada e tomada como referência na peça Anjo Duro com direção de Luis Valcazaras.
Esta peça abriu espaço no festival de Teatro de Curitiba
(2000), através da rubrica Teatro dos Incluídos, para discutir pela via das cartas da Dra Nise ao filosofo Spinosa seus processos terapêuticos, seu modo revolucionário de compreender e tratar a loucura.
D. Noemia participou durante os anos em que morou no Rio de
Janeiro (e foram muitos) do grupo de estudos Jung criado e coordenado pela DRa Nise, elas foram amigas e D. Noemia até hoje fala da amizade entre ambas de forma muito especial.
As mulheres aqui destacadas influenciaram-se mutuamente e
nunca separaram o eu pessoal do eu profissional, são mulheres marcantes por suas posições
criticas, reformistas e por suas inventividades.
A perspectiva da inclusão pela via da arte é feminina no
gênero, é multicultural na pedagogia, é reformista na práxis e ela tem nomes – é encarnada – , ela
reconhece suas heroínas – mulheres – que vêem longe, criticam com sensibilidade propondo novas formas
não fechadas de construir e reconstruir, inventar e reinventar a Educação, a Arte, a Psiquiatria, o
mundo, as relações sociais, por isso a
Arte na Perspectiva da Inclusão no meu ponto de vista deve
homenagear para não cometer equívocos históricos às figuras carismáticas de Noemia Varela, Nise da
Silveira e Ana Mae Barbosa1. Essas mulheres/arte/educadoras têm ensinado a delicadeza de não
conhecer as deficiências como entraves, mas olham para elas, as tocam e as transformam partindo das
potencialidades, da capacidade própria do ser humano de quebrar limites, inventando no cotidiano
maneiras divergentes de enfrentar os desafios, sendo elas próprias vislumbres dos segredos da
vida.
Referencias bibliográficas
BARBOSA, Ana Mae.(org.). Historia da Arte Educação.
São Paulo, Max Limonad, 1996.
SARTRE, J.-P. L’ Imaginaire. Paris, Gallimard, 1940.
1 Ana Mae sistematizou nos anos 80/90 a Abordagem Triangular:
sistema que articula três vertentes – a Contextualização,a Leitura da Obra de Arte / Estética do Cotidiano e o Fazer.
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A ARTE NO CONTEXTO ESCOLAR: UM ESPAÇO DE EXERCÍCIO DE CIDADANIA E, NELA, DE ALTERIDADE
Alice Fátima
Martins
RESUMO DE PALESTRA
Alteridade é o reconhecimento do outro, desde si, em sua
constituição identitária de ser humano, ou pessoa. Ou seja, pressupõe o respeito desde si mesmo ao
outro que, a despeito de possíveis diferenças, permaneça reconhecível em sua natureza própria,
humana. O pretendido é defender a idéia de que as Artes na Educação representam espaço
fundamental para o exercício da cidadania e, nela, de alteridade. Para isso, será tomado enquanto
referência de reflexão o ideário educacional que norteou a criação das Escolas Parque, bem como o trabalho de
Ensino de Arte desenvolvido, atualmente, na Escola Parque da EQN 303/4, da rede pública de ensino de
Brasília/DF, que atende a cerca de três mil alunos, entre os quais, crianças e adolescentes
portadores de necessidades especiais.
Ao longo da história, o homem vem se organizando em
diferentes culturas e civilizações, construindo formas próprias de arte, com funções e conceitos próprios. Em
todos os tempos, o homem tem produzido arte na construção de sua identidade enquanto
agentes efetivos de cultura ligados a seus tempos e espaços referenciais. E são múltiplas e
diferenciadas as produções em arte assim realizadas pelo homem. Ressalte-se, portanto, que a
importância do Ensino de Arte no contexto escolar consiste em assegurar às crianças, jovens e adultos em
formação, o pleno acesso ao conhecimento artístico, situando-os em sua cultura, em seu tempo histórico
social e educacional.
Os fazeres artísticos trazem a marca de quem os produz e do
contexto cultural em que são produzidos. Cada pessoa formula construções expressivas
únicas, que, ao mesmo tempo, refletem as visões coletivas de mundo. Uma pessoa que desenvolva caminhos
próprios de expressão e de leitura estética do universo pode interagir de modo efetivo com seu
contexto social e cultural, num processo contínuo de aprendizagens e de reconstrução dos modos de
expressão. Além do que, o conhecimento artístico possibilita aos indivíduos respeitar as suas
próprias manifestações enquanto revelações diferenciadas um do outro e, por isso mesmo, conhecer, respeitar e apreciar
tais manifestações, na riqueza que o encontro entre essas diferenças e/ou semelhanças possa
significar. O outro, aqui, é entendido enquanto a outra complexidade de cultura, a outra pessoa, as
condições diferenciadas de viver e, assim, apresentar ao mundo, conseqüentemente, diferentes
formas artísticas que resultem desses diferentes contextos e condições de produção, no âmbito da criação
artística e da vida.
É nesse sentido que a arte constitui um espaço de exercício
de alteridade, do reconhecimento da saudável plenitude das diferenças, dos quantos outros que
convivem no ambiente escolar, social e cultural, em comunidade. Na escola, o grande vetor do ensino
de Arte é a cidadania, princípio segundo o qual o outro não é o estranho, mas o co-partícipe ativo da
construção de identidade, de produção de signos, de exercício e conhecimento das linguagens
artísticas. A arte na escola constitui, pois, o espaço de excelência para esse exercício vivencial,
essencial à construção de aprendizagens.
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ARTE: LIMITES E POSSIBILIDADES
Virgínia
Vendramini
RESUMO
Sou totalmente cega desde os 16 anos. Antes, via pouquíssimo.
Ninguém poderia supor, então, que um dia viria a ser uma tapeceira, trabalhando com formas
e cores, criando e executando meus próprios desenhos.
Nasci em 1945, no interior de São Paulo, onde Educação era
privilégio e educação especial simplesmente não existia. Possuindo apenas um resído visual,
não frequentava escolas como meus irmãos. Passei a ser um problema: O que ensinar a uma menina
quase cega?
Meus pais nada sabiam de estimulação, mas tinham bom senso.
Lápis de cor, aquarelas, quebra- cabeças, revistas para recortar, retalhos de tecido,
caleidoscópios foram meus brinquedos.
Aos 10 anos conheci o Sistema Braille. Aos 16 anos ingressei
no instituto Benjamin Constant, onde recebi excelente instrução acadêmica.
O passo seguinte foi a Universidade. Cursei Português e
Literatura, Matérias que lecionei durante 27 anos.
A poesia foi o começo. Aos 13 anos fiz meus primeiros versos.
Os tapetes vieram bem mais tarde. Durante minha vida escolar não recebi educação
artística. Nem mesmo as formas geométricas mais simples me foram mostradas. Mas formas e cores estrtavam
gravadas em minha memória de maneira indelevel, semeadas pelos brinquedos coloridos da
infância.
Meu primeiro tapete aconteceu em 1974 e foi uma revelação
maravilhosa.
Quis aprender algumas técnicas de tapeçaria. Não encontrei
quem me quisesse ensinar. Sendo os desenhos riscados na tela, eu não teria como executá-los.
Resolvi, então, criar meus próprios desenhos.
Primeiro foram linhas retas, quadrados, retângulos, tudo em
cores contrastantes. As cores e formas tão familiares na minha infância ali estavam sempre
diante de mim, ou melhor, dentro de mim.
Aprendi as técnicas básicas da tapeçaria examinando trabalhos
de outras pessoas e fui criando um jeito meu de executar os desenhos que a fantasia me
sugeria. Passei a usar muitas cores, tons em degradé e para não perder-me com tantas meadas de lã,
colocava em cada uma, etiquetas em Braille, tomando sempre o cuidado de guardár uma meada, antes de pegar
uma de outra cor.
Ao contrário do que se faz habitualmente, começo o tapete
sepre pelas bordas, fazendo todo o contorno. Depois, com o espaço delimitado, é mais fácil
inventar desenhos, contando pontos, somando, dividindo, multiplicando os quadradinhos da tela, conforme a
exigência do desenho.
Não planejo um tapete. Escolho as cores e começo a trabalhar,
deixando que cada traço sugira o seguinte.
Jamais pretendi que meus tapetes fossem considerados obras de
arte.
Não conheço técnicas de desenho, nunca aprendi o uso correto
das cores, muito menos os mistérios da geometria. Mas entrelaçar formas, intercalar
cores, resolver problemas matemáticos na divisão do espaço é um desafio constante e vencê-lo um grande
prazer. Se as pessoas gostam, o prazer é ainda maior.
Depois de 26 anos debruçada sobre telas e lãs, telas e tintas
são um convite tentador, um caminho novo a trilhar. Tinta na mão, mão deslizando na
tela... Nenhuma referência tátil. Apenas a imaginação, os tubos de tinta com etiquetas em braille e
muitas dúvidas, muitas perguntas: A tela estará toda coberta? Como estabelecer limites entre as cores?
como pintar uma forma simples, um círculo, um quadrado? Aos poucos vou encontrando algumas
respostas, maneiras de resolver dificuldades e a tinta, em princípio tão esquiva ao meu desejo de “criar”,
aos poucos se torna algo suave na mão.
Acho muito difícil uma pessoa cega trabalhar com tintas e
pincéis. Com método e paciência, porém, é possível conseguir resultados bem interessantes.
Tenho ainda muito o que aprender em relação às tintas, mas já não afirmo que é impossível um cego
pintar, dentro de suas limitações, é claro.
Sou hoje uma tapeceira e durante muito tempo acreditei no que
me diziam.
Um dia resolvi tentar, mas tentar com vontade, vencer os
preconceitos em mim incutidos pela avaliação precipitada de pessoas que afinal não conheciam
minhas aptidões. Quantos de nós cometemos esse erro, inibindo um talento ou retardando seu
florescimento?
Fui professora por 27 anos e há 5 anos me dedico
exclusivamente aos poemas e tapetes. Sou hoje uma pessoa mais feliz, pois através da Arte conquistei a
admiração e o resseito dos que antes me olhavam apenas com comiseração. Além disso, descobri que a
arte é também o caminho mais curto para chegar aos corações.
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Wellington José
Chagas Torres Júnior
Apresentação:
Parte 1 - A conscientização na arte
O primeiro contato Na criança, se guarda o potencial criativo, inerente a todo
ser humano. No decorrer da vida, nos aproximamos ou não de uma dedicação à atividade
artística. O que buscamos na arte, é a sensação de liberdade de pensar e fazer. Dom de Deus dado a
toda criança.
O exercício do auto conhecimento
O primeiro estímulo pode ser interior ou exterior, mas a
maior sensação do artista portador de deficiência, é a de experimentar se ver de fora, ser
observado sem ser visto. A emoção de conhecer, pensamentos e sentimentos, guardados no seu “EU”.
O prazer na libertação da expressão artística
A primeira reação na manifestação de qualquer artista,
portador ou não de deficiência é a de poder falar sem palavras, acariciar sem tocar, agredir sem
violência, amar ou odiar, calado ou não, falar o que seu novo espírito independente descobriu.
Parte 2 – O grande divisor
A orientação sobre arte processo e arte produto
Definições que tornam a arte, um processo terapêutico, de
reabilitação, ou um produto pronto para sair e se mostrar ao mundo. Rotular o tipo de arte, a
torna menor?
O dilema da passagem
A consciência de seu posicionamento, o leva a um processo
disciplinar e de crescimento imprescindível a sua condição.
Consciente, a busca do mercado
Ser profissional é não se esconder na condição de deficiente.
O que faz a diferença para o mercado é talento, capacidade e disciplina.
Parte 3 – Arte e Tecnologia podem trabalhar juntas?
O computador – Amigo ou inimigo?
Avanços tecnológicos, recursos e globalização... benefícios
sim, mas que não estão disponíveis a todos. Qual o papel fundamental da escola e das
associações?
Realização, esse é o grande segredo
O objetivo final de qualquer atividade é a realização,
pessoal ou profissional.
Alcançar independência financeira ou um sonho de infância.
Tornar-se uma estrela ou formar uma família. Na arte, os
caminhos são vários, mas o segredo do sucesso está em tornar-se um ser humano feliz.
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ARTE JORNADA PARA AS ESTRELAS
Arnaldo Augusto
Godoy
Sem nenhuma pretensão acadêmica podemos afirmar que, ao longo
da história, a Ciência da Educação sofreu mudanças que traduzem a necessidade humana de
desvendar os horizontes dos indivíduos . A compartamentização do conhecimento em áreas
estanques tem sido, até recentemente, o grande pecado do processo educativo. As mudanças a que me
referi buscam ampliar conceitos, agregar valores, incorporar métodos e técnicas na ação
pedagógica. Esse é o esforço de pensadores e educadores no sentido da totalização do conhecimento na
formação holística do indivíduo. O cognitivo, o emocional, o afetivo, o intuitivo são aspectos
que se fundem e se complementam permitindo, por parte do educando, uma compreensão melhor do seu entorno
e de si mesmo.
E a arte, que papel desempenha nesta história? A meu ver a
arte é o elemento possibilitador da transgressão, da superação dos limites e das regras. A arte
escapa a qualquer censura. A arte nos remete à liberdade, à auto-estima. Quem se aventura no mundo
artístico , deixa fluir a criatividade, é proprietário de um poderoso instrumento: a liberdade de
pensar e se ver “uno”, diferente, distinto, inimitável.
Todos, absolutamente todos, podem alçar vôos no espaço
artístico, independentemente de sua condição físico-sensorial. São poucos os “Pelés”, os
“Maradonas”, os “Garrinchas” mas, quem não bate uma bolinha? São também poucos os “Guimarães Rosa “, as
“Adélias Prado “, os “Machados”, mas quem não arrisca uns versos de amor. Beethoven, Chico e
Elis não emudecem a tantos, sem tantos talentos. Quem não dá suas pinceladas ainda que
sabendo de Van Gogh , Picasso e de Portinari?
Sem fronteiras, a arte não tem limites, não tem barreiras a
não ser a do preconceito, da exclusão, da injustiça. As possibilidades da arte são tamanhas no
sentido da humanização e valorização do homem. Os limites são dados só e tão-somente pela
experiência, pela vivência e oportunidade de cada um.
A arte desconhece diferenças, desconhece limites e por isso
mesmo nos coloca a todos em pé de igualdade.
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O COMPROMISSO DA EDUCAÇÃO FRENTE À ARTE, A CULTURA E A INDÚSTRIA O ENTRETENIMENTO
Alcione Araújo
É esquizofrênica a separação entre educação e cultura na
formação de um ser. A educação é o braço sistematizado da cultura. Há que se pensar em formas de
familiarizar crianças e adolescentes com as produções do espírito, conquistas da humanidade.
O quadro social brasileiro, de empobrecimento crescente,
desemprego, e ampliação da exclusão, é também decorrência do secular abandono da educação e até
mesmo da cultura. Sabe-se que no Brasil a maioria esmagadora das famílias não possuem
sequer um livro em casa, nenhum instrumento musical, não freqüenta cinema, teatro, etc.
O debate sobre cultura no Brasil está prejudicado pela baixa
escolaridade. A continuar nessa marcha, em pouco tempo, a cultura-literatura, música, teatro,
cinema, dança, artes visuais, etc – será luxo elitista, inacessível à maioria.
A superexposição aos meios de comunicação, de capilaridade
continental e poderosa penetração em quase todos os domicílios do país – o Brasil tem mais
televisores do que geladeiras ! – com uma produção industrial de entretenimento comprometida
exclusivamente com a audiência e desinteressada de qualquer discussão sobre educação, arte, cultura, códigos
de ética, horários seletivos, etc.
Reduzir o quanto possa a esquizofrênica distância entre
educação e cultura é uma urgência nacional e preocupação pessoal de Alcione Araújo.
Alcione Araújo escreve a mais de vinte e cinco anos, peças de
teatro, roteiros de cinema, telenovelas e séries para televisão, romances e ensaios. É pos-graduado
em Filosofia. Foi professor de autores, diretores e atores, participou da fundação de cursos
e escolas de teatro. Também já foi diretor, hoje dedica -se a escrever (e fazer palestras).
Até onde alcanço, ok.
BIBLIOGRAFIA
Nem mesmo todo o oceano (romance) (1998)
Simulações do naufrágio – Volume I (1999)
Visões do abismo – Volume II (1999)
Metamorfoses do pássaro – Volume III (1999)
Coleção Dramaturgia de Sempre
Direção Alcione Araújo
A caravana da ilusão – vol.1 – Autor: Alcione Araújo
Os dous ou o Inglês Maquinista – vol. 2 – Autor: Martins Pena
Ó Abre Alas – vol. 3 – Autor: Maria Adelaide Amaral
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A MÍDIA EM DIÁLOGO COM A DIVERSIDADE
Geraldinho
Vieira
O jornalismo brasileiro vem, gradualmente, sintonizando-se
com a pauta da inclusão social.
Neste sentido, duas grandes áreas de mobilização têm sido,
nesta década, responsáveis pela consolidação de um novo olhar jornalístico sobre a desigualdade. São elas,
os direitos da criança e do adolescente e a responsabilidade social empresarial.
Para se ter uma idéia, em 1996 a ANDI - Agência de Notícias
dos Direitos da Infância registrou em suas pesquisas cerca de 9 mil reportagens sobre crianças e
jovens publicadas nos 48 maiores jornais do país e em 6 revistas de circulação nacional. Em
1999, este número cresceu para quase 49 mil reportagens.
Entre os temas mais abordados pela mídia jornalística,
Educação – neste período – foi aos poucos ganhando espaços e saltou de 12 lugar para o primeiro.
Atrás estão Saúde, Violência,
Direitos & Justiça e Terceiro Setor , mas o ranking da ANDI
classifica as reportagens em 15 diferentes “retrancas” – muitas delas com “sub-retrancas”.
Deve-se observar que entre os temas não citados encontram-se
muitas “pautas quentes” e que já estiveram nos melhores lugares do ranking, tais como
Exploração do Trabalho Infantil, Exploração e Abuso Sexual, Drogas, Mortalidade Infantil e Meninos(as) em
Situação de Rua, só para citar exemplos.
Segundo os relatórios da ANDI, a inversão de temas no ranking
deve-se sobretudo ao fato de que as grandes denúncias do início da década impulsionaram o
noticiário em torno dos temas que mais diretamente relacionam-se à soluções para os problemas
sociais. Desta forma, mais que discutir/ denunciar a presença de meninos nas ruas, a imprensa está se
dedicando a mostrar os esforços (e a cobrar) das políticas públicas quanto à universalização da
Educação.
O curioso é que todos estes temas têm uma linha de
crescimento quantitativo na década, mas alguns deles (os atuais primeiros colocados) cresceram de
forma muito mais acentuada.
Entre os temas com menor destaque quantitativo, está o que a
ANDI classifica como “Deficiëncias”, com cerca de 400 reportagens em 1999, ou
seja, pouco menos de uma reportagem por mês em cada grande jornal pesquisado. Destas, 37,68%
abordam o tema do ponto de vista da inclusão social; 14,98% tratam da inclusão na escola e 9,9%
debruçam-se sobre aspectos relacionados à saúde da pessoa com deficiência. O restante aborda questões
como esporte e outros aspectos de menor relevância.
Na Pesquisa Infância na Mídia (realização da ANDI em
parceria com o Instituto Ayrton Senna e com apoio do Unicef), “Deficiências” aparece com
maior número de reportagens do que Meio Ambiente, Mortalidade Infantil, Crianças Desaparecidas e
Meninos(as) em Situação de Rua.
Vale observar que entre os suplementos de jornais e revistas
dedicados à adolescência, a situação na se altera: ao lado de temas como Aids, Gravidez,
Protagonismo Juvenil, Sexualidade 9entre outros), “Deficiências” aparece em penúltimo lugar no
ranking, à frente apenas de meio Ambiente na
Pesquisa Os Jovens na Mídia (ANDI/Instituto Ayrton
Senna/Unesco) de 1999. Trata-se de uma média de apenas 1 reportagem por ano em cada um dos 31 veículos
(suplementos de jornais e revistas) pesquisados.
Vícios e desafios
Existem muitas formas de compreender por que o assunto está
lentamente ganhando espaço e também por que tal movimento é mais lento do que gostariam os
especialistas na área ou do que a urgência da inclusão necessita.
Entre tantas razões, talvez ocupe lugar de destaque uma certa
“invisibilidade”da pauta: as cidades estão de tal forma despreparadas para o conforto
daqueles que têm deficiências mais graves que estas pessoas simplesmente não estão nas ruas. E se não
estão nas ruas não causam impacto: não incomodam e não emocionam a população.
Outra razão diz respeito também à capacidade do atores
sociais (fundações, ongs e pessoas) em mobilizar encontros, protestos e alterações mais
significativas nas políticas públicas. Sem fatos – diz a regra geral – a imprensa não tem razões para cobrir.
Mas mesmo isso é relativo e, correndo o risco do trocadilho,
podemos dizer que depender tão claramente de fatos novos é uma deficiência da própria mídia.
E não seria exagero dizer que quanto mais escondida é a a pauta, melhor é a pauta e melhor o
jornalista que a trouxer à luz.
De qualquer forma, as fontes de informação precisam acordar
para o fato de que cada área social está brigando com outras, de igual relevância, por seu
espaço de legitimação pública (de mídia).
Com pouco contato com as fontes, a imprensa não saber como
cobrir a questão das pessoas com deficiências.
Quando o faz, comete erros como:
- a vitimização (“preso a uma cadeira de rodas”),
- a compensação (“compensa a falta de visão pelo
talento musical”)
- o exagero emocional (“só movimentando a cabeça e
preso a uma cadeira de rodas....se formou em Direitos pela Universidade...”).
- a capacidade reduzida (“ela é cega mas mora sozinha
há 15 anos”)
Como se não bastasse, multiplica-se a utilização de termos
politicamente incorretos que usualmente deixam os “especialistas” de cabelo em pé.
Com um quadro de fraca capacitação dos jornalistas para a
cobertura do tema, talvez ainda estejamos muito distantes do dia em que os jornalistas
saberão diferenciar, por exemplo, inclusão de integração. O que se pode dizer, hoje, é que eles, os
jornalistas, se formam a partir de um contato mais profissional e permanente com as fontes. E que as fontes
devem então profissionalizar sua relação com a mídia.
A qualidade da informação (em qualquer área) é uma resultante
da responsabilidade compartida entre as fontes e os jornalistas. E, claro, do curriculum
universitário. Infelizmente, nas faculdades de Comunicação os Direitos Humanos ainda são uma pauta
ignorada e os grupos sociais devem buscar forças para cobrar também que as universidades se
atualizem .
(*) Geraldinho Vieira é jornalista e diretor executivo da
ANDI - Agência de Notícias dos Direitos da Infância
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CULTURA POPULAR E INCLUSÃO
Franciscus van
der Poel Ofm
Diz o teólogo Clodovis Boff: - “A formação histórica do povo
brasileiro explica um traço especial, ainda que não exclusivo, da atual cultura
no Brasil: - a sua forte tendência para o sincretismo. O ‘brasileirismo’ pode
caraterizar-se através de uma capacidade particular pela arte combinatória, por
uma arguta capacidade de misturar, de mesclar tudo, de articular o um e o
múltiplo, de trabalhar com a lógica da inclusão, enfim, de privilegiar a
diversidade, a variedade e a complementariedade.” (BOFF, Clodovis.Frei. Nossa
Senhora e Iemanjá, Maria na cultura brasileira. Petrópolis, Vozes, 1995. p.8.)
INTRODUÇÃO
Apresentamos aqui alguns pensamentos surgidos na experiência
concreta da convivência com o povo.
Há quinze anos moro na antiga Colônia Sanatório de Santa
Isabel, em Betim-MG. Por isso, falo dos hansenianos e do Coral dos Tangarás de Santa Isabel.
Antes, morei em Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha (MG).
Durante dez anos, trabalhava na formação dos líderes das comunidades eclesiais de base,
fundei o Coral Trovadores do Vale, e dediquei- me à Irmandade de Nossa Senhora dos Homens Pretos de Araçuaí.
Quem pensa sobre a relação entre a cultura e a organização popular, se vê diante de uma
realidade complexa. Para progredirmos na reflexão é necessária a boa colocação dos problemas desde
o começo. [mostrar o bôbo da corte]
INCLUIR
“Inclusão” é um termo recente, que tem uma história que aqui
resumimos destacando os principais conceitos usados.
Nos anos anteriores à ditadura militar, visava-se a
“conscientização” dos direitos, surgiu o Movimento da Educação de Base(MEB) e Paulo Freire escreveu a
“Pedagogia do Oprimido”. A cultura popular, sinônimo da identidade de um povo, é considerada um
elemento básico para o desenvolvimento das comunidades e do País. Glauber Rocha e outros artistas do
Cinema Novo carregaram esta bandeira; assim como vários músicos e escritores.
Depois da ditadura, continuam a conscientização e a luta
pelos direitos. Intelectuais e religiosos partem do centro para a “periferia”, para viver a “inserção”
em meio aos “marginalizados”. - Enquanto na Igreja acontece a chamada “opção pelos pobres”,
valorizando-se a religiosidade popular, a teologia da “libertação”ainda não valoriza a cultura
popular. (O mesmo fazia o socialismo de Estado, na Europa.) A irreverência do carnaval, a fartura das
festas, a magia da umbanda, a paixão pelo futebol lhes pareciam estar atrapalhando a virada
revolucionária. Articulam-se movimentos contra a “discriminação” do negro e da mulher. Aos poucos, os
“marginalizados” passam a ser chamados de excluídos.
Num terceiro momento, surge maior respeito. Os “menores
abandonados” são chamados de meninos e meninas de rua, os “leprosos” insistem em ser
chamados de hansenianos, a “macumba” vira culto afro-brasileiro. Além disso, a luta anti-manicômio
visa a volta dos deficientes mentais à suas famílias e comunidades. Rampas em prédios públicos e o
acesso a próteses de boa qualidade facilitam a participação dos deficientes físicos na vida
social. Os hansenianos recebem o tratamento no posto de saúde da suas cidades e as colônias são
desativadas. Inicia-se assim a era da “inclusão” que significa uma
emancipação social, cultural e política.
Na minha experiência, vejo a luta do hanseniano, que visa sua
integração na sociedade, a peleja do pobre do Jequitinhonha para conseguir um nível de
desenvolvimento igual às outras regiões de Minas e o sonho dos negros das Irmandades do Rosário de ver a
memória da escravidão e da África e a sua experiência religiosa valorizadas nas igrejas cristãs. Tudo
isso faz parte da busca de uma sociedade inclusiva. Com urgência, precisamos de uma educação
inclusiva.
CULTURA POPULAR
No Vale do Jequitinhonha(MG), registrei parte da cultura
popular em 15.000 folhas datilografadas. O material classificado em pastas mostra a
vida do pobre do levantar ao deitar e do nascer ao morrer; e inclui, o trabalho da parteira, a vida da
criança, o tempo do namoro, a religião, o amor, o lazer e a festa, toda forma de trabalho, os perigos,
a defesa contra inimigos, as doenças, a sabedoria e a morte. Há cantos, histórias, rezas, provérbios
e muitas entrevistas. Observamos que o povo guarda suas coisas enquanto tiverem sentido na sua vida.
Para quem não é pobre, é difícil pensar a partir do pobre para compreender o porquê da reza da
espinhela caída, das simpatias e de muitos outros assuntos. Mas uma coisa é certa: A cultura é
vida. É o rico patrimônio dos pobres.
Outros aspectos essenciais: a cultura é vivida em comunidade
e tem tudo a ver com a história de cada grupo. Importante é lembrar que a história do pobre e
do deficiente não foi escrita. Isto fica muito claro no caso dos “leprosos”, nas colônias. Encontramos
a história dos médicos, dos padres e das religiosas em revistas e monumentos. Não encontramos a
história dos doentes(os suicídios na colônia; o que acharam dos tratamentos; quem fundou o
primeiro time de futebol) a não ser na memória deles próprios.
Fora disso, é importante lembrar que a cultura brasileira não
é uma coisa singular. De acordo com as classes sociais, a variedade racial e o lugar
geográfico, existe uma grande diversidade de culturas.1
Finalmente: A inclusão tem tudo a ver com a maneira de se
entender a sociedade brasileira como um todo. Enquanto continuar a injusta distribuição de
renda, enquanto houver excluídos, enquanto existir uma alienação forçada, será difícil falar de uma
cultura popular que expresse a união na diversidade do povo brasileiro. Na realidade, existem a
cultura da elite privilegiada, a cultura dos marginalizados, e uma terrível cultura de massa controlada
pelos poderosos donos da mídia. É necessário que sejam rompidas as correntes visíveis e invisíveis do
poder econômico que condicionam nosso povo. Na opinião do músico Leonardo Sá, “o caminho
alternativo não é apenas uma alternativa, mas o único espaço que nos resta. É nosso espaço real que
precisamos ocupar no sentido de compromisso, de engajamento.”2 Do outro lado, a cultura é
elemento de transformação. Isso nos permite acreditar que, através de um difícil amadurecimento
social e democrático haveremos de chegar a uma cultura que é nossa.
OS HANSENIANOS DA COLÔNIA DE SANTA ISABEL
Na ex-Colônia de Santa Isabel e no bairro anexo
Citrolândia(20.000hab.) moram cerca de 1500 pacientes hansenianos. O hanseniano ainda é
discriminado, embora estejamos convencidos que a melhoria do tratamento paulatinamente fará desaparecer
a feiura dos doentes e o medo exagerado do contágio.3 Numa política assistencialista, durante 50
anos, o governo providenciava casas, tratamento, alimentos, rede de água, eletricidade e esgoto,
mas tornava o doente socialmente inútil.
Hoje, muitos ex-doentes e não doentes pedem esmolas por carta
dizendo “estou neste triste leprosário, sem recursos, longe dos meus parentes, cumprindo a sorte que
Deus me deu”. Isto chama-se “bater gato”. Desta maneira eles mesmos continuam divulgando o
antigo estigma do doente confinado; e até hoje chegam em Santa Isabel as caravanas de vicentinos,
espíritas e outras boas almas distribuindo roupas, alimentos e esmolas, principalmente na época de
Natal. Boa parte dos pedintes não precisa destas doações. Muitos tem 3 ou 4 aposentadorias com nomes
diferentes. Outro tanto prefere pedir e não trabalhar.
Pois bem, nesta mesma colônia encontramos o Movimento da
Reintegração dos Hansenianos(MORHAN) que faz campanhas de esclarescimento
sobre os novos remédios e sobre os direitos do doente. No dia mundial do hanseniano, a entidade
organiza anualmente o “Concerto contra o Preconceito”. Além disso, mantém uma rádio
comunitária. O Coral dos Tangarás de Santa Isabel, fundado em 1936, ensaia 3 horas por semana, canta
música popular brasileira e religiosa. Já esteve várias vezes na TV, e seus 40 músicos doentes e não
doentes pretendem ser um pedaço de uma nova sociedade, na qual o doente seja respeitado e incluído.
Estamos preparando a gravação de um CD. O coral, cantando fora da colônia, representa a
comunidade dos doentes e mostra a dignidade do hanseniano.
Outro exemplo desta representatividade está na escola de
samba “Unidos de Citrolândia”, que faz parte da nossa comunidade. No carnaval de 1986, ela
ganhou o primeiro lugar entre as 5 escolas de samba convidadas pela Prefeitura de Betim. Imaginem o que
significa para o doente, marginalizado por defeito físico, ser premiado justamente na exibição do
corpo. Ora, antes do sucesso, a escola e seus ensaios não levavam boa fama. Era aquela turma
barulhenta, tropa sem vergonha etc. Após a vitória, observei o povo comentando: A escola de Samba de
Citrolândia ganhou! Outros diziam:
Nossa escola de samba ganhou! Alguns até falaram: Nós
ganhamos!
OS POBRES DO JEQUITINHONHA
Nas pesquisas em Araçuaí(1968-1978), tive a indispensável
companhia da amiga e artesã negra Maria Lira Marques Borges. Gravamos muitas músicas que
se tornaram o repertório do coral
Trovadores do Vale. Os membros do coral são pobres, cantam
músicas frequentemente gravadas com seus próprios pais. Nos anos de convivência com o grupo,
vi como é difícil fazer a turma acreditar que suas músicas têm valor. É que na cidade existe um
conceito de cultura que provoca no povo pobre um sentimento de inferioridade. Concretamente, fizemos
uma cantoria em São Paulo. Ao verem a dança dos batuques locais aparecer na TV, algumas pessoas
da alta sociedade de Araçuaí(se é que existe isso por lá) comentaram: - “Isto é só para
mostrar como Araçuaí é atrasada.” Para vencer isto dentro do coral, tivemos o apoio dos estudantes
do Campus Avançado(PUC.MG/ABC Paulista) que frequentavam os ensaios com entusiasmo. O coral
cantou no Programa Som-Brasil e hospedou-se no Othon Palace Hotel, em São Paulo. Em 1983,
ganhou o prêmio Entidade Cultural do Estado pelo Conselho Estadual de Cultura. Gravamos um LP,
etc, etc,. Aos poucos aprendi que ajudar o povo é, em primeiro lugar, dar valor àquilo que ele
já tem. Isso tentamos colocar em prática.
Ninguém no Coral entende a escrita musical. Mas nós
apresentamos as músicas do mesmo jeito que o povo nos ensinou. Para cantar folia, dançar batuque,
brincar de roda, nunca foi preciso conhecer a teoria musical dos conservatórios. O Coral tem um conselho
eleito de seis pessoas que se mostrou capaz de enfrentar qualquer problema do grupo. A secretária
faz a crônica dos Trovadores há 30 anos. É o pobre escrevendo a sua própria história. Há 23 anos
saí de Araçuaí, mas vejo o grupo caminhando com as próprias pernas. Também, pudera, nunca fiz
coisas que eles não pudessem fazer.
A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de
Araçuaí estava em vias de extinção. Tanto a Irmandade, como o grupo dos tamborzeiros
estavam sem estímulo e sem liderança expressiva. Em 1977, descobri por acaso o documento da
fundação da Irmandade datado em 1879.
Por isso, juntei tudo o que nas pesquisas registramos sobre a
cultura negra: documentos de venda de escravos na região, retratos e descrição da festa do rosário,
lista cronológica de reis e rainhas, costumes dos tamborzeiros, a triste história dos conflitos entre
Igreja e Irmandade etc., a fim de publicar um livro de 318 páginas para comemorarmos o centenário da
Irmandade. O próprio documento da fundação da Irmandade mandei encadernar em couro e ouro para
entregá-lo publicamente aos irmãos no dia da festa. A partir daquele momento, a Irmandade
começou a reviver. Os Homens Pretos, vendo valorizadas a sua história e sua cultura,
descobriram-se a si mesmos. Comparo isso com o que disse Eduardo Galeano, falando dos 500 anos da chamada
‘descoberta da América Latina’: “Pareceme porém evidente que a América não foi descoberta em 1492, do
mesmo modo que as legiões romanas não descobriram a Espanha quando a invadiram no ano
218 A.C. E também me parece de cristalina evidência que está em tempo de a América
descobrir-se a si mesma. (...) A história oficial com seu elitismo e racismo desfigura o passado. Para que
ignoremos o que podemos ser, ocultam-nos e mentem-nos o que temos sido”.4 Fato é que a Irmandade do
Rosário recentemente festejou o Centenário da Abolição(1988) com uma participação popular e uma
consciência negra vigorosa antes inimagináveis em Araçuaí. É o negro, ele mesmo, valorizando a
sua cultura. O antropólogo Carlos Rodrigues Brandão, analisando 100 questionários com 28
perguntas respondidas por negros de Araçuaí há 11 anos, chama a atenção pelo fato de que a consciência de
valor próprio e o conhecimento da história e da cultura estão mais fortes entre os negros
organizados nos terreiros de umbanda e na Irmandade de Nossa Senhora do Rosário daquela cidade.5
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Reforçamos a pluralidade da cultura popular e a necessidade
da união na diversidade. A inclusão significa: participar. O hanseniano integrado na sociedade
não vai deixar de ser hanseniano, nem para si, nem para a sociedade.
Em muitos doentes, a exclusão prejudicou o equilíbrio
emocional. Criou agressividade e carência.
Encontramos hansenianos que optam pela autodiscriminação. A
participação do deficiente também é ameaçada pelo assistencialismo que cria e mantém
dependência. Não é fácil chegar a uma sociedade inclusiva.
Também na própria sociedade encontramos problemas. Em Santa
Isabel, observamos que muitos benfeitores carismáticos em seu discurso colocam a solução
dos problemas no céu, e que os espíritas colocam a causa do sofrimento do hanseniano no
passado, numa outra vida, fazendo caridade para tornar-se um espírito de luz; mas não entregam seus
privilégios, sendo extremamente conservadores social e politicamente. É preciso que pobres e deficientes
lutem pela mudança da sociedade.
A cultura popular é vida, é dinâmica. Mas seu desenvolvimento
não é um processo neutro. A história e a cultura de pobres e deficientes são pouco
conhecidas na educação formal. Além disso, a massificação, a globalização, os meios de comunicação
controlados por grupos interesseiros ameaçam a sobrevivência desta cultura.
Na cultura popular, a resistência poucas vezes é explícita:
[tocar violão]
- Palmatória quebra dedo/ chicote deixa vergão/ Cassetete
quebra costela/ mas não quebra opinião.//( Verso de roda)
- O dinheiro de São
Paulo/ é dinheiro excomungado/ Foi o dinheiro de São Paulo/ que levou meu namorado.//(Roda)
- Esses pretos se soubessem/ a força que o negro tem,/ não
atoleravam/ cativeiro de ninguém.//
(Congado)
- Os filhos dos ricos/ em berço dourado/ e Vós meu
Menino,/ em palha deitado.//(Bendito de Natal)
Mais comum é a resistência implícita que está no própria fato
da cultura existir. Explico melhor:
Enquanto as farmácias estão cheias de remédios sintéticos, a
medicina popular continua usando as plantas medicinais. Enquanto o radio toca musica em
inglês, continua o samba de roda, a catira, o beira-mar, o acalanto em português. Enquanto as
lojas estão cheias de vasilhames de alumínio e de plástico, subsiste o uso de panelas de pedra e butijas
de barro.
Muito falamos da história. Escrever a história é uma questão
política. A historiografia moderna conta a história do povo e não apenas de uma elite vitoriosa.
O primeiro trabalho de promoção de uma comunidade ou grupo é escrever a sua história.
E para terminar, solidarizando-me à fé dos pobres do
Jequitinhonha e dos doentes de Santa Isabel, digo: “Vamos gente! O pouco com Deus é muito!”
NOTAS:
1) Existe diversas culturas brasileiras. Segundo Alfredo
Bosi, “estamos acostumados a falar em cultura brasileira, assim, no singular, como se existisse uma
unidade prévia que aglutinasse todas as manifestações materiais e espirituais do povo brasileiro. Mas
é claro que uma tal unidade ou uniformidade parece não existir em sociedade moderna alguma e, menos
ainda, em uma sociedade de classes”.( BOSI, Alfredo. Dialética da Colonização. São
Paulo, Comp.das Letras, 1987. p.308.)
2) Boletim do Centro Latino-Americano de Criação e Difusão
Musical. No1. 1988. Belo Horizonte. p.9.
3) Excelente análise destes preconceitos encontramos em:
Abreu, Eduardo. Dr. Hanseniase,um estigma através da história. Betim, l984 (manuscrito).
4) Galeano, Eduardo. “O Jaguar Justiceiro”. In: Sem
Fronteiras. Março l989. Páginas 28 e 30.
5) Marques, Maria Lira Borges. Gontijo, Altina Maria. Poel,
Francisco van der. Brandão, Carlos Rodrigues. Ser Negra No Vale. São Paulo/Araçuaí. l989.
(manuscrito) - pág. 92.
BIBLIOGRAFIA:
FRIAS, Jorge Reyes. Cultura Popular. Lisboa, Edições do
Instituto de Formação Social e do Trabalho, 1977. 100 págs. (Coleção Labor: nº4)
VALLE, Edênio e QUEIROZ, José J.(Org.) A Cultura do Povo.
(3ªEd.) São Paulo, Cortez, 1981. 144 págs. (Coleção do Instituto de Estudos Especiais Nº1)
BRANDÃO, Carlos Rodrigues.(Org.) Pesquisa Participante.
(3ªEd.) São Paulo, Brasiliense, 1983. 212 págs.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. (8ªEd.) Rio de Janeiro,
Paz e Terra, 1980. 218 págs. (Coleção O Mundo Hoje. Vol.21.)
MAURÍCIO, Ivan. Arte Popular e Dominação. (O caso de
Pernambuco: 1961-1977). Recife, Ed.Alternativa, 1978. 108 págs.
MINAS GERAIS. Univ.Católica. Arte Popular na Periferia de
Belo Horizonte. Belo Horizonte, UCMG, 1981. 116 págs.
ARANTES, Antônio Augusto. O Que É Cultura Popular. (3ªEd.)
São Paulo, Brasiliense, 1982. 84 págs. (Coleção Primeiros Passos. Nº36.)
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O Que é Folclore. São Paulo,
Brasiliense, 1982. 112 págs. (Coleção Primeiros Passos. Nº60)
CHAUI, Marilena. Conformismo e Resistência, aspectos da
Cultura Popular no Brasil. São Paulo, Brasiliense, 1986. 180 págs.
POEL, Francisco van der. O Rosário dos Homens Pretos. Edição
comemorativa do Centenário da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de
Araçuaí. Belo Horizonte, Imprensa Oficial, 1981. 318 págs.
POEL, Francisco van der. Os Homens da Dança. Religiosidade
Popular e Catequese. São Paulo, Ed.Paulinas, 1986. 56 págs.
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RESUMO DA COMUNICAÇÃO
Reflexões em Torno de Três Histórias
Cáscia Frade
Esta comunicação pretende apresentar reflexões sobre as
histórias de vida de três pessoas - Felipe, Paulo e Jozué. Uma criança, um jovem , um adulto.
Distantes no tempo e no espaço, nunca se viram nunca se falaram. Um jamais soube da existência dos
outros. A vida, porém, ao traçar suas trajetórias, estabeleceu pontos de convergência. Foram
marcados por limitações que os tonaram diferentes: uma de ordem neurológica; outra, emocional;
outra, física. Vivendo em suas comunidades de origem, apresentavam dificuldades em desempenhar a maioria
das atividades desenvolvidas pelos indivíduos que compunham seus grupos de idade. Sofriam
pela indefinição de seus espaços sociais e o conseqüente sentimento de não pertencimento a
nenhum segmento social. Graças à interferência de pessoas da própria comunidade - um professor
oficial e dois mestres populares, cada um por sua vez - um mundo de afeto, de aconchego, mágico e
lúdico, despontou. Paulo viu reconhecida sua habilidade em lidar com materiais cerâmicas; Felipe pode
revelar sua capacidade expressiva através da dança; Jozué integrou-se a seu grupo através da
participação em rito tradicional. A cultura popular assim tornou possível a emergência do
protencial criativo, que aproxima e inclui homens no universo expressivo da arte.
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TEORIA E PRÁTICA EM ARTE-EDUCAÇÃO INCLUSIVA
Laís Aderne
De 1961 a 1964 participei de uma experiência aberta de Arte e
Educação com jovens na Escolinha de Arte do Brasil, de Augusto Rodrigues, tendo como
diretora pedagógica Noemia Varela e contando com a orientação da Dra. Nise da Silveira da área
de Psicologia. Em paralelo a este trabalho, assumi o curso de xilogravura para jovens e
adultos. Nessas duas experiências de trabalho integramos alunos portadores de necessidades especiais
(excepcionais ou com distúrbios mentais, auditivos ou múltiplos).
Essas experiências marcaram minha vida profissional e me
fizeram refletir sobre o papel da Arte no desenvolvimento das diferentes funções psíquicas de
cada indivíduo; atuando, assim, no campo do consciente, subconsciente e inconsciente;
possibilitando a manipulação e, até mesmo, o domínio das funções predominantes e opostas de cada aluno, de
acordo com as teorias de Carl Gustav Jung; descobrindo que integrar alunos regulares com
portadores de necessidades especiais favorecia o crescimento e o desenvolvimento de todo o grupo
de forma espantosa.
Enfocando alguns casos especiais:
•Um jovem de 12 anos chegara à oficina com grande perda
auditiva causada por choque de penicilina e ao ser apresentado ao grupo tapou os olhos e
ouvidos com as mãos, mostrando literalmente sua falta de vontade de nos ver e ouvir. Suas pinturas não
apresentavam casas ou figuras humanas e seus céus tinham cores escuras como o marrom, mas
estas características caíram por terra em cerca de 2 meses, quando passou a ser como um
relações públicas para o grupo. No final do ano tinha recuperado 40% da audição e seu último trabalho foi
uma xilogravura com casario de portas e janelas abertas e uma ciranda com crianças.
•Um jovem surdo-mudo e esquizofrênico estava tão integrado ao
grupo que fazia questão de participar dele efetivamente. Nas comemorações de final de
ano, quando uma aluna trouxe poemas seus para declamar ele fez sinal com a mão para que esperasse
e sentou-se ao piano começando a tirar acordes tão maravilhosos, enquanto acompanhava os
lábios da colega, que todos ficaram emocionados e intrigados, questionando se ele estudava ou não piano.
Apoiada nessas e em outras experiências, nos pressupostos
teóricos e na leitura de mundo de Ferdinand Tönnies (Comunidade e Sociedade); de Jung (as
funções psíquicas, o inconsciente pessoal e coletivo e os arquétipos); de Fritjof Capra e Gregory
Bateson (o pensamento sistêmico, o princípio dinâmico da auto-organização e a visão da realidade); de Mac
Lean e W. de Gregory (o cérebro triádico e os princípios da cibernética social) criamos nossa
concepção de Educação e Informação para a inteireza, que chamamos de Teoria e Prática da
Interatividade.
Essa concepção, como a nova ciência, deverá ser sistêmica
integrando as diferenças através do uso das três partes do cérebro, buscando ampliar o seu
percentual de uso, restrito a cerca de cinco por cento, especialmente a partir do lado direito, criativo e
sensível. Essa busca leva à interação dos opostos através de métodos construtivos, apoiados pelas
teorias do cérebro triádico acima citadas, e de propostas multiculturais aliadas a uma prática
transdisciplinar.
Dessa forma a arte-educação inclusiva e a alfabetização
estética se confundem neste novo momento com a eco-alfabetização, preconizada pela Ciência
Nova, envolvendo a pedagogia, a arte, a ciência e a tecnologia a serviço da formação de todos os
cidadãos, sem exclusão, conscientes de seus direitos/deveres e sua relação de seres pertencentes à
natureza, com o restante do universo.
Tudo isto é ainda uma incógnita para este jovem homem, quase
recém-nascido, de um milhão de anos, que precisa desvestir sua couraça metálica e
reconhecer-se como uma criança, que precisa aprender sobre si mesmo e sobre o universo do qual faz parte,
como parcela integrante desse sistema terrestre.
A atual fragmentação e distorção do sistema de educação e de
informação, que impede este aprendizado, está centrada no que Paulo Freire afirmou como
sendo o maior problema da Educação Brasileira: “a dicotomia entre o fazer e o pensar, entre a
prática e a teoria”. Acrescentamos a essas áreas citadas por ele o “sentir”.
Na Teoria e Prática da Interatividade consideramos que
restabelecer a difícil relação entre fazer, pensar e sentir é o primeiro passo em direção aos novos
paradigmas de uma educação e informação inclusivas que desencadearão a necessária mudança do velho
para o novo momento da humanidade, construindo uma sociedade para todos.
A nova visão científica é conectada com as filosofias e
tradições e mostra que os sistemas vivos são todos integrados, desde a menor bactéria aos animais e
vegetais maiores, até o homem e o planeta terra. Portanto, não são apenas integrados os
sistemas isolados, como o corpo humano ou o grão de cevada, mas também os sistemas globais, como a
floresta, a família, a comunidade e a sociedade, tão referenciados por Tönnies em sua leitura de
mundo. Trabalhamos a interação dessas diferentes partes dos sistemas globais humanos a partir de
uma educação voltada para o auto-conhecimento e a percepção do outro e do meio e rompendo as necessárias
barreiras que nos impedem de entrar neste ponto de mutação.
A arte, como carro chefe do processo de desenvolvimento das
grandes civilizações, tem papel de destaque nessa educação integradora e transformadora. Este
é o início da grande aventura da auto-descoberta e do respeito às diversidades; nessa aventura
o papel da Arte é criar situações no processo de educação que instiguem a curiosidade, a dúvida e
o espírito de pesquisa, a percepção, a sensibilidade... enfocando a estética, a ética e a ecologia
como eixos norteadores desse exercício da cidadania solidária e do princípio da “Unidade na
Diversidade”
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TEORIA E PRÁTICA EM ARTE-EDUCAÇÃO INCLUSIVA PALESTRA
Roberta
Puccetti Polizio Bueno
A necessidade emergente de análise no processo educacional e
na qualidade de ensino está presente e vem sendo foco de atenção, estudos e pesquisas.
Este trabalho objetiva abordar pontos relevantes que envolvem
a formação dos profissionais, considerando-a como processo, enfatizando a relação entre
teoria e prática e a formação contínua.
Aponta a Arte-educação e sua importância no processo de
ensino e aprendizagem, bem como na construção do conhecimento inserido em uma concepção de
educação inclusiva. Ressalta a extrema importância de vincular e relacionar a problemática da
dicotomia entre teoria e prática a uma conceituação de formação. Propõe estruturas para discussões
sobre a formação dos profissionais e o delineamento dos objetivos estruturais e conceituais que
regerão e fundamentarão a formação do futuro professor para o ensino das Artes.
A principal meta do estudo é a formação do professor de
artes, incluindo os profissionais da educação especial. Visa reflexões e discussões referentes a
esta formação, tendo como pano de fundo o papel e a importância da arte na formação integral do
indivíduo.
A formação de professores é vista de uma maneira mais ampla e
abrangente quando a consideramos como processo, processo esse que envolve e engloba o sujeito
como um todo. Elege -se, portanto, um processo inclusivo e dinâmico.
Logo, se a formação está ligada ao ser ativo, está
indissociável da experiências, vivências e troca de investigações diretamente articuladas, as quais
constituem “ bagagem “ para formação.
Deste modo, a formação passa pela inovação e pela
transformação. O profissional competente possui a capacidade de auto-desenvolvimento reflexivo, de ação e
reação, reflexão e mudança-transformação contínua.
Há necessidade de uma formação mais ativa, contínua e
inclusiva, sobretudo de ação e transformação.
Ressalta-se aqui, para tanto, a importância da
conscientização dos docentes, dos profissionais, e das instâncias administrativas, quanto à relevância da arte
na formação da cidadania e de sua contribuição no processo de desenvolvimento humano e
histórico, a necessidade de ação – transformação.
Para isso, enfatiza-se a arte como objeto de pesquisa, de
estudos e experimentações, integrando- a teórica e praticamente, inserindo-a numa concepção de
educação inclusiva.
Como a formação não termina na graduação, a formação contínua
é uma oportunidade histórica desencadeadora das relações entre o social, profissional e as
instituições. É um processo que inter-relaciona a prática<->conhecimento<->prática, processo
dialético e necessário para uma prática docente efetiva. As reflexões sobre a dicotomia,
entre teoria e prática e suas relações devem primeiramente passar pela conceituação e visão de formação.
Necessita, por conseguinte, o Ensino da Arte, na formação do profissional, estar contemplando
essas relações para desencadear a necessidade de conhecimento, pesquisa, experimentação e ação,
estabelecendo assim, relação entre ensino e aprendizagem.
É partindo desses pressupostos que enfatizo a relação entre
arte e educação na concretização e importância da arte como forma, a intelectualidade da Arte ,
a arte como construção, como linguagem, estas questões estão relacionadas com as concepções sociais,
ideológicas, filosóficas, articuladas a uma concepção de mundo.
Para tanto, a educação, especialmente no campo artístico, não
é uma atividade neutra, mas envolve expressão pessoal de valores, sentimentos e
significações, estando presente, na relação entre cognição e linguagem. A linguagem é a manifestação do
pensamento e tem um papel constitutivo da cognição. No entanto, pensamento é comportamento, o
comportamento opera sobre o meio por intermédio da linguagem verbal ou não-verbal. Considera-se linguagem
como representação da idéia interagindo com a percepção e cognição. A cognição envolve
expressão, interpretação, compreensão e transmissão como funções representativas da linguagem -
comunicação. A linguagem é derivada das lógicas do pensamento – da função simbólica ou semiótica
e da capacidade de representar.
Contudo, verifica-se a relevância da reflexão sobre o ser, o
seu desenvolvimento, não apenas como processo de evolução mas considerando os aspectos que o
envolvem: o cérebro e a mente na sua corporeidade nas capacidades de adaptação, a linguagem e
o seu papel constitutivo e de expressão, no conceito de pensamento e cognição do indivíduo, de ensino
e aprendizagem projetando a transformação.
Inserida em um processo histórico - social, a Arte se
relaciona com o processo educacional de forma dinâmica. A ação pedagógica do ensino de Arte está
impregnada de concepções envolvendo uma formação teórica que pressupõe uma concepção de homem e
de mundo, envolvendo questões desde a sua existência, processos vitais e cognição,
inteligência, passando pela comunicação, informação, conhecimento, permeando a construção de um novo paradigma,
chegando à aprendizagem e às relações que envolvem o aprender e o aprendiz.
Essa relação do real (contextual) com o saber implica na
construção do conhecimento, do conhecimento significativo, que se faz partindo do
estabelecimento de relações. Acredita-se na construção do conhecimento, no qual o ensino - aprendizagem se faz
partindo do sujeito, de sua realidade contextualizada e, dentro dessa, a formação se faz
considerando e valorizando o ser global, um ser social, cultural, histórico, criativo e transformador.
É nessa visão que arte não é uma atividade neutra.
A mudança de paradigma nos remeterá a possíveis reformulações
da concepção de homem, de mundo, de educação, constituindo um novo olhar para o
ensino de arte nos conduzindo à uma reflexão da ação, permitindo a real relação entre
teoria e prática.
Segundo Varela, “O conhecimento se constrói sobre a base de
um novelo de ações e é sobre a lógica desse entremeado de ações que é preciso agir para
poder, justamente, abri-lo para a flexibilidade e a transformação”. Essa ação incorporará uma mudança de
olhar, uma ação imersa em expectativas, transpondo os desafios, repleta de
ousadia. Isso nos remeterá também à necessidade de lançarmos, sobre o aluno e o professor um olhar que nos
permitirá conhecê-los além, na suas diferenças, como sujeitos que, interagindo com seus interlocutores,
apropriam-se de formas culturalmente organizadas de ação, constituindo-se sujeito de seu próprio
desenvolvimento, capazes de utilizar-se da arte para tal, e assim atribuindo-a seu real papel.
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PAINEL
ACESSIBILIDADE AOS ESPAÇOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS
Verônica
Camisão
Hoje , demanda-se cuidado especial para que os espaços
destinados a manifestações artísticas e culturais e os próprios objetos de arte em si, sejam
acessíveis a um público cada vez mais amplo.
Passamos a considerar por exemplo, que as peças expostas em
um museu possam ser apreciadas por crianças, levando-se em conta sua estatura e que uma
exposição de pinturas deva ser compreendida por uma pessoa cega.
O Espaço Museu da Vida, na Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de
Janeiro, foi concebido para informar e educar em ciência, saúde e tecnologia, de forma
lúdica e criativa, através de exposições permanentes, atividades interativas, inclusive em grandes
áreas ao ar livre, multimídias, teatro, vídeo e laboratórios. A análise sobre a acessibilidade solicitada
pelo próprio museu, um espaço interativo de ciências, com tal amplitude e riqueza de propostas,
tornou- se um interessante desafio para o
Centro de Vida Independente do Rio de Janeiro, que enfocou o
projeto através do reconhecimento das diferenças físicas e sensoriais entre os indivíduos e as
modificações pelas quais passa o nosso corpo desde a infância até a velhice. Com este olhar,
estudou-se cada espaço, atividade e equipamento, percebendo suas possibilidades para um público diversificado
e sobretudo, real: uma pessoa idosa que enxerga pouco, uma pessoa em cadeira de rodas, uma
criança surda.
Lidamos com diferentes níveis de possibilidades. Há o espaço
tombado historicamente- com exigências a serem contornadas; o recém construído- muitas
vezes sem acesso; e o que se encontra em fase de projeto, oferecendo todas as oportunidades. O
Espaço Museu da Vida se apresenta como um projeto arrojado no panorama da educação e da cultura
científica nacional. A análise de acessibilidade, a ser implantada, pretende conferir subsídios para que as
instalações do Museu potencializem ao máximo seu aproveitamento pelo público.
De modo geral, buscam-se nos museus, algumas diretrizes que
garantam acesso e interação de maior gama de visitantes:
· Como matéria-prima, a informação deve ser assegurada a
todos os visitantes, inclusive às pessoas com deficiência visual, auditiva ou motora. Esta deve
ser a prioridade, garantindo-se também seu acesso a todo material informatizado.
· Devem haver mapas táteis, material em braille e sistema de
audiotape explicativo ao longo do circuito das exposições.
· Tão importante quanto a acessibilidade do espaço, é a
recepção adequada ao usuário com necessidades especiais, e nos referimos a todos os
funcionários que lidam com o público, sem exceções.
· Em licitações ou concursos, para projetos e lay-outs de
museus e exposições deverá ser exigida a observância das normas técnicas de acessibilidade, como
pré-requisito.
Acessibilidade, bastante difundida em alguns países, ainda é
assunto recente no Brasil, mesmo nas grandes cidades. Lidamos com barreiras acumuladas há anos
por nossa cultura e às vezes conseguimos apenas suavizá-las. Percebemos como, com alguma informação
adicional prévia, fantásticas instalações e exposições nacionais e internacionais seriam
aproveitadas por um maior número de pessoas e como com pequenas modificações, muitas delas
podem tornar-se plenamente adequadas.
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ACESSIBILIDADE AOS ESPAÇOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS
Louise Ritzel
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional –
Iphan tem a responsabilidade constitucional e legalmente definida de valorizar, promover e preservar bens
tombados, dentre os quais se incluem espaços artísticos e culturais, representados por
imóveis isolados, sítios e conjuntos históricos e sítios arqueológicos e naturais.
Os espaços artísticos e culturais, protegidos para as
gerações atuais e futuras, constituem-se fonte de experimentação estética e de conhecimento e
compreensão do passado e do presente.
A experiência e o contato direto com as evidências e as
manifestações da cultura, proporcionam aos cidadãos tornarem-se sujeitos ativos no processo de
conhecimento e apropriação, estimulam a conscientização da importância do nosso patrimônio cultural
e a co-responsabilização por sua preservação e guarda.
Para a compreensão dos bens culturais, uma parcela da
população, a de portadores de deficiência, argumenta com razão que, em primeiro lugar, é necessário que
todas as pessoas possam dispor de acesso físico irrestrito às edificações, sítios e
seus acervos.
O Iphan reconhece a sua responsabilidade em garantir a
efetividade do direito de conhecimento e fruição dos bens culturais pelas pessoas portadoras de
deficiência.
O tratamento da questão é promovido, realizando uma abordagem
refletida e estruturada para uma progressiva eliminação de barreiras em edificações e
sítios urbanos, de forma que não acarrete a descaracterização desses bens nem ameaçe a sua integridade
estrutural.
Com vistas a deflagrar um processo de enfrentamento desta
questão, o Departamento de Proteção do Iphan elaborou uma proposta de plano de ação
interdepartamental, que foi bem acolhida e aprovada pelas unidades do Instituto.
O objetivo desse Plano de Ação é realizar ações integradas
com a participação das diversas áreas do Instituto, de modo a incorporar a questão
acessibilidade na prática institucional.
Uma Instrução Normativa, que define diretrizes, critérios e
recomendações para promover condições de acessibilidade universal aos bens culturais imóveis, foi
elaborada por um grupo de trabalho interdepartamental, com base em manuais, legislação e outros
documentos nacionais e internacionais.
Esse normativo recebeu valiosas contribuições externas, em
especial no decorrer do Curso e Encontro Técnico sobre Acessibilidade – Turismo e Patrimônio
Cultural Tombado, organizado e realizado em Brasília, em novembro de 1999, pela
Coordenadoria Nacional de Integração da Pessoa Portadora de Deficiência – CORDE, da Secretaria de Estado dos
Direitos Humanos, do Ministério da Justiça e pelo Real Patronato de Prevención y de Atención a
Personas com Minusvalia, da Espanha.
Inicialmente, instrumentos de análise e de acompanhamento
serão elaborados para a realização de diagnósticos sobre as condições de acessibilidade, real e
potencial, em bens culturais imóveis e registrá-los por ocasião de inventários.
Os grupos representativos e qualificados nos aspectos sociais
relativos à questão das pessoas portadoras de deficiência deverão participar do processo de
intervenção em acessibilidade, com vistas a identificar e responder às preocupações da
comunidade e elaborar em conjunto alternativas e avaliar ou revisar a aplicação de soluções técnicas.
Os imóveis serão adaptados gradualmente, de acordo com a
disponibilidade de recursos e com a ordem de prioridades estabelecida pelas Superintendências
Regionais.
As propostas deverão basear-se em levantamentos: histórico,
físico, iconográfico, que indiquem a forma de promover adaptações ou ajustes que sejam
compatíveis com o imóvel, resguardem a sua integridade estrutural e impeçam a descaracterização do
ambiente natural e construído.
Na medida em que os estudos indicarem, as intervenções em
acessibilidade deverão objetivar garantir às pessoas portadores de deficiência:
- percorrer todos os espaços de uma edificação, sítio ou
conjunto histórico, por meio de um percurso contínuo e chegar ao local de destino;
- participar de todas as atividades abertas ao público.
Nos casos em que os estudos indicarem áreas ou elementos em
que não seja possível promover alterações no imóvel inviabilizando adaptações deve ser
garantido o acesso virtual, por meio de informação visual, auditiva e tátil de áreas ou elementos com
impedimento de acesso.
As intervenções do Instituto relativas à acessibilidade serão
realizadas, através de um novo paradigma de desenho, universal, já adotado em diversos
países, também na área do patrimônio cultural e que busca atender a formas integradoras de
convivência.
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SALA DE CONVIVÊNCIA SOLAZER
Nome: Marta Graciela
Pereyra Rossiello
RESUMO DO CONTEÚDO DA APRESENTAÇÃO DA OFICINA “ BRINQUEDOS ARTESANAIS”
Marta
Graciela Pereyra Rossiello Fonoaudióloga - Gerente de Projetos
Marlene Morgado - Pedagoga
1. Brinquedo- Desenvolvimento e aprendizagem.
A importância de brincar
Significado do brinquedo para a criança
Desenvolvimento da linguagem
Desenvolvimento da sociabilidade
O brinquedo e as deficiências
2. Sucata - Desafio à criatividade
Conhecendo suas possibilidades
A coleta da sucata
A limpeza do material
O armazenamento
3. Critérios para escolha de brinquedos
Interesse
Adequação
Apelo à imaginação
Versatilidade
4. Trabalho prático
Construção de brinquedos artesanais
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OFICINA DO TEATRO POPULAR - DINÂMICA
Alexandre
Santiago
O Teatro Popular recupera, fundamentalmente, a
identidade cultural do indivíduo e do coletivo. Para que essa técnica possa ser bem desenvolvida é
necessário conhecer a realidade dos vários segmentos da comunidade em que atuamos: costumes,
raízes musicais, alimentação, posição geográfica etc, para que o texto possa ser adaptado. É uma
técnica participativa onde cada um contribui para que a ação a ser desenvolvida seja bem
sucedida.
Oficina
Dinamizador: Alexandre Santiago - Ator
Teatro Popular - uma contribuição efetiva para um
planejamento educacional dinâmico.
Desenvolvimento do Trabalho
1 - O teatro - sua origem e suas representações
2 - Teatro improvisado na escola e na comunidade
3 - Teatro Temático
4 - Expressão corporal
5 - Improvisação de cenário
6 - A importância da maquiagem - escolha e uso do
material na caracterização dos personagens
7 - Adequação ao roteiro musical
8 - Dramatização
Programação: SÓLAZER - O CLUBE DOS EXCEPCIONAIS
Oficina: Máscaras
- Histórico; Simbolismo; Criação
- Uso na Educação, na Arte e no Lazer
- Dramatização
- Técnicas de Confecção
• Recortes de perfis em papel
• Modelagem com massas ou argila
• Modelagem e cópia com papel
• Modelagem com gaze gessada
Objetivos:
- Estimular o desenvolvimento de habilidade
- Desenvolver o potencial criativo dos participantes na
Escola para Todos
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CONCLUSÃO DO VIII FÓRUM NACIONAL DO ENSINO DE ARTE
FEDERAÇÃO DE ARTE-EDUCADORES DO BRASIL - FAEB
Os arte-educadores reunidos no VIII Fórum Nacional do Ensino
de Arte da Federação de Arte-Educadores do Brasil, realizado no dia 09 de novembro de
2000, na cidade da Brasília, como parte do V Congresso Nacional de Arte-Educação na Escola para
Todos, vêm apresentar as conclusões do Fórum e solicitar às Entidades Oficiais providências no
sentido de corrigir distorções constatadas na implementação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional, no que se refere ao Ensino de Arte (art.26§ 2º).
1) A nomenclatura que ficou estabelecida pela LDB e os
Parâmetros Curriculares Nacionais para a área é ARTE. Equivocadamente, a Resolução CEB nº 2 de
07 de abril de 1998, mantém a denominação Educação Artística para o Ensino de Arte,
contrariando a Lei e os Parâmetros.
2) A obrigatoriedade do Ensino de Arte, também estabelecida
pela LDB, está ameaçada pela interpretação distorcida que a ela vêm dando alguns Conselhos
Estaduais, por exemplo, introduzindo a Arte apenas no primeiro ano do ensino fundamental e no
primeiro ano do ensino médio, descumprindo a expectativa da Lei.
3) Também, equivocadamente, em nome da interdisciplinaridade,
as Secretarias de Educação estão determinando que professores de História, Língua
Portuguesa ou Literatura assumam os conteúdos de Arte, que precisam ser trabalhados por
professores especialistas nas linguagens artísticas específicas, Artes Visuais, Música, Teatro e Dança, como
preconizam os Parâmetros Curriculares Nacionais.
4) A pluralidade cultural, característica marcante do povo
brasileiro, precisa ser tratada em sua verdadeira dimensão de interculturalidade, envolvendo os
aspectos raciais, étnicos, de gênero, assim como diferenças físicas, mentais e sociais.
Propicia-se, assim, uma educação realmente inclusiva.
5) É preciso ser dada atenção à formação inicial e permanente
do professor, para que o Ensino de Arte apresente a qualidade necessária e específica
das linguagens artísticas. Da mesma forma, no momento em que a Educação Inclusiva está sendo
implementada, é necessário que os Cursos Superiores incluam, na estrutura curricular, uma
disciplina que aborde a questão da Educação Especial. Reiteramos nosso pedido de atenção e providências
aos Órgãos Oficiais das várias instâncias, para a correção das distorções e enfatizamos a
necessidade de medidas que viabilizem a real qualidade do ensino.
Brasília, DF., 10 de novembro de 2000
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