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Artigos enviados pelo Artista Plástico, Poeta e Arquiteto Almandrade
Saiba mais sobre este
Artista!
Almandrade (Antônio Luiz M. Andrade)
Artista plástico,
arquiteto, mestre em desenho urbano e poeta. Participou de várias mostras
coletivas, entre elas: XII, XIII e XVI Bienal de São Paulo; "Em Busca da
Essência" - mostra especial da XIX Bienal de São Paulo; IV Salão Nacional;
Universo do Futebol (MAM/Rio); Feira Nacional (S.Paulo); II Salão Paulista,
I Exposição Internacional de Escultura Efêmeras (Fortaleza); I Salão Baiano;
II Salão Nacional; Menção honrosa no I Salão Estudantil em 1972. Integrou
coletivas de poemas visuais, multimeios e projetos de instalações no Brasil
e exterior. Um dos criadores do Grupo de Estudos de Linguagem da Bahia que
editou a revista "Semiótica" em 1974.
FALAR DA OBRA DE ARTE
"Aquele que lê minhas
palavras as está inventando"
(J. L. Borges)
Ainda bem que, o que se diz sobre uma obra de arte, é fantasia, só faz
suscitar algumas dúvidas que servem apenas como material de reflexão.
Pintar, por exemplo,
é um ato difícil que exige do artista método e sentimento, gestos:
violentos, lúdicos, suaves, contraditórios, inocentes e paradoxais... Tudo
para ocupar um espaço branco cheio de história, campo de pouso do enigma do
belo. É o drama da pintura, ou melhor da arte.
A obra de arte é muitas vezes, uma superfície para o olhar pretensioso do
observador arremessar inquietações e localizar fantasmas. Se quem olha
inventa realidades, quem escreve imagina no texto verdades suspeitas, que
apenas aproximam ou interrogam o trabalho do outro. Recomenda-se ficar em
silêncio, para se escutar o diálogo dos personagens que desenham a paisagem
do objeto de arte. Eles fazem parte da memória da arte. Escutar o som que
vem das cores, das formas e das linhas e os acordes de um movimento brusco
de um pincel, que deixa rastros que marcam a certeza e a incerteza da mão.
Estamos sempre falando para inventar um discurso sobre o trabalho do outro,
mas ele está sempre do outro lado do texto. Diz Adorno: "as obras falam como
as fadas nos contos". Quando pensamos que estamos comentando uma obra de
arte, ela nem aparece na superfície do texto.
Almandrade
NOTAS SOBRE ARTE
A arte é uma forma de conhecimento que exige leituras e reflexões
específicas.
.....
Sua apreensão não se limita ao olhar do primeiro instante. Sem as
informações necessárias passam despercebidos a pesquisa e o aprofundamento
da linguagem. A aparência satisfaz o olhar desavisado.
.....
"Só se vê aquilo que se olha". (Merleau-Ponty). O que percebemos numa obra
de arte é aquilo que recolhemos em nosso modelo de ver. O homem é inserido
numa sociedade, numa linguagem, por onde aprende a ver, pensar e sentir. A
linguagem é o dispositivo através do qual ele se apropria das coisas, dos
seres, das formas e das cores.
.....
Como arte pode ser qualquer coisa, em nome da arte contemporânea, somos
muitas vezes colocados diante de alguma coisa que dizem ser arte. Qual o
critério?
.....
Para o artista não basta saber pintar, muito menos se apropriar de imagens
ou objetos, de forma aleatória, é indispensável ter referências e dispor de
um método. Cada artista concebe sua arte a partir de sua própria teoria,
mesmo que esta não esteja explicitamente formulada.
.....
Uma obra encerra múltiplas possibilidades de indagação. Recriamos as imagens
em nossa percepção, e as modificamos subjetivamente de acordo com nossa
experiência de vida. Projetamos sobre elas os nossos valores e nossas
inquietações. As obras de arte se completam de formas diferentes na
imaginação de cada espectador. É também objeto de decoração, acrescenta ao
espaço habitado a curiosidade de um abrigo poético.
.....
Falar de arte é preciso aprender o método de observar sua produção, é
preciso ir do conceito à obra e da obra ao conceito.
.....
Compreende-se a arte a partir da obra, um processo ligado à experiência e ao
pensamento que aciona certas condições subjetivas do conhecimento. Se
conhece o artista através de sua obra, e esta é uma invenção da atividade do
artista, (Heidegger).
.....
É um fazer político localizado. A arte tem sua própria materialidade. Ela
não é lugar de apoio para outras políticas, mesmo essas chamadas culturais
que ignoram questões acerca das linguagens e suas transformações. "Ao curso
de grandes períodos históricos, juntamente com o modo de existências das
comunidades humanas, modifica-se também seu modo de sentir e perceber",
(Walter Benjamin). A arte participa dessas mudanças como tarefa política de
transformar a realidade dentro de um território determinado do saber.
.....
A arte está sujeita a um sistema de poder estranho ao fazer cultural. A arte
deixa de ser vista como um fenômeno cultural, para se tornar um fato
exclusivamente social e de mercado. O problema não é o mercado, ele é
necessário e tem um papel importante no circuito da arte, mas a importância
que ele vem assumindo como agente principal do circuito. Ele até facilitou a
produção, sem dúvida, mas fez com que o valor de troca levasse a reflexão à
recessão.
.....
Estamos atravessando um momento, onde é cada vez mais difícil a produção
cultural sem a interferência da mídia e dos interesses do mercado. Se a
ética desta sociedade é o consumo, tudo passou a ser determinado pela lei do
mercado: a saúde, a educação, a cultura, etc.
.....
O intelectual e o crítico são dispensáveis numa sociedade, onde o mundo do
pensamento é pouco tolerável, por outro lado, os patrocinadores, os
empresários da arte, os profissionais de marketing, os curadores... são os
protagonistas da arte.
.....
O artista que era um artesão desqualificado até século xiv, a partir do
Renascimento passou a ocupar um lugar de destaque no território do
conhecimento, e neste novo milênio ele é considerado o vilão da cultura.
.....
O que vem ocorrendo com as artes plásticas e a cultura de uma forma geral,
faz parte do espetáculo de uma sociedade que vê na retenção de riquezas o
objetivo da vida. Uma instituição cultural dispõe de poucos recursos, fica
por conta dos patrocinadores a programação e a política cultural.
......
Almandrade
A paisagem da pintura
por Almandrade
A pintura é a invenção de uma
paisagem com o pretexto de enunciar um modelo de conhecimento,
correspondente ao estágio da cultura, e eternizar um sentimento. O pintor se
aproxima da paisagem para explorar os limites do olhar, seduzido pela coisa
e a possibilidade de inventar uma imagem ou um horizonte, um lugar distante
daquilo que entendemos como realidade, capaz de reter a contemplação. De
fundo ou cenário para alguma coisa acontecer, a paisagem tornou-se o lugar
das satisfações e curiosidades do olhar. Para Rilke: "Ninguém pintou ainda
uma paisagem que seja tão completamente paisagem e seja, no entanto,
confissão e voz pessoal como esta profundidade que se abre atrás da Mona
Lisa."É preciso se desacostumar de uma forma habitual de ver o mundo, como
fez Leonardo da Vinci, e olhar as coisas com uma paixão e uma racionalidade
que esfacelam a idéia de uma percepção natural, sem a influência do
pensamento. A pintura é a possibilidade de uma idéia ou de um saber sobre a
paisagem.
Estamos sempre relacionando tudo que
vemos com a nossa carência de olhar, apropriamos das cenas vazias dando-lhes
o sentido que nos pareça conveniente, para insinuar uma comunicação sem a
interferência do raciocínio; mas o artista quer ir mais longe; enfrenta as
aventuras da imagem, olha para dentro das coisas procura no fundo da
paisagem, o que não se vê, à distância. A paisagem é meio de conhecimento e
não ilustração da realidade, ela pode ser tudo, pode vir do nada, isto é,
porque o nada, para o pintor, é a essência de tudo. Quando o céu era uma
realidade o olhar do pintor se restringia ao que era determinado pelo
sagrado, a geografia onde o homem realizava seu dia a dia encerrava os
limites da paisagem. No Renascimento, o pintor era religiosamente um
espectador, um observador do que estava próximo do campo visual, ele
desconhecia o outro lado que o olhar não penetrava, porque ele não se
misturava às coisas. Reproduzir a aparência das coisas era a essência da
arte, contemplava-se o quadro como se estivesse diante de uma janela ou de
um espelho.
A natureza enquanto paisagem não é
uma coisa isolada à espera de uma designação ou de uma determinação por
parte do homem, ele é parte dela e quando a percebe desenha os seus
contornos para registrar sua aparência, interrogar o visível e criar novas
possibilidades de expressão. Com a arte ele compreendeu também sua solidão
diante da natureza e a paisagem projetada na tela pode ser produto de suas
obsessões. Cézanne entra em cena. "Não é nem um homem, nem uma maçã, nem uma
árvore que Cézanne quer representar; ele serve-se de tudo isso para criar
uma coisa pintada que proporciona um som bem interior e se chama imagem" (Kandinsky).
Uma imagem inacabada porque o pintor não para de olhar e interrogar o
aspecto das coisas que compõem a sua paisagem. A pintura nunca está
terminada.
Ao transformar a paisagem em pintura
o pintor quer revelar a intimidade do mundo. "A pintura moderna do mesmo
modo que o pensamento moderno, obriga-nos a admitir uma verdade que não
reflita as coisas, sem modelo exterior, sem instrumentos de expressão
predestinados e não obstante verdade "(Merleau-Ponty). Uma verdade não
reproduzida, mas criada a partir de conceitos. Se na tradição renascentista
o pintor era o espectador ideal e racional do mundo, na modernidade, ele se
mistura aos seres e às coisas para transformá-los em imagens. O pintor
moderno pinta a paisagem cada vez mais de perto, com a intimidade de "voltar
às coisas" e alcançar o fundamento do "real". A paisagem moderna é um buraco
problemático de pensar o mundo e o homem está entre o mundo e as coisas como
se fosse um exercício de composição. No imaginário do artista, a paisagem
não é a analogia daquilo que a história do homem designou realidade. O
paisagista Claude Monet com sua percepção inquieta, disseca as aparências e
eterniza o instante refletido no seu jardim, pinta a descontinuidade do
tempo. Picasso inventa imagens de múltiplos pontos de vistas, fragmentando a
paisagem.
Para Mondrian, a paisagem é uma
combinação de horizontais e verticais, a depuração da composição.
Apropriando-se de imagens e objetos, Duchamp reinventa a paisagem, com o
riso e a reflexão. Pollock cria a paisagem americana, no rítimo gestual
proporcionado pelo acaso da tinta atirada sobre a superfície da tela. Neste
processo contínuo de desnaturalização do olhar, mudam-se a construção e a
percepção das imagens.
A paisagem não é a realidade que o
sonho não apagou, ela é também construída de sonhos. "Antes de ser um
espetáculo consciente, toda paisagem é uma experiência onírica" (Bachelard).
Que seja figurativa ou abstrata, espontânea ou racional, ela é objeto do
pensamento, é uma realidade semiológica, sujeita portanto, a uma variedade
de interpretações coerentes e incoerentes. A paisagem que o artista nos
oferece, é um espelho refletindo problemas para o olhar imaginar soluções
possíveis, mas não definitivas. A pintura se direcionou para a construção de
um objeto plástico autônomo e universal e fez da paisagem um campo
enigmático como se ela fosse um lugar de pensamentos secretos.
Almandrade
Artista plástico, poeta e arquiteto
O Nome
do Belo
"De um objeto sem nome não sabemos o que fazer".
Maurice Blanchot
O homem carrega dentro de si o medo do desconhecido; para disfarçar este
medo, ele atribui um nome ao fantasma que não conhece. A fala toma conta da
coisa, uma espécie de abrigo onde o homem se protege, negando a coisa e
reconstituindo-a longe do terror do real. O objeto, depois de nomeado, passa
para o mundo da linguagem. Como um ser atravessado pela palavra, o homem se
aproxima ou se distancia do mundo e das coisas, apropria-se do real e tenta
dominar o desconhecido. A coisa e o mundo tornam-se imagens e conceitos,
longe daquilo que o homem não desejava ver: as suas obscuras existências que
ameaçam o seu saber organizado.
Para se tornar mestre dos animais, Adão lhes impôs um nome aniquilando suas
existências, (Hegel citado por Blanchot). Na busca da cômoda ilusão de ver
um mundo ordenado e deter o incômodo do desconhecido, o homem usa do poder
da palavra, subtraindo do ser a sua existência, mergulhando-o no nada da
linguagem. Retendo enigmas inexplicáveis. A compreensão equivale a um
assassinato da coisa, o conceito é a ausência do ser. Por mais que a fala se
aproxime do objeto, há sempre um abismo entre o que se vê e o que se
enuncia. O objeto é sempre diferente dos inventários das percepções
possíveis.
O medo nos esvazia, causa pânico. É preciso encontrar um lugar, um conceito,
para se depositar o que não se entende. É impossível para o homem suportar a
coisa sem nome. O acesso mais fácil ao objeto ocorre a partir do que se pode
falar sobre ele, condição imposta pelo desejo de conhecimento. Para isto é
preciso nomear o desconhecido, submetê-lo à lei da fala. O inexplicável é
sempre um fantasma que angústia o homem. Ao se defrontar com a arte e sua
maldição do incompreensível, ele procura se defender atrás de um nome. É
como se o objeto sem uma designação ferisse o olhar.
"Je ne peins pas une famme, je fais um tableau¨.
Matisse
O artista inventa a ilusão de uma obra para transgredir a linguagem, ou como
queria Bataille, para pensar o impossível. Ao acumular um sistema de signos
perverso, o olhar do artista vem reclamar a presença de um sujeito
angustiado no conhecimento do mundo, um sujeito que desafia o desconhecido.
A arte não pretende explicar o mundo, mas transformar sua imagem e
aprofundar seu enigma. Ela tem como tema a essência da linguagem, uma
linguagem inquietante e contraditória, cercada de incertezas, que são as
próprias incertezas do homem diante de seu destino. Com a experiência
moderna, a arte mergulhou num túnel atrás do novo, de possibilidades
desconhecidas de olhar. Momentos do belo que assumiram designações, uma
mania do ocidente de tudo regulamentar e encaixar num determinado lugar.
Todo movimento tinha um nome, gerando um desencadeamento de "ismos", que
fazem a história do belo moderno.
O homem recorre à palavra para esconder seu medo de não entender esse objeto
silencioso, que projeta uma sombra desconhecida e provocadora. A
materialidade da arte poderia ser um fato sem explicação, embora ela garanta
sua existência independente de conceituações; o homem precisa explicá-la,
nomear sua intimidade, para se sentir seguro do terror daquilo que não faz
parte do seu modelo de conhecimento. É interessante ver, como exemplo, as
origens de certos nomes do belo moderno: A ironia de um crítico ao jovem
pintor francês George Braque, ao afirmar que este reduzia o mundo a cubos,
veio dar nome ao movimento de onde saiu as principais tendências da
modernidade: o Cubismo. O Dadá veio de uma palavra tirada por acaso do
dicionário "Larousse", que significava "Cavalo", na linguagem infantil.
Palavra que não definia nenhum programa, a não ser, a estranheza e a
irreverência de um grupo de artistas com a sociedade e a própria arte.
Não se fala para dizer alguma coisa, mas para dominar o mundo e as coisas,
para evitar o fantasma que não se sabe de onde veio e para que serve. Ou
para negar a natureza da obra de arte, torná-la legível e estabelecer uma
retórica da ordem cultural. Mas a fala não é suficiente para deter o
complexo de "problemas" e "segredos" que envolvem uma obra de arte.
Merleau-Ponty nos fala de um olhar interior, um terceiro olho que vê a obra
de arte, que vê o nada que ela acrescenta ao mundo para celebrar o enigma da
visualidade.
Depois de mais de cem anos de arte moderna marcada de rupturas e cortes com
a história, era preciso se livrar da angústia do novo contra a tradição,
encerrar este tempo moderno e fazer retornar o que foi esquecido. O que
poderia vir depois do desencanto com o moderno e seus estilos, para dar
conta dos novos procedimentos na linguagem da arte, só poderia ter um nome:
Pós-Moderno, e encerrar definitivamente o difícil desejo de esquecer o
passado e voltar o sonhar com ele, sem o complexo de culpa de não ser
moderno.
A realidade da obra de arte não se limita à realidade definida por um
conceito; qualquer definição não passa de tautologia. A arte vive este drama
do lugar incerto, da necessidade de um nome que não a define. Ela não busca
nem a verdade, nem a utilidade, ela imita realidade imaginárias, para
estabelecer novas relações simbólicas com o mundo. Se não há falas sem
respostas, a obra fala para demandar de quem a olha, respostas silenciosas.
Sustenta a fala do outro mas não se deixa seduzir pelas verdades contidas
nela. O desejo de dar nome, classificar o estilo, explica-se pelo fato de
que a percepção é condicionada por costumes e convenções. "Só se vê o que
estamos preparados para interpretar'", diz Peirce. Como o sábio que se
limita dentro de seu próprio saber, vê o que está ao seu redor a partir do
que sabe.
Por ser enigmas, as obras de arte irritam a teoria da arte (Adorno) e
incomodam o olhar desavisado. Elas se resumem em questões insolúveis,
porque, se respondem alguma coisa, respondem para si mesmas, falam de suas
inquietações particulares. A designação pós-moderna é também mais um lugar
incerto para acomodar um outro momento incompreensível da arte, às custas de
novas explicações. A identificação serve para fingir uma percepção a
respeito da estranheza da arte com o cotidiano, ou escamotear o medo diante
do silêncio da obra, que resiste aos conceitos, ao tempo e ao riso do
contemplador. O sintoma pós-moderno faz retornar a nostalgia da tradição
diante de um espelho moderno que reflete o velho desacordo entre o conceito
e a obra de arte. Este objeto escorregadio, onde o homem sublima sua
violência primitiva, muda de forma, muda de cor, troca de matéria e recebe
outros nomes.
Almandrade
(artista plástico, poeta e arquiteto)
O MUSEU E SUA FUNÇÃO CULTURAL
(2006 – Ano Nacional de Museus)
“o museu é uma instituição permanente sem finalidade lucrativa, a serviço da
sociedade e do seu desenvolvimento, aberto ao público, que realiza pesquisa
sobre a evidência material do homem e do seu ambiente, as adquire, conserva,
investiga, comunica e exibe, com finalidade de estudo, educa;cão e fruição.”
Conselho Internacional de Museus (ICOM)
O homem está sempre preocupado em preservar sua história e sua memória,
colecionando artefatos. Ele tem acesso ao seu passado através de relatos ou
depoimentos de testemunhas oculares, textos, enfim documentos. Quando se
defronta com a coleção de imagens e objetos, particularidades da vida
social, signos que habitam um museu, caverna moderna onde o homem urbano
fixa nas paredes os enigmas de sua passagem no tempo ou no mundo. Com isso,
não quero dizer que o museu é um caminho em direção ao passado, ele é um
lugar de possíveis diálogos entre passado, presente e futuro. Olhar o
passado é “estabelecer uma continuidade entre o que aparentemente deixou de
ser e o que ainda vai ser”, (Frederico Morais).
Um abrigo do velho e do novo. Mas do que uma instituição de festas e
inaugurações de exposições, ele tem um papel cultural importante, além,
abrigar os registros do tempo, manifestações culturais de uma região, país
ou de um determinado povo, objetos que testemunham o trabalho humano, é um
veículo a serviço do conhecimento, da educação e da informação que contribui
para o desenvolvimento da sociedade. Os museus são instituições com
tipologias diferentes que guardam acervos, peças integrantes da memória
cultural de uma cidade, de um país. O ato de colecionar foi uma das ações
que estimulou o seu surgimento e a própria coleção vai educando o olhar,
impondo exigências, critérios, qualidades, exigindo espaços adequados, etc.
e a necessidade de ser vista. Vai se constituindo num patrimônio que precisa
ser preservado. Seu destino é o museu.
2006 é o ano nacional de museus determinado pelo Ministério da Cultura. Como
pensar os museus e sua função cultural nos tempos difíceis que estamos
vivendo? Eles passam por problemas como: falta de recursos, de profissionais
especializados, sem instalações adequadas, enfim falta uma política pública
para os museus que os vejam não como dispositivos da indústria de
entretenimentos. Mas se a própria universidade, o lugar da produção de
conhecimento, vem perdendo a intimidade com a reflexão e se transformado
numa fábrica de mão de obra especializada, o que podemos esperar de uma
instituição museológica, neste contexto? Para um pré-socrático chamado
Parmênides: saber é um discernir, para Sócrates e Platão (alegoria da
caverna), um discernir sobre o que é real e sua sombra projetada na parede
da caverna. Aprendemos com Espinosa que se não há pensamento não há
liberdade. O homem é escravo do que não conhece. Esquecemos os gregos,
desprezamos a filosofia e o exercício da reflexão e estamos construindo uma
cultura descartável. Não há mais questão cultural em jogo, mas um jogo de
interesses da sociedade do espetáculo e da indústria cultural.
Desde quando a política e a economia reservaram à cultura um espaço quase
que insignificante, dentro das prioridades da vida urbana, interesses
alheios comprometeram o funcionamento das instituições culturais. A cidade
precisa de tecnologias, partidos políticos, técnicos, políticos,
empresários, especialistas em áreas diversas, etc., mas acima de tudo,
precisa de uma tradição cultural e do exercício da cidadania, para que ela
própria signifique. Um museu guarda mais do que obras e objetos de valor e
de prestígio social, uma situação, um fragmento da história, portanto um
problema cultural. Tudo que nele é exibido deve ter um compromisso com o
conhecimento, a memória e a reflexão. Sua programação não deveria ser
decidida por patrocinadores que tem como objetivo final vender produtos
muitas vezes até desnecessários, e circular uma imagem de que está
contribuindo para o “desenvolvimento cultural”.
Estas instituições não são fantasmas do mundo civilizado alimentadas pelo
olhar apressado das câmaras fotográficas do turista curioso ou do olhar
atraente e mundano do público das vernissages. Estão a serviço do pensamento
crítico da sociedade e sua história, portanto um laboratório reservado a
estudos, experimentações, integrando produtores e consumidores de produtos
culturais. Vinculadas a um saber especifico, que toda comunidade tem direito
ao seu acesso, mas na prática são espaços restritivos do ponto de vista
intelectual, principalmente em cidades sem uma “tradição cultural
museográfica”.
Sua localização geográfica é fundamental no sentido de facilitar o acesso de
estudantes, curiosos, turistas, do público em geral que lida com as diversas
formas de saber. Em cidades como Salvador, um museu poderia ser um agente de
contribuição na revitalização do centro da cidade, quando ele está próximo
dos serviços urbanos oferecidos, como sistema de transportes coletivos e
segurança. Bom para a cidade e bom para o museu. É preciso inventar soluções
compatíveis e possíveis com os poucos recursos disponíveis, para garantir
sua vitalidade.
O que é visitar um museu? O que se busca nele? Um museu é um centro de
informação e reflexão, onde o homem se reencontra com as possíveis invenções
da estética, a história e a memória. Seu conceito foi ampliado e renovado
nos fins do século XVIII, com o advento da revolução francesa. Mas sem um
projeto cultural que valorize seu próprio acervo e o que nele é exposto, sem
deixar que eles se transformem em suportes para marcas publicitárias, o
museu é apenas um lugar que atrai olhares dispersos, sem interesses
culturais.
Sem recursos financeiros e depois que a responsabilidade cultural foi
transferida para a iniciativa privada que tem como principal critério de
seus patrocínios o impacto na mídia, muitos museus vêm se transformando em
instituições de entretenimento para atrair grandes públicos consumidores de
subprodutos culturais, quem sabe também futuros consumidores das marcas que
patrocinam os seus eventos.
Os museus, em particular os de arte, ultrapassaram a simples função de
guardar e preservar bens culturais e assumiram várias tarefas e outras
funções como o ensino livre da arte, foram equipados com bibliotecas,
auditórios para debates, conferências, cinemateca. Umas das principais
vanguardas brasileiras na arte o “Neo-Concretismo” surgiu praticamente no
curso do prof. Ivan Serpa no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. As
oficinas de arte Museu de Arte Moderna da Bahia vêm prestando um trabalho
social e educativo na formação de artistas e público. A prática museológica
tende a se ampliar e integrar o desenvolvimento urbano, seu objeto de estudo
diz respeito também à paisagem urbana, ruas, praças, quarteirões. “Museu é o
mundo; é a experiência cotidiana...”, (Hélio Oiticica). As cidades,
principalmente as cidades históricas são espaços museográficos.
Almandrade
(Artista plástico, arquiteto, mestre em desenho urbano e poeta)
www.expoart.com.br/almandrade
http://www.imperios.com/monse/escultor/almandrade/almandrade.htm
www.provadoartista.com.br/almandrade.html
Alguns links sobre o artista
www.directory.com.br/almandrade
www.expoart.com.br/almandrade
Arquitetura de Algodão - Poesias Reunidas:
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